No início da era cristã, os gnósticos identificaram e descreveram um complexo sistema que operava simultaneamente nos planos físico, psíquico e social, e cuja finalidade era dupla: de um lado, manter o ser humano em uma condição de dependência dos poderes externos (sejam eles outros seres humanos, as forças determinísticas da natureza ou divindades tirânicas); do outro, drenar a energia excedente da psique, para impedir que a consciência do ser humano se elevasse a um nível incompatível com essa dominação. Esse sistema foi minuciosamente analisado por Valentino, fundador de uma das principais seitas gnósticas da antigüidade, que deu a ele o nome de sístase.
Os gnósticos foram os primeiros a apontar com clareza para o modo como as estruturas de poder da sístase se enraízam no próprio corpo. Mal-interpretada por seus detratores cristãos, essa descoberta deu origem à falsa crença de que os gnósticos fossem dualistas, que pregavam uma separação radical entre o espírito e o corpo, enxergando este último como a fonte de todo o mal. Não é verdade, e o estreito vínculo entre corpo e poder foi redescoberto no século XX por Wilhelm Reich, que rebatizou a sístase como "couraça muscular" e intitulou o primeiro capítulo de seu Psicologia de Massas do Fascismo de "A Ideologia como Força Material". Reich descobriu também, aprofundando uma idéia lançada originalmente por Freud no início da psicanálise, que o principal aparelho ideológico usado pelo sistema para gravar essas estruturas na própria carne das pessoas (à maneira da Máquina em "Na Colônia Penal", de Kafka) é nada menos que a família.
O passo seguinte, por assim dizer, veio com Foucault, na década de 60. De um lado, Foucault confirmou a alegação gnóstica sobre a universalidade do sistema de dominação, ao mostrar que o poder não se difunde apenas verticalmente, imposto de cima para baixo, mas também horizontalmente, através de uma malha ubíqua de relações sociais (inclusive as familiares), o que faz com que cada um de nós torne-se um agente involuntário do poder, ao mesmo tempo prisioneiro, carcereiro e cárcere. Do outro, Foucault salientou o caráter histórico da sístase: embora o sistema de dominação, como tal, se perpetue através das gerações, estendendo-se sabe Deus desde quando (talvez desde Adão transido de medo aos pés da Árvore do Conhecimento), suas estruturas sofrem mutações periódicas para se adaptar às novas circunstâncias sociais e históricas que inevitavelmente surgem.
Como exemplo dessas mutações, pode-se citar a sexualidade (tema de um estudo clássico de Foucault em três volumes, a História da Sexualidade). Durante a Era Vitoriana, o sexo foi submetido a um escrutínio feroz por parte das autoridades médicas, sociológicas e políticas, com o objetivo de mantê-lo sob um rigoroso controle, devidamente enquadrado no sistema. Na época de Reich (e de Freud), essa repressão sexual - embora mais complexa do que tanto Freud quanto Reich acreditavam, já que não visava a calar o sexo mas, pelo contrário, a fazê-lo falar, como um prisioneiro sob interrogatório - era um dos traços dominantes da sístase, e se tornou a pedra-de-toque de seus respectivos métodos terapêuticos. Vieram as duas grandes guerras mundiais, que despedaçaram a sociedade vitoriana e uma das conseqüências disso foi a revolução sexual dos anos 60, saudada pela Contracultura e por uma geração de hippies como uma libertação. Mas, como Marcuse alertava em Eros e Civilização, a liberação sexual fazia parte, na verdade, de uma estratégia do sistema, a que ele chamou de dessublimação repressiva - depois de interrogado, torturado e virado do avesso, o prisioneiro passou a colaborar com a sístase, que continua muito bem, obrigado, mesmo em tempos de sexualidade (aparentemente) livre. Qualquer dúvida quanto a isso, é só ver o constante apelo da publicidade ao sexo como motivação para o consumismo. Quem olha para essa deslumbrante mulher seminua, orgulhosamente adaptada depois de um século de lavagem cerebral, jamais adivinharia seu passado de revolucionária. Sexualidade, teu nome é Patty Hearst.
E agora, que a revolução informática conectou o mundo todo, gerou acesso instantâneo à informação e, durante um breve período, ameaçou chacoalhar as estruturas de dominação (numa promessa, infelizmente, não cumprida, mas que, mesmo assim, gerou seus frutos), tudo indica que o estado de sístase está prestes a sofrer uma nova mutação.
É o que indica o artigo de Hara Estroff Marano, publicado no caderno Mais! de 20-02-2005 (link só para assinantes - por falar em acesso instantâneo à informação).
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