Navegar é preciso
Um vento dançarino agita a poeira lunar, soprado pela embarcação que pousa suavemente no centro da cratera de Heráclito. No lado direito do casco, letras vermelhas que brilham como um LASER anunciam o nome do navio: PANTA REI. Não poderia haver nome mais adequado, pensa Malprg, com uma pontada de nostalgia redemoinhando por entre os pensamentos.
- Está chegando a hora - diz o velho ao lado dele, cofiando a barba alaranjada, a barra da túnica rastejando no solo empoeirado.
- É, eu sei - responde Malprg, sem tirar os olhos da proa do navio, onde uma mulher de madeira tenta tocar as estrelas com a ponta dos dedos. - Para onde vai o barco?
- Para onde vão todos os barcos, desde que o mundo é mundo.
O velho também contempla a figura de proa, com um carinho paternal. Talvez ele próprio a tenha esculpido, muitos éons atrás.
- Alguém virá para me substituir?
- Essa é uma preocupação que já não lhe cabe.
Não há censura na voz do velho, é apenas a constatação de um fato.
- Gostaria de ficar mais um pouco. Sinto que ainda falta dizer tanta coisa...
O velho sorri, como se já esperasse por aquela reação.
- Não, não falta. Não para você, pelo menos.
Malprg insiste:
- Há temas que comecei e não desenvolvi. Questões que levantei, mas não respondi...
Ouve-se um barulho arrastado e uma plataforma de embarque é estendida pela lateral do navio, levantando outra nuvem de poeira.
- Deixe que os temas saberão cuidar de si mesmos - aconselha o velho. - Quanto às questões, elas não existem para ser respondidas, mas para produzir novas questões. - Depois de uma pausa, acrescenta: - É assim desde que o mundo é mundo.
Malprg tem a impressão de entrever vultos evanescentes debruçados sobre a amurada mas, do chão, não há como ter certeza.
- O que vai ser de mim?
O velho dá de ombros, indiferente.
- Que importância tem isso? Você não existe. Nunca existiu.
Malprg sabe que é verdade. Jamais foi outra coisa que não um punhado de letras sopradas por um impossível vento lunar. Resignado, volta-se para se despedir do velho, mas nenhum dos dois está mais lá. Sem ter o que fazer num lugar onde já não está, caminha lentamente em direção ao navio.
Você está brincando, né?
Posted by: Andréia | 30-09-2008 at 10:29
Um velho sentado em uma tartaruga à beira de uma estrada sem chão, olhava o dia entardecer e pensava consigo mesmo (e com quem mais poderia?):
- Todo dia acaba. Se sempre há um amanhã, sempre há um anoitã.
A tartaruga suspirou.
Num céu quase violeta, as primeiras estrelas brilhavam como diamantes vivos, prometendo uma noite esplendorosa.
Posted by: Aldhabaran | 30-09-2008 at 10:52
``Que haja antes um mar ondulante entre as praias de vossas almas.
Encheis a taça um do outro, mas não bebais na mesma taça.
Dai de vosso pão um ao outro, mas não comais do mesmo pedaço.
Cantai e dançai juntos, e sede alegres, mas deixai cada um de vos estar sozinho,
Assim como as cordas da lira são separadas e, no entanto, vibram na mesma harmonia.´´
``O amigo é a resposta aos teus desejos. Mas não o procures para matar o tempo! Procura-o sempre para as horas vivas. ````Porque ele deve preencher a tua necessidade, mas não o teu vazio.´´´´
O belo post lembrou-me que devo ler novamente meu livro ``O Profeta.´´ do autor o qual extrai os trechos acima: Khalil Gibran. Fez-me lembrar, porque o livro começa com um profeta chegando (e partindo) de barco. E respondendo todas as perguntas das pessoas da cidade.
[]´s
Posted by: Mcnaught | 30-09-2008 at 11:24
>Você está brincando, né?
Nope. "Malprg" está prestes a partir desta para (espero) melhor. :-)
Abs.
L.
Posted by: Malprg | 30-09-2008 at 11:26
Anoitã é sensacional!
E, sim, espero que a noite seja mesmo esplendorosa, como foi o longo (sete anos!) dia...
Abs.
L.
Posted by: Malprg | 30-09-2008 at 11:27
Saravá, McNaught!
O Profeta é mesmo um livraço (apesar de livrinho), sabedoria sufi em sua melhor forma. E, sim, tudo que começa com uma chegada termina com uma partida. Mas é como diz o I Ching:
"Não há planície que não seja seguida por uma escarpa.
Não há partida que não seja seguida por um retorno.
........................
Não lamente essa verdade:
usufrua a boa fortuna que ainda possui."
Conselho que o Velho Sábio Chinês me deu e que repasso a vocês sem cobrar nada. :-)
Abs.
L.
Posted by: Malprg | 30-09-2008 at 11:37
Nossa, que absurda sincronicidade! Justamente ontem eu comecei a reler O Profeta - quando chega o barco que o levará para a sua terra natal... e agora há pouco quando li o post do Lúcio eu me lembrei exatamente dessa parte, ia inclusive dizer que o Lúcio estava me lembrando O Profeta do Gibran, mas o amigo McNaught foi mais rápido...hehehe
Posted by: Andréia | 30-09-2008 at 11:43
Putz...é realmente triste!
Posted by: Andréia | 30-09-2008 at 11:53
Cheerss Andréia rs.
E olha só, dizem que nessa vida, nada é coincidência rs.
Sei lá rs, fico confuso diante disso, mas tem momentos que, talvez, o universo conspire para juntar pessoas e acontecimentos hehe.
``Conselho que o Velho Sábio Chinês me deu e que repasso a vocês sem cobrar nada.´´ Ah! Obrigado então rs.
[]´s
Posted by: Mcnaught | 30-09-2008 at 12:20
Anoitã pode vir a ser um livro de poemas. Se vou conseguir escrevê-lo, são outros mil e tantos...
Posted by: Aldhabaran | 30-09-2008 at 15:43
De trabalho, de amor e de repolho, um dia todo mundo se cansa.
Posted by: morto-vivo | 30-09-2008 at 21:10
Lindo, lindo, lindo! É teu? Há um livro de um autor gaúcho,Moacyr Scliar, A Majestade do Xingú, em que o personagem passa parte da vida atrás de um balcão, sublinhando frases que gostaria de de ter dito...Este texto, sublinharia por inteiro! Abraço,
Posted by: Luciane Silva | 30-09-2008 at 22:48
ha, sempre,muito a ser sublinhado, muito mais a ser tentado viver do que simplesmente de haver dito.Entao nao so digamos, vivamos.
Posted by: victoria | 15-10-2008 at 23:25