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12.05.2004

O que está em cima e o que está embaixo

Publicado originalmente em 22-01-2004

Um dos axiomas centrais do esoterismo ocidental é o conceito de que o homem é um microcosmo cuja estrutura reflete todos os aspectos do macrocosmo, isto é, o universo mais amplo que o cerca. Foi esse axioma que serviu de justificativa para a astrologia tradicional no Renascimento, quando os astrólogos precisavam demonstrar para as autoridades eclesiásticas que o que eles estavam fazendo tinha bases racionais na filosofia natural e não envolvia nenhum trato com demônios. É ele também que forneceu a base para a crença dos praticantes da alquimia física (em contraste com a alquimia espiritual ou psicológica) de que as transformações dos elementos químicos no atanor seguiam em paralelo com as modificações internas do próprio alquimista. Encontramos essa idéia refletida ainda nas correspondências que a cabala estabelece entre as diferentes partes do corpo e da alma humanos e as Sephiroth, os arquétipos a partir dos quais Deus criou o mundo, e em um sem número de outras doutrinas. Recentemente, ela ganhou um reforço da ciência com o estudo dos fractais e o modelo holográfico do universo, que mostram como a estrutura do todo se reflete matematicamente em cada uma de suas partes. Apesar de todo esse sucesso de público e de crítica, no entanto, me parece que o conceito de microcosmo não foi bem-compreendido. Se examinarmos com atenção as fontes desse conceito, bem como alguns símbolos tradicionais do microcosmo, vamos perceber que a imagem do homem como um espelho do universo é, na verdade, uma distorção do sentido original, que era bem mais profundo - e complexo.

A Tábua de Esmeralda. - No esoterismo ocidental, a idéia de microcosmo e macrocosmo se origina da Tábua de Esmeralda, um texto alquímico atribuído a Hermes Trismegisto, mas escrito provavelmente por volta do século II d.C. (embora possa, evidentemente, refletir doutrinas bem mais antigas). A Tábua de Esmeralda faz parte do Corpus Hermeticum, uma coletânea de escritos gnósticos e alquímicos do período do helenismo, que se tornou um dos principais fundamentos do ocultismo na Europa, especialmente depois que os magos renascentistas o redescobriram através da clássica tradução de Marsílio Ficino. É um texto curto, mas rico em significados, que vale a pena reproduzir aqui (na tradução de meu falecido amigo Norberto de Paula Lima):

"É verdadeiro, completo, claro e certo. O que está embaixo é como o que está em cima e o que está em cima é igual ao que está embaixo, para realizar os milagres de uma única coisa.

Ao mesmo tempo, as coisas foram e vieram do Um, desse modo as coisas nasceram dessa coisa única por adoção.

O Sol é o pai, a Lua a mãe, o vento o embalou em seu ventre, a Terra é sua ama; o Telesma do mundo está aqui.

Seu poder não tem limites na Terra.

Separarás a Terra do Fogo, o sutil do espesso, docemente com grande indústria.

Sobe da Terra para o céu e desce novamente à Terra e recolhe a força das coisas superiores e inferiores. Desse modo obterás a glória do mundo e as trevas se afastarão.

É a força de toda força, pois vencerá a coisa sutil e penetrará na coisa espessa.

Assim o mundo foi criado."

Esta é a fonte das admiráveis adaptações aqui indicadas. Por esta razão fui chamado de Hermes Trismegisto, pois possuo as três partes da filosofia universal.

O que eu disse da Obra Solar é completo.

A segunda metade do texto é uma descrição resumida da Grande Obra alquímica, aqui chamada de "Obra Solar". Já a primeira metade é um relato alegórico da criação do mundo, e foi daqui que saiu o conceito de microcosmo, especialmente da frase inicial, freqüentemente citada nos livros esotéricos. Vamos reler a frase pedaço por pedaço. Ela diz que o microcosmo (o que está embaixo) é como o macrocosmo (o que está em cima), o que está bem de acordo com aquela coisa toda do homem como espelho da natureza. Mas a frase continua, dizendo que o macrocosmo também é igual ao microcosmo, e essa parte é freqüentemente esquecida. Ao contrário do que a metáfora do homem como espelho levaria a sugerir, não existe nenhum privilégio do macrocosmo como sendo a fonte e o microcosmo como um reflexo, porque juntos os dois realizam os milagres de uma única coisa. Ou seja, não existe uma separação entre o que está em cima e o que está embaixo, e o macrocosmo e o microcosmo são a mesma coisa: desse modo, as coisas nasceram dessa coisa única por adoção.

O Telesma do mundo. - Da mesma forma, seria perfeitamente possível considerar que é o universo exterior que não passa de um reflexo do homem, bem dentro do espírito da conhecida frase do sofista grego Protágoras: "O homem é a medida de todas as coisas, das que são e das que não são." A favor dessa interpretação alternativa está aquele neologismo perdido quase no final do terceiro parágrafo: "o Telesma do mundo está aqui".

Telesma não é uma palavra grega. É uma adaptação do termo hebraico tselem, que quer dizer "imagem" - o mesmo que aparece no Gênesis quando Deus diz: "Façamos o homem à nossa imagem e semelhança." No século XIX, a Golden Dawn reviveu o termo com o conceito de imagem telesmática, que significa a visualização de uma imagem simbólica representando uma entidade espiritual e, no fundo, é uma redundância (ao pé da letra, quer dizer "imagem imagética" ou algo que o valha). Mas deixemos estar a Golden Dawn. O que nos interessa aqui é que, ao empregar essa palavra, a Tábua de Esmeralda afirma com todas as letras que o mundo é uma imagem. Pode-se acrescentar a isso um reforço de ordem cabalística. É que o valor numérico de tselem, 720, é o mesmo do advérbio hebraico ken, "assim, assim foi", que comparece como um leitmotiv no relato da Criação (Gn I):

7 Fez, pois, Deus o firmamento, e separou as águas que estavam debaixo do firmamento das que estavam por cima do firmamento. E assim foi.

9 E disse Deus: Ajuntem-se num só lugar as águas que estão debaixo do céu, e apareça o elemento seco. E assim foi.

11 E disse Deus: Produza a terra relva, ervas que dêem semente, e árvores frutíferas que, segundo as suas espécies, dêem fruto que tenha em si a sua semente, sobre a terra. E assim foi.

14 E disse Deus: haja luminares no firmamento do céu, para fazerem separação entre o dia e a noite; sejam eles para sinais e para estações, e para dias e anos;

15 e sirvam de luminares no firmamento do céu, para alumiar a terra. E assim foi.

Sol e Lua. - De acordo com a Tábua de Esmeralda, o Telesma do mundo é produzido pela união do Sol e da Lua (O Sol é o pai, a Lua a mãe). É evidente que, com isso, ele não está se referindo ao Sol e à Lua físicos. Sol e Lua são dois dos símbolos arquetípicos mais universalmente difundidos, e enciclopédias inteiras poderiam ser (e foram) escritas só sobre o simbolismo solar e lunar. Cutting to te chase, porém, vamos direto ao significado essencial, do qual todos os outros são variações, aprofundamentos e derivações.

O Sol representa a luz da consciência, seja ela a consciência ordinária do ego, seja a consciência cósmica do espírito, ou, em termos mágicos, a Verdadeira Vontade a que se refere Crowley. A Lua, por sua vez, é modernamente interpretada como o inconsciente mas, no simbolismo esotérico tradicional, ela é ao mesmo tempo a imaginação e a intuição. Assim, uma maneira de entender a Tábua de Esmeralda - certamente não a única, mas a que nos interessa aqui - é como querendo dizer que o mundo enquanto imagem é criado pela confluência da imaginação e da vontade. Para entender melhor esse processo, o leitor pode se remeter a meu segundo post sobre Magia e Anarquismo, onde o assunto é tratado mais profundamente.

Em outras palavras, e ao contrário da nossa compreensão ordinária, é a imaginação que produz tanto o macrocosmo quanto o microcosmo que, de fato, são uma única e a mesma coisa. Nossa percepção, no entanto, fragmenta essa coisa única e projeta uma parte dela para fora, como realidade exterior. Nas palavras do mago contemporâneo Kenneth Grant, autor de O Renascer da Magia: "Conforme o Homem vai desvelando e entendendo os poderes de sua própria constituição, ele se dá conta de que o Macrocosmo (Universo) está contido dentro dele, e não o contrário, pois o Homem - sendo o único Microcosmo completo - somente ele, entre todas as ordens da existência, tem um elo com, ou possui dentro de si próprio, o potencial da gama inteira da manifestação."

O Pentagrama. - É a essa conclusão que se chega também ao se analisar o símbolo do pentagrama. Criado pelos pitagóricos, o pentagrama - que os maçons denominam de Estrela Flamejante - foi incorporado pelos gnósticos, de onde passou para a magia. Há um capítulo inteiro do Dogma e Ritual da Alta Magia em que Eliphas Lévi analisa o simbolismo do pentagrama que, para ele, é uma representação da totalidade do universo. O vértice superior simboliza o espírito e as outras quatro pontas respondem pelos quatro elementos - terra, fogo, ar e água - dos quais o mundo é constituído segundo a cosmologia tradicional. Essa análise de Eliphas Lévi serviu de base para que Samuel McGregor Mathers e Wynn Westcott desenvolvessem o sistema da Golden Dawn, inteiramente calcado na relação entre o espírito e os quatro elementos, e uma das principais cerimônias mágicas da Golden Dawn são os Rituais do Pentagrama, usados para a invocação das forças elementais. O pentagrama é, pois, uma espécie de emblema resumido do macrocosmo.

Mas também é um símbolo do microcosmo.

De fato, no sistema pitagórico de onde ele se originou, o pentagrama era a representação geométrica do número 5 que, para Pitágoras e seus seguidores, era o número do ser humano. Uma das razões para isso (existem outras, de ordem mais esotérica) é que os vértices do pentagrama representam os cinco sentidos. Além disso, um ser humano com os braços e as pernas abertos forma um pentagrama, de onde o célebre desenho renascentista, algumas vezes atribuído a Leonardo da Vinci, que mostra um homem inscrito no interior do pentagrama.

A pergunta óbvia é: como o mesmo símbolo pode representar dois conceitos opostos? E a resposta, não menos óbvia: é porque não são dois conceitos opostos. Se a mesma figura responde ao mesmo tempo pelo macrocosmo e pelo microcosmo, a conclusão inevitável é que ambos formam uma só realidade - a mesma conclusão a que havíamos chegado analisando a Tábua de Esmeralda.

Com isso em mente, voltemos para o pentagrama enquanto insígnia do macrocosmo. "O pentagrama exprime a dominação do Espírito sobre os elementos", explica Eliphas Lévi. No parágrafo seguinte, ele continua: "Armados deste signo e convenientemente disposto, podeis ver o infinito através daquela faculdade que é como o olho de vossa alma, e vós vos fareis servir por legiões de anjos e colunas de demônios." Algumas linhas abaixo, Lévi especifica que "aquela faculdade que é como o olho da alma" não é outra senão a imaginação: "O que se chama, em nós, imaginação, não é mais que a propriedade inerente à nossa alma de se assimilar as imagens e os reflexos contidos na luz viva, que é o grande agente magnético." E conclui (o grifo é nosso): "Assim, para o sábio, imaginar é ver, como, para o mago, falar é criar."

Podemos ver, assim, que o que Lévi chama de "dominação do Espírito sobre os elementos" é, na verdade, a criação dos elementos pelo espírito, e que essa criação se dá por meio da imaginação. Dessa forma, não só o pentagrama aponta para o fato de que o macrocosmo é a mesma coisa que o microcosmo, como seu próprio traçado implica no macrocosmo emergindo do microcosmo por meio da imaginação - isto é, a tradução dos símbolos psico-espirituais em imagens tangíveis, que aparecem à nossa percepção como se fossem uma realidade exterior.

Átomo e Arquétipo. - A visão tradicional parte de uma perspectiva dualista, que coloca de um lado uma realidade externa, constituída pelo universo material e suas forças, e do outro uma realidade interior, composta pela estrutura psicofísica do homem. Entre essas duas realidades, existiria uma relação de subordinação, pela qual a realidade interior (o microcosmo) é apresentada como um mero reflexo da realidade externa (o macrocosmo). Tentamos mostrar que não é isso que está expresso na concepção esotérica, mas algo muito mais radical: a verdadeira identidade entre a realidade externa e a interna. Pois bem, foi a esse mesmo resultado que chegaram duas das principais inteligências do século passado, o psicólogo Carl Gustav Jung e o físico Wolfgang Pauli, um dos criadores da mecânica quântica.

Partindo de direções opostas - Pauli de uma exploração sistemática da estrutura da matéria e Jung de um mergulho intensivo nas profundezas da psique -, eles perceberam que, num nível fundamental, matéria e psique se fundem. Encontramos eloqüentes expressões dessa realidade na correspondência que os dois cientistas trocaram durante mais de vinte anos. O que nos aparece como sendo um mundo de objetos materiais e o que interpretamos como sendo realidades psicológicas são duas expressões diferentes da mesma totalidade indiferenciada, a partir da qual o universo que percebemos é projetado. À luz de Jung e Pauli, as palavras da Tábua de Esmeralda, ainda que com um sentido diverso do que se costuma lhes atribuir, nunca foram tão verdadeiras: "O que está embaixo é como o que está em cima e o que está em cima é igual ao que está embaixo, para realizar os milagres de uma única coisa." Como diria Hermes Trismegisto, é verdadeiro, completo, claro e certo.

Posted by Malprg at 09:15 Depois do meio-dia in Esoterismo, Filosofia, Percepção e realidade | Permalink

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Comments

Resposta para muitas das minhas perguntas...

Posted by: Michelle Morais at 2008/11/05 17:22:35