02-02-2008

Os Senhores do Karma

AmygdalaAmígdala quer dizer "semente" em latim. É um nome perfeitamente apto, uma vez que as amígdalas são as sementes do que as religiões orientais denominam karma. Não estou falando, naturalmente, das amígdalas que temos na garganta, mas de duas estruturas cerebrais que correspondem ao coração do nosso sistema límbico, a parte do cérebro onde nossas emoções são produzidas e processadas. Temos duas amígdalas, uma em cada hemisfério. A amígdala do hemisfério esquerdo gera nossas reações emocionais positivas - alegria, satisfação, contentamento. A amígdala do hemisfério direito, ao contrário, produz as emoções negativas, como o medo e a raiva. Estou simplificando, claro. Muitos dos nossos sentimentos são compostos de reações emocionais complexas, que nascem da interação entre ambas as amígdalas. Mas, em linhas gerais, é isso.

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09-02-2007

Casa de Orates

Eu não sou o primeiro a dizer isso, e Deus queira que também não seja o último, mas o sistema vem cada vez mais encontrando no discurso médico um aliado de peso para estimular um comportamento conformista nas pessoas. Oalien1_1 É bem verdade que isso não é de hoje, vem pelo menos desde o século XIX, com o Psychopatia Sexualis de Kraft-Ebing, e Michel Foucault dedicou boa parte de sua obra a esmiuçar a arqueologia desse processo, com a História da Loucura e O Nascimento da Clínica. Mas, com o colapso pós-moderno das metanarrativas que sustentavam as ideologias totalizantes, de esquerda e de direita, dá a impressão de que esse processo se intensificou. Tudo se passa como se a máfia de branco tivesse sido convocada com urgência para preencher o vácuo ideológico, usando a suposta neutralidade do discurso clínico para mascarar o que, ainda e sempre, continua sendo uma postura ideológica. Afinal, se um respeitável médico, com a parede abarrotada de diplomas, diz pra você que isto ou aquilo é uma doença e que é melhor agir assim ou assado, quem é você para duvidar?

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25-03-2005

A Natureza é Sábia

Não existe melhor antídoto para as idealizações bicho-grílicas da natureza do que estudar o comportamento animal de perto. Vistos no plano geral ou numa bela panorâmica, o mundo animal pode parecer a própria imagem do paraíso perdido, um reino de harmonia e tranqüilidade, sem os medos e a agressividade que costumamos associar à civilização. Basta aproximar a câmera, no entanto, e encontraremos diversos exemplos de como a vida natural está longe de ser esse oásis de paz com que sonham os que cantam a sabedoria dos instintos e atribuem todas as mazelas do ser humano à perda de contato com os ciclos do comportamento natural.

O meu exemplo favorito sempre foram as vespas da família pompilidae. Diferentes das vespas sociais, que vivem em comunidade, as pompilidae são predadores solitários, que se alimentam de insetos e aranhas. Quando chega a época da reprodução, essas vespas adotam um comportamento bastante peculiar. Já fecundada pelo macho, a fêmea da vespa ataca uma aranha com seu ferrão - normalmente, a vítima é uma caranguejeira ou tarântula, ou seja, também não é flor que se cheire. Mas dificilmente alguma criatura mereceria o destino do pobre aracnídeo atacado: a aranha é imoblizada pelo veneno da vespa, que então deposita os ovos em suas costas. Passado o efeito do veneno, a aranha segue sua vida normalmente, sem saber que o interior do seu corpo carrega dezenas de larvas que se alimentam de seu sangue até atingir o estado de pulpa. A partir desse momento, a aranha é literalmente devorada viva por seus parasitas.

Se ocorresse num ser dotado de autoconsciência - como se diz que é o caso dos seres humanos -, esse comportamento predatório seria visto como o supra-sumo da crueldade. Mas, como é praticado por um robô biológico sobre outro robô biológico, a maldade inerente ao ato passa batido.

Manip1l_1 Essa já seria uma ilustração suficientemente didática para todos os que defendem a sabedoria da natureza. Em 2000, entretanto, o entomologista William Ebehard descobriu uma espécie de vespa que eleva esse comportamento a um requinte inimaginável, digno dos melhores pesadelos de filme-B sobre parasitas alienígenas. Ao contrário da maioria das pompilidae, o alvo dessa vespa são aranhas da família Plesiometa argyra, fazedora de teias. Como de praxe, a aranha é temporariamente paralisada pela vespa e infectada por suas larvas. Durante uma ou duas semanas, a aranha continua tecendo sua teia normalmente, enquanto é vampirizada pelas futuras vespinhas.

Passado esse prazo, porém, os parasitas assumem o controle da aranha e a obrigam a tecer o casulo que os abrigará durante a metamorfose de larva a vespa adulta, no decorrer da qual, obviamente, elas devoram a aranha.

Manip3l_1Parasitas que escravizam o hospedeiro, obrigam-no a trabalhar para eles e depois o sacrificam para seu próprio benefício? Não é assim que age a classe dominante nas sociedades humanas? Alguém pode me explicar por que é que a mesma atitude que é vista na civilização como um crime abominável e uma exploração cruel torna-se aceitável quando ocorre entre os animais? O fato de, no caso destes últimos, a crueldade ser fruto de uma programação biológica inexorável não deveria torná-lo ainda mais assustador, em vez de desculpá-lo?

É esse o tipo de sabedoria dos instintos que nos dizem que perdemos e temos que recuperar? Os ecologicamente corretos que me desculpem, mas esse tipo de harmonia com a natureza, na boa, eu tô dispensando...

17-03-2005

Castelo de Mentiras

Até que demorou. Em outros tempos, o olhar implacável da Santa Sé teria caído sobre Dan Brown antes mesmo que o livro fosse publicado (por que é que vocês acham que os livros tinham que ter o imprimatur da Igreja para serem impressos?). Mas, com a vecciaria galopante que cada vez mais reduz o Papa a um feixe de doenças ambulante e a corrida para a sucessão a todo vapor, é compreensível que a Congregação para a Doutrina da Fé tenha esperado O Código da Vinci bater a casa dos vinte milhões de cópias para reagir, indignada, contra o que seu vice-presidente, o Cardeal Tarcisio Bertone, qualificou como "um castelo de mentiras". Segundo informaram ontem a Folha (link só para assinantes, pra variar) e o português Diário de Notícias, Bertone resolveu fazer uma pausa em seus sonhos de papável para mover uma cruzada contra o romance de Dan Brown.

A Congregação para a Doutrina da Fé foi fundada no século XVI e, caso o leitor não esteja ligando o nome à pessoa, durante muito tempo foi mais conhecida como Santa Inquisição. Aquela mesma que nos tempos da Contra-Reforma abriu uma rede de churrascarias cujos pratos principais eram bruxas e judeus. Seu atual presidente - o superior imediato de Bertone e, ao mesmo tempo, seu concorrente ao Trono de Deus - é o Cardeal Joseph Ratzinger, que tem entre os seus feitos a mordaça imposta à Teologia da Libertação na década de 80. Pelas declarações de Bertone, é óbvio que, se pudesse, a Congregação também levaria Dan Brown à fogueira. Mas, como os tempos são outros, tudo que ele pode fazer é promover uma série de palestras com o objetivo de denunciar os "erros vergonhosos e infundados" do livro.

"Não se pode escrever um romance que deforma os fatos históricos, maldizendo ou difamando personagens que devem seu prestígio e sua fama justamente à história da igreja e da humanidade", declarou Bertone à imprensa italiana. Já com a paranóia típica dos poderosos correndo em suas veias, o cardeal acredita piamente que o sucesso mundial do Código da Vinci faça parte de uma estratégia deliberada para desacreditar a Igreja Católica - como se precisasse de uma conspiração para isso.

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20-02-2005

A Mutação do Estado de Sístase

No início da era cristã, os gnósticos identificaram e descreveram um complexo sistema que operava simultaneamente nos planos físico, psíquico e social, e cuja finalidade era dupla: de um lado, manter o ser humano em uma condição de dependência dos poderes externos (sejam eles outros seres humanos, as forças determinísticas da natureza ou divindades tirânicas); do outro, drenar a energia excedente da psique, para impedir que a consciência do ser humano se elevasse a um nível incompatível com essa dominação. Esse sistema foi minuciosamente analisado por Valentino, fundador de uma das principais seitas gnósticas da antigüidade, que deu a ele o nome de sístase.

Os gnósticos foram os primeiros a apontar com clareza para o modo como as estruturas de poder da sístase se enraízam no próprio corpo. Mal-interpretada por seus detratores cristãos, essa descoberta deu origem à falsa crença de que os gnósticos fossem dualistas, que pregavam uma separação radical entre o espírito e o corpo, enxergando este último como a fonte de todo o mal. Não é verdade, e o estreito vínculo entre corpo e poder foi redescoberto no século XX por Wilhelm Reich, que rebatizou a sístase como "couraça muscular" e intitulou o primeiro capítulo de seu Psicologia de Massas do Fascismo de "A Ideologia como Força Material". Reich descobriu também, aprofundando uma idéia lançada originalmente por Freud no início da psicanálise, que o principal aparelho ideológico usado pelo sistema para gravar essas estruturas na própria carne das pessoas (à maneira da Máquina em "Na Colônia Penal", de Kafka) é nada menos que a família.

O passo seguinte, por assim dizer, veio com Foucault, na década de 60. De um lado, Foucault confirmou a alegação gnóstica sobre a universalidade do sistema de dominação, ao mostrar que o poder não se difunde apenas verticalmente, imposto de cima para baixo, mas também horizontalmente, através de uma malha ubíqua de relações sociais (inclusive as familiares), o que faz com que cada um de nós torne-se um agente involuntário do poder, ao mesmo tempo prisioneiro, carcereiro e cárcere. Do outro, Foucault salientou o caráter histórico da sístase: embora o sistema de dominação, como tal, se perpetue através das gerações, estendendo-se sabe Deus desde quando (talvez desde Adão transido de medo aos pés da Árvore do Conhecimento), suas estruturas sofrem mutações periódicas para se adaptar às novas circunstâncias sociais e históricas que inevitavelmente surgem.

Como exemplo dessas mutações, pode-se citar a sexualidade (tema de um estudo clássico de Foucault em três volumes, a História da Sexualidade). Durante a Era Vitoriana, o sexo foi submetido a um escrutínio feroz por parte das autoridades médicas, sociológicas e políticas, com o objetivo de mantê-lo sob um rigoroso controle, devidamente enquadrado no sistema. Na época de Reich (e de Freud), essa repressão sexual - embora mais complexa do que tanto Freud quanto Reich acreditavam, já que não visava a calar o sexo mas, pelo contrário, a fazê-lo falar, como um prisioneiro sob interrogatório - era um dos traços dominantes da sístase, e se tornou a pedra-de-toque de seus respectivos métodos terapêuticos. Vieram as duas grandes guerras mundiais, que despedaçaram a sociedade vitoriana e uma das conseqüências disso foi a revolução sexual dos anos 60, saudada pela Contracultura e por uma geração de hippies como uma libertação. Mas, como Marcuse alertava em Eros e Civilização, a liberação sexual fazia parte, na verdade, de uma estratégia do sistema, a que ele chamou de dessublimação repressiva - depois de interrogado, torturado e virado do avesso, o prisioneiro passou a colaborar com a sístase, que continua muito bem, obrigado, mesmo em tempos de sexualidade (aparentemente) livre. Qualquer dúvida quanto a isso, é só ver o constante apelo da publicidade ao sexo como motivação para o consumismo. Quem olha para essa deslumbrante mulher seminua, orgulhosamente adaptada depois de um século de lavagem cerebral, jamais adivinharia seu passado de revolucionária. Sexualidade, teu nome é Patty Hearst.

E agora, que a revolução informática conectou o mundo todo, gerou acesso instantâneo à informação e, durante um breve período, ameaçou chacoalhar as estruturas de dominação (numa promessa, infelizmente, não cumprida, mas que, mesmo assim, gerou seus frutos), tudo indica que o estado de sístase está prestes a sofrer uma nova mutação.

É o que indica o artigo de Hara Estroff Marano, publicado no caderno Mais! de 20-02-2005 (link só para assinantes - por falar em acesso instantâneo à informação).

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31-10-2004

Picaretagem hi-tech

Yumemikobo1
No ano passado, quando os japoneses anunciaram a invenção da Yumemi Kobo, a máquina de programar sonhos, admito que cheguei a ficar entusiasmado, até esbocei um comentário para colocar no Franco-Atirador, destacando seus possíveis usos mágicos, como instrumento de sigilização e pathworkings. Mas acabei não postando o comentário, porque não consegui encontrar em lugar algum uma descrição razoável dos princípios por trás do funcionamento da geringonça. E ainda bem que eu não postei, porque agora que a Yumemi Kobo está sendo lançada no mercado (por um preço até razoável, US$ 140), dá para ter uma idéia um pouco melhor de como a bagaça opera. De acordo com a matéria publicada na Veja desta semana:
Yumemikobo

O procedimento é simples. Primeiro, o usuário escolhe um tema, uma situação, um personagem, um local. Depois, baixa na máquina uma fotografia digital relacionada e se concentra nela por algum tempo, ainda acordado. Durante o sono, a maquininha cor-de-rosa, com pouco mais de 30 centímetros de altura e jeitão de liqüidificador, reproduz músicas e frases também pré-programadas pelo usuário. Ao mesmo tempo, libera fragrâncias suaves e pisca levemente luzes coloridas - recursos que não têm uma função muito clara no processo. Oito horas depois, acorda o sonhador lenta e gradualmente, com aumento gradual do volume da música e da intensidade das luzes. Isso, segundo a fabricante Takara, permite que ele se lembre quase perfeitamente do que sonhou.

Yumemi1
Não é que essa traquitana não possa ser usada para operações mágicas e de exploração do inconsciente. Afinal, o uso de correspondências entre cores, formas, sons e perfumes é um dos princípios operativos da magia cerimonial e, se a Yumemi Kobo permitir que o usuário insira sua própria programação, em vez de depender apenas dos programas fornecidos pelo fabricante, a coisa pode funcionar que é uma beleza. Mas funciona por quê? Ora, bolas, por causa da boa e velha sugestão, a mesma que vem sendo usada a décadas em qualquer método de programação dos sonhos, sem precisar de auxílio algum da tecnologia. Convenhamos, o truque é feito no momento em que o camarada se concentra sobre a foto, o que quer dizer que o único elemento dispensável na máquina é a própria máquina, tão útil quanto um pente elétrico. Não se pode nem mesmo dizer que ela aumente a eficiência do processo, porque, ainda segundo a Veja, o índice de sucesso é exatamente o mesmo das técnicas "manuais":
Yumemikobo2
Testes realizados pela Takara apontam um índice de desempenho satisfatório de 22% - sendo "satisfatória" a lembrança de um personagem ou um fato pré-escolhido, e não necessariamente o roteiro inteiro.

Pensando bem, US$ 140 não é um preço tão razoável assim. Como sugere o próprio nome da fabricante, essa maquininha inútil Takara. Muito cara.

18-05-2004

A doença política

capitalism

Marx dizia que ser apolítico já é uma posição política, e eu concordo. Mas Marx dizia isso com uma intenção crítica, e eu discordo. Minha posição política é ser apolítico. Quando proferiu essa frase, que a esquerdalha sempre teve na ponta da língua, a intenção do velho diabo era levar o ouvinte a crer que ou você estava com os comunistas ou era um lacaio servil e abjeto do capitalismo. O desenrolar da história mostrou que a diferença entre os dois lados não era assim tão grande quanto uns e outros supunham, uma constatação da qual a recente egotrip etílica do outrora ídolo-mor da esquerda brasileira não passa de uma confirmação desnecessária. Esquerda e direita são duas formas de se posicionar dentro do sistema, mas é dentro do sistema que ambas se posicionam. Este haure suas forças da existência de classes em conflito, quaisquer que sejam elas; de haver exploradores e explorados, não importa quem explora quem; de uma hierarquia, e a composição específica dos níveis hierárquicos é olimpicamente indiferente. Hegemonia capitalista ou ditadura do proletariado, do ponto de vista do sistema dá tudo no mesmo. Ele continua vivo e atuante, contanto que haja um pólo positivo e outro negativo para gerar energia, como em qualquer pilha Duracel. Da mesma forma que uma usina hidrelétrica, é preciso apenas que alguém esteja por cima e outro alguém esteja por baixo. E é a esse desnível - estrutural, necessário, fundamental para o sistema - que chamamos de política. Logo, sou apolítico. Por convicção.

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Da necessidade de matar

brincando_160

Não li o livro ainda e só descobri que ele existe graças à capa da Ilustrada de domingo (link só para assinantes). Mas já está na minha lista de compras, porque parece leitura obrigatória, daquelas que derrubam opiniões pré-concebidas, mas desprovidas de lastro concreto, e recolocam as coisas em seu devido contexto. Estou falando de Brincando de Matar Monstros, o livro de Gerard Jones que a Ed. Conrad acaba de lançar (a Conrad tem tantos títulos bons no catálogo que é surpreendente que ela tenha deixado um RAW passar quase em branco). Roteirista veterano, que trabalha como consultor de mídia para o MIT, Jones arremete de encontro à crença solidamente estabelecida pelo senso comum de que desenhos animados e vídeogames violentos são uma influência nociva para a mente das crianças. Muito pelo contrário, argumenta ele que, na entrevista à Folha, declarou: "Uma das funções das histórias é que ajudem as pessoas a entender o que acontece ao redor delas. Você não se sente tão só, se sente reconhecido. Em geral, isso é saudável (...). É um engano achar que uma história ou uma música sempre reforça algo, em muitos casos é só uma maneira de reduzir a ansiedade, dando mais entendimento e controle psicológico sobre a realidade." Pelo que eu entendi da resenha, o principal argumento de Jones é o de que, ao contrário do que pensam os comitês de pedagogos que cada vez mais palpitam na programação da tevê, a violência dos desenhos animados e jogos de computador é, na verdade, uma válvula de escape para os impulsos agressivos que as crianças, como qualquer ser humano, carregam dentro de si.

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12-04-2004

Pegadinhas

As vídeocassetadas, como vimos, são uma forma de lidar com a irrupção inesperada do caos e do aleatório no seio da ordem quotidiana. É uma estratégia que se pode considerar positiva, na medida em que, em vez de tentar recalcar o caos ou ignorar sua existência, ela o assume como espetáculo. De fato, as vídeocassetadas mostram uma analogia surpreendente com a estrutura das festas dionisíacas gregas, que acolhem as manifestações do caos dentro de um contexto ritualizado, aqui substituído pela moldura fornecida pela câmera. E quando pensamos que foi das festas dionisíacas que se originaram tanto a tragédia quanto a comédia – duas possibilidades igualmente contidas nos acidentes que constituem uma vídeocassetada – percebemos que as vídeocassetadas são dramaturgia em estado nascente.

imagens/batizadoJá as célebres pegadinhas, ainda que costumem ser exibidas lado a lado, no mesmo tipo de programa, e possam se confundir na mente do espectador mais desavisado, pertencem a outro registro inteiramente diverso. Em uma autêntica vídeocassetada, não existe nada de planejado, e são apenas as vicissitudes do acaso que determinam a presença de alguém com uma câmera no exato momento em que acontece o imprevisto, ao passo que uma pegadinha é, de cabo a rabo, uma situação fabricada artificialmente, com o propósito exclusivo de submeter uma pessoa escolhida a esmo ao constrangimento, à humilhação e, nos casos mais extremos, até mesmo ao desespero.

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07-04-2004

Vídeocassetada

imagens/CT-29Q90

O que é uma videocassetada?


Uma câmera na mão e o acaso substituindo a proverbial idéia na cabeça definem a estética dessa modalidade espontânea de vídeo-arte. E é preciso que seja espontânea: sabe-se da reação negativa do público diante do que se apresenta como um vídeo "armado". Mais que espontânea, até, exige-se que seja surpreendente, inesperada. Trata-se da ruptura de uma ordem quotidiana. São situações do dia-a-dia, ou ocasiões especiais, mas que balizam o ritmo da vida, aniversários, casamentos, festas, momentos que a câmera visa eternizar para que seus participantes, transformados em espectadores de si mesmos, possam passá-las e repassá-las ad nauseam. A câmera-olho infiltra-se no fluxo contínuo dos acontecimentos e seleciona instantes descontínuos, aos quais salvará transformando-os em mônadas temporais, quadros isolados e independentes que, em sua independência e isolamento, aspiram refletir a totalidade da vida.


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