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29-06-2006

O Mal Necessário

Este texto é uma resposta aos comentários do Rubens Corbo sobre o post O Cristo Gnóstico, que, por sua vez, já era uma resposta a um comentário do Hammadi (ai, ai, esses labirintos intertextuais). Como faz tempo que eu venho sentindo a necessidade de sintetizar minhas idéias sobre o ego - e, além disso, sendo tagarela por natureza (ao menos por escrito), meu comentário estava começando a virar um tratado - achei melhor transformar a minha resposta em um post.

Do modo como vejo as coisas, a grande limitação da psicologia (junguiana inclusive) e o motivo pelo qual ela ainda não conseguiu se tornar um verdadeiro sistema iniciático é a incapacidade que os psicólogos têm de conceber uma consciência desprovida de ego quando, na verdade, consciência e ego são duas coisas bem diferentes, que acabaram se fundindo por conta das necessidades intrínsecas da primeira metade do processo de individuação (daqui a pouco, eu falo mais sobre isso). Desse ponto-de-vista, o caminho iniciático é o longo (e quase sempre doloroso) processo de desfazer esse imbroglio, quebrando a identificação ilusória da consciência com o ego.

O ovo e a galinha - O motivo pelo qual é tão difícil para nós pensar na consciência como uma entidade separada do ego é que, pelo menos num primeiro momento, essa distinção não é empírica. Somente em alguns estados muito especiais, do tipo que costumamos classificar como experiências místicas, é que a consciência consegue ver o ego de fora, como algo que não é ela. Claro, o objetivo de toda iniciação ou desenvolvimento espiritual é fazer com que esses estados deixem de ser momentos excepcionais de epifania e se tornem uma condição permanente. Mas, no nosso nível habitual de funcionamento, aquele em que operamos no dia-a-dia, toda vez que a consciência pensa em si mesma, ela se vê como um eu individual.

Para piorar, devido à natureza limitada da linguagem, a consciência só pode se referir a si própria dizendo eu, o que apenas contribui para reforçar essa identificação. Determinar o que veio primeiro, o eu gramatical (como pensavam Nietzsche e Lacan) ou a ilusão do ego (como sugeriu Freud e parecem indicar as descobertas da neurociência sobre o funcionamento do cérebro), é uma questão do tipo o ovo ou a galinha e realmente não faz diferença. O fato é que, gerada pela estrutura da linguagem ou pelo modo de funcionamento do cérebro, a ilusão do ego acaba moldando nossa autoconsciência de uma forma que parece natural e é difícil superá-la.

Por exemplo, em seus comentários (de resto, altamente pertinentes), Rubens diz: "Penso que o problema não é propriamente o ego, mas sim a rigidez em que se encontra tomado." Mas, em última análise, levando em conta o que eu falei aí em cima, o ego é essa rigidez. "Couraça de caráter" é uma expressão enganosa, porque o que o Reich descobriu é que a couraça não é uma capa externa que vem se acrescentar ao caráter. Pelo contrário, caráter é couraça e couraça é caráter. E o caráter é, afinal, outro nome que a gente dá para esse conjunto de traços de personalidade, comportamento e postura (física ou psicológica) que formam o complexo do ego.

O fotograma e o filme - A capacidade plástica a que o Rubens se refere em outro trecho não é um atributo do ego, mas da consciência pura. Falamos de "estados da consciência", mas essa é outra frase mal-construída, porque a consciência não é um estado, nem mesmo uma soma de estados, e sim um processo fluido, em constante transformação. É isso, aliás, que o Buda quer dizer quando se refere à impermanência de todas as coisas, acrescentando que o corolário disso é a inexistência do ego.

O ego surge quando esse processo é, por assim dizer, congelado artificialmente, tornando-se um estado com o qual a consciência se identifica. Uma boa analogia para entender essa distinção é pensar na consciência como um filme e no ego como um fotograma isolado do filme. Quando interrompemos o andamento do filme, o fotograma deixa de ser parte de um movimento contínuo e se torna um quadro estático. O ego é esse quadro estático.

O problema é que, ao contrário do filme, o movimento da consciência nunca se interrompe de verdade. Então, quando a consciência se identifica com o ego, ela se aliena de si mesma, torna-se incapaz de acompanhar o seu próprio movimento interno. A consciência fica fora de fase. Acreditamos que somos permanentemente o que já não somos mais, o que fomos durante um breve intervalo, para imediatamente nos transformamos em outra coisa que não conseguimos perceber, porque nosso ponto-de-vista ficou parado lá atrás. A fila andou e nós não seguimos com ela. É nesse ponto que a impermanência torna-se causa de sofrimento, a terceira das características da existência descritas pelo Buda.

Solve et coagula - No entanto, se o ego não só é uma ilusão, mas ainda por cima uma ilusão prejudicial e dolorosa, como é que ele veio a se constituir? A resposta está na maneira pela qual a consciência vem a se diferenciar do inconsciente na primeira metade da vida, o que, desde Erich Neumann, os analistas junguianos tendem a considerar como a fase inicial do processo de individuação.

Inicialmente, não existe a consciência. Há apenas um estado inconsciente, no qual todos os conteúdos psíquicos estão mais ou menos fundidos num amálgama indiferenciado. A consciência é apenas um potencial contido nessa mistura caótica. Para que ela possa se atualizar (no sentido aristotélico, isto é, se tornar real, passar da potência ao ato), a consciência precisa se separar do inconsciente. Mas, para isso, é preciso criar um espaço dentro do qual ela possa emergir e se desenvolver. Esse espaço é o ego.

Os alquimistas costumavam dizer que a Grande Obra podia ser resumida na frase solve et coagula. O mesmo se aplica à individuação. A totalidade inconsciente precisa ser dissolvida para que a consciência possa se coagular. Na alquimia, essa operação requer um recipiente hermeticamente fechado, o vaso alquímico. É essa a função do ego na primeira metade da individuação, que vai mais ou menos até os 30 ou 40 anos: fornecer o que Jung chamava de temenos, um espaço sagrado, no interior do qual os processos psíquicos possam se desenvolver em liberdade. Esse espaço é sagrado porque, como mostrou Mircea Eliade, o sagrado é exatamente a separação ritual entre o caos e a ordem.

Destruir um mundo - Sim, o corolário disso é que, no início, enquanto a consciência está emergindo do inconsciente, o ego, o demiurgo, o futuro vilão e encarnação do demônio, tem um papel sagrado a cumprir. Se ele se tornará Satã é porque antes foi Lúcifer, o portador da luz da consciência.

Os alquimistas denominavam o vaso alquímico de ovo filosófico e, de fato, o ego pode ser visto como um ovo no interior do qual o embrião da consciência se desenvolve e toma forma, nutrindo-se da experiência personalizada que a perspectiva egóica fornece. Outra comparação pertinente é dizer que o ego é um casulo, e não é outra a razão pela qual os gregos representavam a psique com asas de borboleta.

Entretanto, os alquimistas também diziam que, no final da Grande Obra, o ovo filosófico se quebra, para que a pedra filosofal possa ser extraída de dentro dele. Se a borboleta não consegue romper o casulo, ela morre asfixiada e chega um momento em que a ave precisa quebrar a casca do ovo com o bico para poder nascer, o que Hermann Hesse exprimiu em uma bela passagem de seu primeiro romance iniciático, Demian: "A ave sai do ovo. O ovo é o mundo. Quem quiser nascer tem que destruir um mundo. A ave voa para Deus. E o deus se chama Abraxas."

Felix culpa - Romper a totalidade inconsciente é romper a totalidade, ponto. Ao se separar do inconsciente indiferenciado, a consciência se separa de suas raízes arquetípicas. Assim, o nascimento da consciência é, necessariamente, um ato de alienação. Cria-se uma antítese, uma dualidade entre eu e não-eu, entre sujeito e objeto, que dá origem a todas as outras dualidades: bem e mal, certo e errado, masculino e feminino. É por isso que, quando o homem prova da Árvore do Conhecimento, adquire a consciência, mas uma consciência dualista, e é expulso do paraíso.

Com isso, as paredes do ego, que protegem a consciência da invasão de conteúdos inconscientes, também são os muros de sua prisão. Em algum momento, esses muros terão de ser derrubados, a fim de que a totalidade possa ser restaurada em um novo nível. É esse o momento em que Lúcifer se torna Satã, o obstáculo, o opositor (em hebraico, shaitan): o ego deixa de ser um fator positivo de crescimento espiritual para se tornar uma casca ou couraça que impede a consciência de se expandir por meio da integração dos conteúdos arquetípicos do inconsciente, até atingir a plena realização do Si-mesmo.

Em resumo, o ego é necessário, mas é também um mal. É um mal necessário. A antiga teologia católica exprimia essa dupla valência do ego na doutrina da felix culpa, a culpa feliz, que até a década de 1960 encontrava-se incorporada no texto da missa em latim: O felix culpa quae talem et tantum meruit habere redemptorem. ("Ah, culpa feliz, que a tornou digna de um tal redentor.") O redentor a que ela se refere é, claro, Cristo, mas em sentido simbólico é a consciência do Si-mesmo, o Atman hindu, ou seja, a consciência emancipada do ego, que realiza a totalidade psicofísica. A doutrina da felix culpa, aliás, não é exclusiva do cristianismo. Nós a encontramos no final de O Dibuk, de S. Ansky, um dos pontos altos da dramaturgia judaica e uma peça cheia de ressonâncias cabalísticas: "A própria queda continha em si a promessa da redenção."

Comments

Salve Lúcio. Lá vem as sicronicidades...Ultimamente tenho trabalhado com algumas meditações "figurativas" e você acabou de descrever um dos meu cenários, que inclusive foi usado na continuação daquele material que te mandei tempos atrás. No início, ego é aquela coisinha que se debate entre os instintos e as convenções sociais (arquétipos e superego, fazendo uma mixórdia com os dois sistemas). Enxergo a individuação como esse ponto inicial se expandisse, filtrando aqueles elementos circundantes e os reestruturando de acordo com a vivência pessoal. Como a bolha cresce,as paredes ficam cada vez mais finas até o doloroso colapso final.

O ego é uma charada. Quanto mais se tenta se livrar dele, mas ele mostra a cara. Como um gota de mercúrio. Rígido e flexível ao mesmo tempo.

Saravá, Andrei!

Por "material", você quer dizer aquele romance do qual ainda tô devendo um comentário porque não tive tempo de acabar de ler? Ahn... o réu se confessa culpado - mas jura que, antes de atravessar a Ponte Chinvat, vai pagar todas as suas dívidas kármicas. :-)

Sim, me parece uma maneira bem adequada de ver a individuação - como a expansão de um ponto de individualidade, inicialmente tão pequeno e frágil que precisa ser envolvido pela bolha protetora do ego ("the boy in the plastic bubble", alguém lembra?:-D), mas que vai crescendo, se alimentando de experiências de confronto tanto com o mundo exterior quanto o interior, até se tornar uno com a totalidade cósmica. Claro, os junguianos de carteirinha juram que a realização total dessa meta é impossível, mas isso é justamente porque, como argumentei no post, não conseguem imaginar uma consciência que ultrapasse o ego - e, obviamente, um ego que se identifica com os conteúdos arquetípicos é um ego inflado, psicótico.

Essa concepção do ego se baseia em observações do Jung ao longo de toda sua carreira, mas eu tenho minhas dúvidas de que o Jung continuava mantendo essa visão estreita depois que ele próprio passou por uma iniciação radical. Não boto a mão no fogo, precisaria dar uma checada nas OC, mas tenho a impressão de que ele passou a ter uma idéia menos rígida sobre a identificação do ego com a consciência, porque adotou integralmente a noção da alquimia chinesa, também defendida por alguns alquimistas ocidentais, de que a meta da Grande Obra é construir um corpo sutil (o corpo diamantino ou embrião celestial) para o qual a consciência pode se transferir após a morte do ego e do corpo. (Aliás, ao que tudo indica, a Marie-Louise von Franz também pensava assim, porque ela fala muito sobre a doutrina do corpo sutil em seu último livro, sobre os sonhos e a morte.)

Abs.
L.

Salve, Gideon Stargrave! :-)

O que é o que é: que não existe mas é mais espesso que uma parede de tijolos, que quanto mais você o combate, mais se fortalece e que quando se pára de acreditar nele simplesmente desaparece? :-))

Abs.
L.

Salve F-A.

Tem um momento nos Invisibles, que o Kingmob na sua sabedoria anárquico-sexual, grilado com uma pergunta bem feminina da Ragged Robin, que questionava se a arma dele fazia-o se sentir poderoso e estar no controle, atira esta última na água, afinal, o Bruce Lee não usava armas de fogo.

A questão é como ser o Bruce Lee ou algo parecido, num mundo que a todo minuto encoraja o poder, encoraja um ego malandro e que se afirma sobre os outros. Como esquecer o ego com sua dor e sua ignorância? Esta própria pergunta não o afirma? O ego trata de tentar ser onipresente, onipotente e onisciente, e pelo menos onipresente em alguma psiquês ele consegue ser. Êta chiclete grudento.

Abraços paranormais.
Kingmob

Diz aí, KingMob!

O ego é um paradoxo e a maneira de combatê-lo tem que ser igualmente paradoxal. Opor-se diretamente a ele, como se fosse um inimigo concreto, só o fortalece porque, afinal, quem é que se opõe ao ego senão o próprio ego? O máximo que se consegue assim é substituir uma imagem do ego por outra. Não por acaso, é a mesma dinâmica que encontramos nas revoluções políticas, nas quais a derrubada de uma tirania em geral conduz a outra.

É curioso que você tenha invocado o paralelo com o Bruce Lee, porque a melhor maneira de transcender o ego é o wu wei dos taoístas, a não-ação, que é a base de várias artes marciais chinesas. Qualquer ação concreta que se tomar contra o ego é carreada pelo próprio ego que, afinal, é o vetor da consciência (pelo menos enquanto ela não conseguir se emancipar), e assim acaba reforçando o ego.

Dos zen-budistas a Krishnamurti e dos sufis à meditação vipassana, você vai encontrar sempre a mesma recomendação: vence-se o ego através da auto-observação. Veja bem: auto-observação, não auto-análise. Não se trata de um escrutínio intelectual, mas simplesmente de observar como os mecanismos do ego se desdobram, como ele age, como reage, de que forma um pensamento engendra outro que engendra outro, criando o fluxo contínuo de nosso diálogo interior.

Você não tenta suprimir os pensamentos, engano cometido pelos iniciantes. Muito pelo contrário, você deixa os pensamentos correrem livres no interior da mente. O truque é não se identificar com eles, manter uma consciência distanciada, observá-los como se estivesse observando a passagem das nuvens no céu.Com o tempo, essa prática leva naturalmente à diferenciação entre a consciência e o ego.

O primeiro resultado - de novo, paradoxalmente - é um aumento aparente do dualismo: a consciência se divide em duas, uma parte (identificada ao ego) que age e outra que observa. Essa dualidade, inclusive, não fica restrita aos momentos de meditação. Depois de algum tempo meditando (em geral, logo nos primeiros meses), ela "vaza" para o dia-a-dia. Cria-se uma condição um tanto quanto esquizofrênica, em que você continua fazendo as coisas que sempre fez e ao mesmo tempo se vê "de fora", fazendo essas coisas. E aqui a gente depara com uma armadilha, na qual é muito fácil cair.

Quando você se vê com essa objetividade, seus defeitos, sua sombra, as compulsões do ego tornam-se todos aparentes. E a tentação de querer corrigir essas falhas é muito forte, até porque você observa como elas causam sofrimento não só a você mesmo, como também às pessoas ao seu redor. Acontece que tentar corrigi-las é, uma vez mais, dar voz ativa ao ego. Assim que você dá o primeiro passo nessa direção, o distanciamento se quebra e você se vê novamente arrastado pelo turbilhão de atitudes egóicas.

É preciso resistir a essa tentação e se ater à autoconsciência, por mais dolorosa que seja. A própria consciência tem um efeito transformador. Pode levar um tempo, mas eventualmente essas compulsões acabam sendo integradas à consciência. Com isso, elas se transformam por si mesmas e sua energia é liberada para a consciência.

Apesar da simplicidade dessa prática, e até por isso mesmo, é algo mais fácil de falar do que de fazer. Isso porque toda a nossa programação nos impele a agir, a fazer coisas, a tomar atitudes, quando o que se exige aqui é o oposto exato disso tudo, justamente para quebrar essa programação. Mas, por mais difícil que seja, é a única maneira de derrotar um adversário que se alimenta de nossas próprias tentativas de derrotá-lo. Porque o ego não tem energia própria e só sobrevive às custas da energia que a consciência lhe empresta sem saber.

Abs.
L.

Me dê uma dica para que eu consiga falar também de coisas tão profundas e espessas de modo tão sucinto e claro. Também sou um tagarela das letras, mas tenho que me policiar, na maior parte do tempo, para que não me torne prolixo.

Ego e consciência... Eu fui apaixonado pela história de Ramana Maharishi, que encontrou a Verdade quando percebeu que, enquanto seu corpo esmorecia, a consciência permanecia incólume.

Essa minha convicção foi abalada quando eu conheci o testemunho de uma amiga ex-espiritualista, testemunho este bastante fidedigno. Quando ela precisou realizar uma cirurgia, após receber a anestesia, nada sobrou de sua consciência. Sentiu-se como uma máquina, uma geladeira ou uma torradeira elétrica: Tiraram-lhe da tomada e ela apagou. Nenhum vestígio de consciência, nenhuma lembrança, nada. "Somos apenas cérebro" - ela me disse, com uma expressão de triste certeza, daquelas que só possui alguém que sabe do que está falando, por ter experienciado a coisa - "por incrível que pareça. Se o cérebro for destivado, não existem mais nem ego, consciência, alma ou espírito, nada. Tudo desaparece...".

E agora, meu mestre? Socorre-me, eu imploro!

Engraçado, eu ia justamente perguntar se vocês conheciam o Ramana Maharshi (tem uma foto dele que diz tudo), o Ramesh Balsekar e o Nisargadatta Maharaj. Eles fazem parte do assim chamado advaita vedanta, todos são bem claros em abolir quaisquer métodos para se atingir aquela única coisa que importa. Só que isso para nossa mentalidade em um primeiro instante pode parecer quase impossível de se fazer. Nós tendemos a querer conquistar, a querer fazer alguma coisa para atingir um objetivo. A simplicidade nos assusta. Um certo grau de renúncia é exigido. E temos medo de renunciar a esse mínimo que é o máximo.

Aí eu me pergunto para que servem certos rituais, certas vestimentas enfim certas fórmulas. Para explorar a consciência de certa forma. Tomar familiaridade com ela. Enfim pela diversão que essas coisas trazem. Lembram do Lila Hindu? A coisa vai por aí.

Abraços,
Kingmob

Salve, Agaká!

Tua amiga nem precisava recorrer a um exemplo tão extremo. A mesma coisa acontece com a gente todas as noites, quando mergulhamos no estágio quatro do sono ou sono delta. É o sono profundo e sem sonhos, no qual não resta nenhum vestígio da consciência. Nessa fase, o organismo é reduzido a suas funções primárias e automáticas, ou seja, pode ser visto como uma máquina orgânica.

Só que, paradoxalmente - e isso responde à dúvida levantada pela tua amiga -, de acordo com o Vedanta, não só a consciência não deixa de existir como é justamente nessa fase que ela experimenta uma união espontânea com Brahman. A questão é que, quando pensamos em consciência, pensamos na consciência do ego, e esta de fato desaparece totalmente no sono profundo, na anestesia profunda, no coma profundo e algum tempo depois da morte. Como a nossa percepção reflete mecanismos de cognição moldados pelo ego, não temos parâmetros para representar esse estado e então ele nos aparece como um grande vazio ou ausência de consciência. Mas, na verdade, é a consciência em seu estado mais puro.

Claro que, para o ego, isso é fonte de grande desconforto, que vai da humilhação de perceber que é só o fantasma de uma máquina orgânica (e, no fundo, é isso mesmo que o ego é, um reflexo da imagem corporal) até o terror absoluto de ser confrontado com sua própria inexistência (a máquina orgânica continua funcionando mesmo na ausência do ego). Daí, na verdade, o medo da morte. Quem teme a morte é o ego, não a consciência, porque para ele a morte não só é a extinção, como a percepção de que nunca houve nada para ser extinguido.

Abs.
L.

Saravá, Gideon!

Os outros dois, eu não conheço, mas Ramana Maharshi é foda e exerceu uma profunda influência sobre Jung, que escreveu um texto sobre ele, "Sri Ramana e Sua Mensagem para o Homem Moderno", que no Brasil foi reproduzido como introdução aos Ensinamentos Espirituais do Maharshi, e teve um sonho marcante no final da vida que é quase uma ilustração de uma das comparações de Sri Ramana, a comparação entre o Eu Superior e o cinema: nesse sonho, Jung viu seu próprio ego como um filme projetado por um guru (o Self).

Incidentalmente, cinemas aparecem nos meus sonhos desde que eu era adolescente e foi essa comparação de Ramana Maharshi que me esclareceu sobre o significado dessa imagem, não só pra mim, mas na cultura contemporânea. O cinema é essencialmente isso, uma materialização do processo pelo qual o Eu Superior engendra o mundo das aparências (e que os gnósticos chamavam de eklampsis, uma palavra que costuma ser traduzida como "emanação" mas que literalmente significa a projeção de um raio de luz).

Sobre os rituais, não é bem assim, não se trata de pura diversão. Lembre-se que a nossa consciência, no princípio, está identificada ao ego e voltada para o mundo. Então, nesse estágio, os objetos do mundo funcionam como símbolos das realidades espirituais. A utilização da panóplia de vestimentas, incensos, etc. serve para constelar as energias arquetípicas da psique, e essa tralha toda é necessária porque a nossa imaginação não está suficientemente desenvolvida pra prescindir de suportes externos.

Seguindo a evolução tradicionalmente prescrita pelo esoterismo ocidental, numa etapa posterior, esse suporte externo é abandonado e o ritual não precisa mais ser executado fisicamente. Ele passa a ser visualizado no interior da psique (ou "no astral", como dizem os esoteristas). Nesta fase, basta a imagem interna do objeto simbólico para constelar as energias arquetípicas. Num terceiro momento, não é preciso nem sequer visualizar a execução do ritual, basta evocar o símbolo mentalmente.

Por fim, quando a consciência se integra totalmente ao nível arquetípico da psique, não há mais necessidade de evocar os símbolos como mediadores porque a essência arquetípica está presente à consciência de forma i-mediata e todos os seus atos são, por definição, expressões diretas da Verdadeira Vontade.

Na linguagem dos graus adotada pela Tradição Esotérica Ocidental, a primeira fase, em que os rituais externos são imprescindíveis, vai do grau do Neófito ao do Adepto (as subdivisões aqui variam de escola para escola). A transição do ritual astral até a simples evocação do símbolo corresponde ao desenvolvimento do grau de Adepto, de Adepto Menor a Adepto Maior. Já a última etapa, a união com a essência arquetípica da realidade, obviamente só ocorre após a Travessia do Abismo. É a consciência iluminada, que o Crowley chamava de Magister Templi e a Golden Dawn denominava de Ipsissimus (embora nem Crowley nem os adeptos da Golden Dawn tenham chegado tão longe - falavam, como eu, por ouvir dizer :-D).

Em comparação com o despojamento de um Krishnamurti ou um Ramana Maharshi, esse percurso pode parecer desnecessariamente complicado, mas não é, não. Justamente porque, como você diz, a simplicidade nos assusta, não estamos preparados para lidar com ela logo de cara. Nosso apego a coisas concretas e a realidades materiais é um fato, e não adianta ignorá-lo. Como diz o tantrismo, quando você cai no chão, é preciso se apoiar sobre o próprio chão para se levantar. Não dá pra decidir por decreto que, como nossa mentalidade concretista é ilusória, pode ser descartada. Essa mentalidade precisa ser desconstruída, e é isso que o refinamento progressivo do ritual permite.

Foi esse, aliás, pelo menos na minha opinião não-iluminada, o erro do Krishnamurti. Ele esqueceu que, antes de chegar a esse supremo despojamento espiritual, passou por toda a parafernália ritualística da teosofia, que via nele a encarnação do Buda Maitreya. Esse carnaval todo foi um erro? Foi, mas foi um erro necessãrio.

Do modo como eu vejo a situação, o melhor caminho para o homem ocidental contemporâneo é uma combinação das duas coisas, a auto-observação meditativa e a abordagem ritual. O fato de serem duas abordagens contraditórias (e, do ponto de vista dualístico do ego, mutuamente excludentes) só aumenta a sua eficácia, porque a contradição entre elas é uma contradição dialética.

Dito isto (e apesar deste comentário já estar do tamanho do post que eu escrevi pra não ficar com um comentário muito grande :-D), a honestidade me obriga a acrescentar que não é exatamente essa a abordagem que eu sigo, e que é idiossincrática demais pra ser transformada num método de aplicação geral. Mas talvez o verdadeiro caminho seja exatamente esse - encontrar sua própria rota em meio aos vários caminhos disponíveis...

Abs.
L.

Quem teme a morte é o ego, não a consciência, porque para ele a morte não só é a extinção, como a percepção de que nunca houve nada para ser extinguido.
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Pusta q partiu! vá ter poder de sintese asisn na tao bolceta da mae dos dez mil seres!!!

O cara não é bolinho não.

Desculpe a brincadeira, Malprg, eu estava querendo ver onde ia dar. Plantei e colhi, e a colheita superou todas as expectativas! Você é o cara. Seja cuidadoso e use bem.

Minha admiração e meus respeitos.

Ps.: O que o Ramana dizia é que os rituais são inúteis para a alma completamente "madura". Já nas fases intermediárias, eles obviamente são necessários.

:-D

Salve, Eitch Key!

>Desculpe a brincadeira, Malprg, eu estava querendo ver onde ia dar.

Oxente, desde quando precisa pedir desculpas por isso? :-)

>Você é o cara.

Eu, não. Chegando perto dos quarenta, eu sou no máximo "o coroa". (Infame, eu sei, mas a vida é infame e Deus é o mais antigo praticante de stand-up comedy do mundo...) :-))

>O que o Ramana dizia é que os rituais são inúteis para a alma completamente "madura". Já nas fases intermediárias, eles obviamente são necessários.

Foi o que eu quis dizer quando apontei "o erro do Krishnamurti" (e já prevejo que eventualmente vai pintar alguém perguntando quem eu penso que sou pra dizer que Krishnamurti era capaz de errar... :-D). Ele achava que as pessoas podiam aprender a voar antes de aprenderem a andar - e pra aprender a andar, você precisa do apoio do chão, mesmo que seja para abandoná-lo quando desenvolver asas. Ou, usando outra comparação (descaradamente plagiada do primeiro Wittgenstein), rituais e crenças são como uma escada que a gente usa pra subir e depois joga fora.

Abs.
L.

Caro F-A.
Entendi o que você quis dizer.

Compreendo quando você coloca a questão da idionssincrasia, na maneira de se proceder. Quem já frequentou o mínimo de rituais, seja em ordens esotéricas, seja nas grande religiões, sabe que a coletividade é burra e o indivíduo mais facilmente inteligente. Tem muito adolescente nas ordens esotéricas, adotando nome de Lucifer666, como maneira de mera contestação sem entender sequer o que está fazendo, qual o objetivo e a profundidade daquilo. Para a coletividade o ritual que mais faria efeito na busca da liberdade seria abrir um daqueles objetos que damos o nome de livro e não largá-lo pelo menos nas duas ou três horas seguintes, isto diariamente. Até mesmo para o ritual fazer efeito são necessários pré-requisitos que a maioria não tem.

Por isso prefiro a simplicidade o despojamento, mesmo que ela não me leve a lugar algum, ou ao encontro com energias e personalidades de Deuses e Deusas como Isis por exemplo que eu adoraria conhecer pessoalmente e levar um papo. Em termos de ordens e tradições esotéricas tudo é possível e muito bonito em teoria, mas no meu modo de ver as coisas, faltam ainda certas atitudes e caráteres essenciais na maioria das pessoas que se põem a praticar os respectivos ensinamentos. Entende? Fugir da dor para quê? Qualquer mestre zen sabe inflingir grandes dores nos seus alunos quando necessário. Quanto mais o nosso self.

Por isso renuncio a qualquer ritual formal externo que não seja diversão, porque é mais importante e simples aceitar a dor calado, sem mistificações coloridas, devaneios esperançosos, marketing espiritual. Simplicidade e uma certa resignação estóica são valores essenciais que estão escassos e qualquer progresso em qualquer área não se faz sem eles. Tirando o conteúdo dogmático alguns dos místicos cristãos são insuperáveis neste sentido, vide Santa Faustina Kowalska. Para que fugir ? Vamos até o inferno mais fundo do ego se for preciso, afinal somos machos e fêmeas com brios ou não??????!?!?!?

[]s
Kingmob

Ps: Ja peguei o Incal, assim que der vou ler.

Honestamente, King Mob, todos os caminhos levam a Roma e a escolha de um ou de uma combinação de caminhos é mais uma questão de temperamento do que qualquer outra coisa.

Existem quatro funções psíquicas (pensamento, sentimento, sensação e intuição), das quais em geral uma é predominante no indivíduo, duas secundárias são razoavelmente desenvolvidas e a quarta é atrofiada; além disso, o fluxo da energia psíquica pode ser voltado para fora (extroversão) ou para dentro (introversão) e, de novo, via de regra, uma dessas orientações é predominante na personalidade de cada um. Todos esses fatores se combinam e sofrem a influência de elementos culturais, históricos e biográficos, para produzir a estrutura geral da personalidade, e é essa estrutura que determina qual ou quais abordagens são mais eficazes do ponto-de-vista do desenvolvimento espiritual.

Uma abordagem intuitivo-introvertida à Krishnamurti tende a ser eficaz para os tipos intuitivos introvertidos, uma prática corporal como a ioga ou as diferentes terapias (pós-)reichianas funciona melhor para os intuitivos extrovertidos, tipos sensação-extrovertidos tendem a responder melhor a rituais dramáticos externos e assim por diante. Como disse o Dom Juan ao Castaneda, não importa que caminho você escolha, desde que o siga com o coração, ou seja, desde que se comprometa de verdade com ele.

Uma das idéias que eu tenho vontade de desenvolver é justamente essa, relacionar os tipos psicológicos junguianos às diferentes práticas espirituais, tentando determinar quais seriam mais adequadas a cada tipo. Ainda não tive tempo de me dedicar a esse estudo sistematicamente, mas acho que seria uma contribuição útil, justamente por causa da tendência errônea que a gente tem de achar que o método que funciona pra uma pessoa vai necessariamente funcionar pra todas (que eu saiba, dentre as escolas esotéricas, o sufismo é a única que não cai nessa armadilha).

Sobre o sofrimento, no ano passado eu postei um texto sobre isso, não sei se você chegou a ler. Você tem razão, buscar um caminho espiritual (religioso ou não) como forma de aliviar o sofrimento é uma barca furada. A dor é parte integrante do crescimento espiritual e não tem como fugir disso.

Abs.
L.

Salve,
Fico feliz em ver que o tema rendeu tanto.
Acho que há alguma confusão entre Ego, defesas e couraça. Claro que o Ego se delimita pelas defesas. Claro também que couraças são defesas. Mas há uma distancia quantitativa e qualitativa entre defesas e couraças. A defesa é expressão natural do organismo em contato com a "realidade" (autoregulação). São, portanto, transitórias e somente mobilizadas diante de uma necessidade concreta. Já as couraças são defesas que pretendem manter a extase energética gerada pela supressão da sexualidade. Como o seu objetivo é manter a "congestão" energética, tornam-se permanetes.
Ora, não se nega a existência de um self ou de um estado de consciência a anteceder o Ego. É certo, igualmente, que para retornar-se a este estado de consciencia é preciso suspender o Ego.
Na minha ótica, todavia, uma coisa é suspender o Ego. Outra é aniquilá-lo. Podemos suspender o Ego: basta desenergizá-lo! O que não se pode, segundo penso, é destruir o caminho de volta. É preciso ser capaz de trabalhar em ambos os níveis de consciência.
A impossibilidade de abandonar o plano da consciência egócia é exatamente a rigidez da couraça, porque a manutenção da "congestão" enérgética não permite transferir a energia da periferia (Ego) para o centro (self).
Por isso entendo que é uma questão de recuperar-se a plasticidade do Ego porque esta condição é que nos permite direcionar a energia e modular os nossos estados de consciência.
Se destruírmos as estruturas egóicas, salvo melhor juízo, tornamos impossível o retorno para atuarmos no plano mundano e isto equivale a uma viagem sem volta.
Vou ousar trazer uma citação de Lévi que exprime, de certo modo, as implicações deste mecanismo:

"O bruto sofre a fatalidade desta luz; o homem pode dirigi-la.
É a inteligência que, adaptando o sinal ao pensamento, cria as formas e as imagens.
A luz universal é como a imaginação divina, e este mundo que muda sem cessar, permanecendo sempre o mesmo quanto às suas leis de configuração, é o sonho imenso de Deus.
O homem modela a luz pela sua imaginação; ele atrai para sí luz suficiente para dar formas convenientes a seus pensamentos e até a seus sonhos; se esta luz o penetra, se afoga o seu entendimento nas formas que evoca, é louco. (...)"

Sub pauladas, eu sei!

Saravá, Rubens!

Não se trata de confusão. Do ponto-de-vista do esoterismo e das religiões orientais, não existe uma diferença essencial entre ego, defesa e couraça, e foi a partir dessa perspectiva que eu desenvolvi o modelo que propus no post. A Anna Freud tem um texto clássico, recentemente reeditado em português, chamado O Ego e os Mecanismos de Defesa mas, à luz do que o budismo e o sufismo ensinam sobre o ego, seria mais correto dizer que o ego é o conjunto de mecanismos de defesa criados pela psique para proteger a consciência enquanto ela se desenvolve diferenciando-se tanto do mundo exterior quanto do inconsciente. A partir de determinado ponto, porém, esses mecanismos de defesa perdem a razão de ser, tornam-se rígidos e, em vez de ajudar no desenvolvimento da consciência, viram a proverbial pedra no meio do caminho. É quando o caráter (= ego) se transforma em couraça.

Abs.
L.

Lúcio,
Em Freud e em Ana Freud isso é correto. Em Reich não. A dissidência de Reich com Freud está justamento no fato de que para Freud, a civilização só é possível a partir da repressão dos instintos. Reich nega este conflito. A repressão não é necessária para a civilização, mas é mecanismo de dominação. E a chave está justamente no mecanismo de autoregulação, somente possível com uma econômia sexual saudável.
Por isso a distinção em Reich é fundamental, penso eu.

Salve, Rubens!

A distinção entre consciência e caráter é fundamental em Reich. O que ele questiona, essencialmente, é a noção freudiana de que a consciência depende da repressão dos instintos. O problema é que Reich, embora tenha rompido com Freud, continuou utilizando o vocabulário psicanalítico e, conseqüentemente, identificando a consciência ao ego. É, na verdade, mais uma questão de semântica do que outra coisa. Se você comparar a descrição que Reich faz do ego livre da repressão, vai ver que ela coincide ponto por ponto com a consciência individuada de Jung, isto é, a consciência cujo centro é o Si-mesmo, e não o ego. Por outro lado, se você for olhar o conceito de caráter, vai ver que ele abrange tudo o que nós denominamos de ego. O problema é, basicamente, de vocabulário.

Abs.
L.

Salve, Lúcio!
Concordo. Há um vezo semântico em Reich que decorre do fato de ter iniciado seus trabalhos na psicanálise, não se desvencilhando do jargão psicanalítico, embora tenha desenvolvido outros conceitos.
Ao depois, esta visão topográfica da psique (Id, Ego e Superego) não condiz com o fenômeno, porque cria a falsa ilusão de que se trata de uma entidade espacial compartimentada e estanque.

E aí meu querido,

Que post esclarecedor, e os comentários estão num nivel altissimo... só tenho elogios.

O 'mal necessário' nos faz refletir sobre a tamanha Inteligência Providencial do Criador neste Sistema que estamos vivenciando...

"O ego é um péssimo senhor, mas um ótimo servo"

um grande abraço !

Ah, como é animador acompanhar as discussões em alto nível aqui... fantástico texto, muito embora eu tenha uma "quedinha" pelo caminho do meio, tentando conviver com o ego enquanto aqui estamos, procurando não se deixar dominar (mais) por "ele", muito embora "ele" viva disso...

No Bhagavad-gita, Cap 6, verso 6, Krishna diz para Arjuna:
"Para aquele que conquistou sua mente, ela é a melhor das amigas. Mas para aquele que fracassou neste empreendimento, sua mente continuará sendo sua pior inimiga".

Um colega hinduísta contribuiu para o assunto ao comentar a frase acima:
"Isso é assim pq a mente (manah) é inquieta por natureza, visto que ela é o campo de interação das percepções de todos os sentidos. Superior à mente é a inteligência (buddhi), pois esta pode subjulgar a mente.
Já o falso-ego (ahankara) deve ser rendido no serviço ao Supremo. Não se pode aniquilar o falso-ego, pois este é muito sutil, sendo o elo de ligação (link) entre a alma espiritual (jiva) e o corpo (sharira). Enquanto estamos em um corpo, temos a presença do falso-ego. Só comemos, dormimos e vivemos nesse corpo devido a esse link.
Entretanto, esse ego falso, pode ser purificado e nosso ego ou Eu verdadeiro, se libertará, finalmente, das coberturas grosseiras que o envolvem i.e., falso-ego, inteligência, mente, corpo, sentidos etc."

Abraços!

Olá Lúcio,
Diminuindo um pouco o nível dos comentários (até porque me falta embasamento, tanto teórico quanto prático, para fomentar uma discussão mais profunda no tema), gostaria de saber de você se seria possível fazer um paralelo entre o que você define no seu texto como inconsciência, consciência e ego e as três primeiras sephiroth, kether, chokmah e binah?

Abraços e parabéns,

Saravá, Rubens!

Todo sistema conceitual tende a ser reificado pelo pensamento - Jung chamava essa tendência de hipóstase e, embora tenha alertado bastante contra esse erro, isso não impediu que os próprios conceitos junguianos tenham sido reificados pelos seus discípulos, especialmente a anima, o animus e a sombra. Além disso, fala-se de arquétipos como se a gente soubesse o que é, como se "arquétipo" não fosse apenas um nome, uma etiqueta que a gente cola a uma incógnita que é, sempre foi e sempre vai ser desconhecido. Acontece a mesma coisa com as Sephiroth da cabala e assim por diante. Todos esses sistemas (inclusive a topografia psíquica do Freud) são mapas úteis pra gente se orientar ao lidar com as realidades interiores, só não podemos esquecer que não passam disso - mapas.

Abs.
L.

Salve, Whocares!

>"O ego é um péssimo senhor, mas um ótimo servo"

Exato. Ele tem uma função e um prazo de validade, e só se torna destrutivo quando extrapola ambos.

Abs.
L.

Saravá, Acid!

Não sei se eu já disse isso por aqui, mas a metáfora da morte do ego é enganosa e, como todas as metáforas, não é pra se tomar ao pé-da-letra. O que acontece na verdade é que o ego é esvaziado, porque a consciência, que é o que lhe dava a ilusão de realidade, migra do ego para o Si-mesmo. Mas isso não quer dizer que o ego desvanece no ar sutil. Ele continua existindo como uma interface útil para o contato com o mundo e com as outras pessoas, o que o Jung chamou de persona. Só que a consciência não se identifica mais com essa persona, que não passa de um instrumento (como os três corpos do Buda no budismo tibetano).

Não sei se o exemplo ajuda ou atrapalha, mas é como se o ego fosse uma barba postiça. Uma barba postiça é uma falsa barba, mas é uma verdadeira barba postiça. :-)

Abs.
L.

Saravá, 13!

Não. Na Árvore da Vida, o ego se situa no quadrado formado pelas sephiroth inferiores, Malkuth, Yesod, Hod e Netzsach, que são um simples reflexo das sephiroth superiores.

Kether corresponde ao Si-mesmo junguiano, a totalidade psíquica, da qual emanam todas as demais sephiroth. Como totalidade, e portanto união dos opostos, Kether possui uma polaridade "masculina" (Hokmah) e uma polaridade "feminina" (Binah), que são os nomes dados pelos cabalistas aos arquétipos do Grande Pai e da Grande Mãe.

O ego fica muito abaixo de tudo isso.

Já a consciência, ela não equivale a nenhuma sephirah em particular, porque é a força que se desloca ao longo de toda a Árvore da Vida.

Abs.
L.

Caríssimo F-A.

Não seria melhor por o si-mesmo em Tipheret????? Acho que Kether fica muito em cima até mesmo para o si-mesmo..... Este o meu sentimento, não sei explicar na teoria o porquê, mas o sinto.
Abraço
"Da KiNGm0BY"
P.s. dei uma olhada no metaxy e gostei do boitatá. Tem algum mais que vossa senhoria me recomendaria, por obsequium? Grato.

Tipheret é um reflexo de Kether, então também é o Si-mesmo. Você poderia dizer que Kether é o Si-mesmo em estado puro, incondicionado, enquanto Tipheret é o Si-mesmo encarnado (não é por nada que, na cabala cristã, Tipheret é Cristo).

Sobre os livros da Metaxy, eu sou meio suspeito pra falar, né? :-)

Abs.
L.

"...não conseguem imaginar uma consciência que ultrapasse o ego - e, obviamente, um ego que se identifica com os conteúdos arquetípicos é um ego inflado, psicótico..." É... como é difícil desvencilhar de antigas amarras conceituais, o trecho acima descreve exatamente como vejo a relação ego e Si-mesmo! Antes de tudo acho que é necessário experienciar antes de querer analisar ou questionar! Vou experimentar a meditação Vipassana! Alguma outra recomendação especial além das já citadas? No mais, ganhou sua 21a. leitora fiel!!! Um grande abraço

Hello again, Liyume! :-)

>Antes de tudo acho que é necessário experienciar antes de querer analisar ou questionar!

A experiência pessoal é a base de tudo. Claro que o sentido da experiência vai se modificando com o tempo, à medida que a consciência também se aprofunda, mas, sem ela, a consciência fica patinando no vazio. É a diferença entre olhar o cardápio e provar da comida. :-)

>Vou experimentar a meditação Vipassana!

Vale muito a pena. Perceber o caráter ilusório do ego na prática (e não só na teoria), ver o ego de fora e perceber como ele se constrói a partir da interação de agregados mentais efêmeros, é uma experiência profundamente transformadora.

>Alguma outra recomendação especial além das já citadas?

Só a do hexagrama 25 do I Ching: praticar sem se preocupar com resultados. Se a gente meditar ansiando alcançar este ou aquele objetivo, ter esta ou aquela experiência, isso introduz a perspectiva do ego e funciona como um obstáculo. O espírito ideal pra fazer esse tipo de coisa é o de uma criança profundamente entregue a uma brincadeira, ao aqui-agora, à experiência imediata.

>No mais, ganhou sua 21a. leitora fiel!!!

Seja bem-vinda, espero que continue gostando das coisas que vez por outra brotam neste espaço assumidamente caótico. :-)

Abs.
L.

Cara, eu juro que às vezes quando leio essas coisas aqui no Franco, me sinto numa realidade alterada futurista à la PK Dick.

Sem hipérboles.

Abraços.
Kingmob

>Cara, eu juro que às vezes quando leio essas coisas aqui no Franco, me sinto numa realidade alterada futurista à la PK Dick.

Ainda bem, sinal que o blog tá cumprindo seu objetivo. :-)
Valeu, Gideon.

Abs.
L.

Taí uma dúvida que ando carregando comigo:

Afinal, a tal da consciência (tal como está sendo tratada aqui, ou seja, tal como tratada por Jung) é algo individual ou não? Se é o ego quem produz em nós a ilusão da individualidade, então devo concluir que a consciência é algo "não-individual"? Para não usar adjetivos mais complicados, como "impessoal", "coletivo", etc.

Se for assim como eu penso, então a própria palavra "individuação" não estaria incorreta (supondo que ela tenha mesmo algo a ver com a experiência mística), uma vez que ela corresponderia à dissolução da ilusão de individualidade, e não o contrário? Ou a individuação não é nada dessa história de dissolução da individualidade (e, nesse caso, nada tendo a ver com a experiência mística)?

Saravá, Você_Sozinho!

De acordo com o Jung, a ilusão de individualidade que chamamos de ego não é a verdadeira individualidade: o ego é composto por uma soma de papéis sociais, personas e personagens com os quais a consciência se identifica. É a partir desse amálgama que nós construímos o que tomamos erroneamente como sendo a nossa identidade. Então, em última análise, não existe nada menos pessoal do que o ego. Boa parte do processo de individuação consiste em desconstruir essa identidade (o que o Winnicott chamava de "falso self") para que a nossa individualidade essencial possa emergir. Essa individualidade é uma forma particular de expressão pessoal do Si-mesmo transpessoal, como uma faceta única de um diamante multifacetado. O que define a tua individualidade é o ponto de inserção do Si-mesmo em nossa realidade espaço-temporal (o que os budistas denominam de nirmanakaya, ou "corpo da manifestação"), e esse ponto de inserção é exclusivo pra cada um de nós.

Abs.
L.

Mas o objetivo da busca mística não é dissolver qualquer ilusão de individualidade, seja ela qual for? Integrar-se ao Self não seria o mesmo que integrar-se ao Todo, ou seja, diluir qualquer vestígio de individualidade?

E você não me respondeu... O que Jung chama de "consiência" é algo individual ou não é(tal como o "inconsciente coletivo", que é coletivo e não individual)?

>E você não me respondeu...

Respondi, sim, Você_Sozinho. Mas, se você precisa das coisas mais mastigadinhas, lá vai:

>Mas o objetivo da busca mística não é dissolver qualquer ilusão de individualidade, seja ela qual for?

O objetivo da busca mística é dissolver a falsa individualidade do ego. Isso não é o mesmo que dissolver a tua essência individual.

>Integrar-se ao Self não seria o mesmo que integrar-se ao Todo, ou seja, diluir qualquer vestígio de individualidade?

Integrar-se ao Self é o mesmo que integrar-se ao Todo, mas isso não é o mesmo que dissolver qualquer vestígio de individualidade. A unha do teu dedão do pé e os teus cabelos fazem parte de um mesmo todo, que é o teu corpo, mas isso não quer dizer que não existam diferenças individuais entre unhas e cabelos.

>O que Jung chama de "consiência" é algo individual ou não é(tal como o "inconsciente coletivo", que é coletivo e não individual)?

Se não fosse individual, o processo de desenvolvimento da consciência não seria chamado de "processo de individuação". A minha consciência individual faz parte do Todo - ela é o ponto de inserção de um determinado aspecto do Si-mesmo em uma configuração espaço-temporal específica. Mas essa consciência individual não é o ego, embora se identifique erroneamente com ele.

Olá, Lúcio!

Tá, vamos ser mais específicos:

Se eu partir do ponto de vista de uma tradição mística que ensine a respeito da impermanência de todas as coisas (como a doutrina "anatta", do budismo, que - como outras tradições, creio - nega a existência de qualquer "eu" ou "alma" individual e permanente), esta seria incompatível com a idéia junguiana de "individuação", correto?

Só se você tomar como referência o budismo theravada (ou hinayana). Na tradição mahayana, que é a principal e à qual pertencem tanto o zen-budismo quanto o budismo tibetano, não há incompatibilidade alguma. Tanto que, no comentário anterior, eu citei justamente o conceito do Trikaya, os Três Corpos do Buda, para ilustrar o que seria uma individualidade não-egóica: o nirmanakaya ou corpo da manifestação. Os outros dois Corpos do Buda são o samboghakaya, que é o Si-mesmo pessoal, e o dharmakaya, que é o Si-mesmo universal. De uma perspectiva budista, o processo de individuação pode ser descrito como a transmutação do ego no nirmanakaya, o veículo para a manifestação do Si-mesmo pessoal que, por sua vez, é uma configuração individualizada do Si-mesmo universal.

Olá, Lúcio!

Resolvi ressuscitar esta discussão porque alguns pontos não ficaram muito esclarecidos pra mim. Espero não estar sendo chato...

Encontrei, alguns posts acima, algo escrito por você e que eu gostaria que comentasse:

"A questão é que, quando pensamos em consciência, pensamos na consciência do ego, e esta de fato desaparece totalmente no sono profundo, na anestesia profunda, no coma profundo e algum tempo depois da morte. Como a nossa percepção reflete mecanismos de cognição moldados pelo ego, não temos parâmetros para representar esse estado e então ele nos aparece como um grande vazio ou ausência de consciência. Mas, na verdade, é a consciência em seu estado mais puro.

Claro que, para o ego, isso é fonte de grande desconforto, que vai da humilhação de perceber que é só o fantasma de uma máquina orgânica (e, no fundo, é isso mesmo que o ego é, um reflexo da imagem corporal) até o terror absoluto de ser confrontado com sua própria inexistência (a máquina orgânica continua funcionando mesmo na ausência do ego). Daí, na verdade, o medo da morte. Quem teme a morte é o ego, não a consciência, porque para ele a morte não só é a extinção, como a percepção de que nunca houve nada para ser extinguido."

Será que você poderia comentar esta passagem, levando em conta tudo aquilo que conversamos anteriormente sobre "impermanência da individualidade" e correlatos?

Abraços!

Ficaria mais fácil comentar se você especificasse quais são as suas dúvidas, Você_Sozinho. Mas, só pra frisar: a individualidade não é o ego. De modo que transcender o ego não é transcender a individualidade. Muito pelo contrário, a verdadeira individualidade só pode emergir com a superação do ego (que, longe de ser um indivíduo, é um composto de estruturas e padrões socialmente construídos).

Abs.
L.

Tá bom, vou tentar destrinchar aqui quais são as minhas dúvidas. Gostaria que, se possível, você comentasse parte por parte. Lá vai:

1°) Você disse: A questão é que, quando pensamos em consciência, pensamos na consciência do ego, e esta de fato desaparece totalmente no sono profundo, na anestesia profunda, no coma profundo e algum tempo depois da morte.

Então, quando normalmente se pensa em uma "essência individual" (espírito, alma, ou seja lá que nome se dê a isso), as pessoas estariam pensando na verdade no ego? E, portanto, essa questão de "continuidade da nossa essência individual" (problema que inquieta bastante o ser humano, e que envolve a preocupação com uma suposta "vida após a morte") é uma questão colocada pelo ego, e portanto, ilusória?

2°)Você disse: Como a nossa percepção reflete mecanismos de cognição moldados pelo ego, não temos parâmetros para representar esse estado e então ele nos aparece como um grande vazio ou ausência de consciência. Mas, na verdade, é a consciência em seu estado mais puro.

Então aquilo que você está chamando de consciência na verdade é algo "inconsciente", ou seja, desprovido de conteúdos, pensamentos, sensações, etc.?

3°) Já está claro pra mim que a individualidade não é sinônimo de ego. Bom, não é complicado pensar em termos de individualidade quando estamos falando de um ser humano que é vivo, que tem um corpo que o distingue de outros indivíduos, etc. Mas, e quando pensamos na morte física deste indivíduo? A individualidade dele se extinguiria, ou devemos pensar que existe algum núcleo permanente da individualidade, o qual continuaria a existir mesmo após a extinção física do indivíduo?

4º) Se eu preferir partir de um ponto de vista segundo o qual não há NADA de permanente e/ou "essencial" na individualidade, como é possível (se é que é possível) conciliar esse ponto de vista do qual eu parto com esse que você nos apresenta?

Obrigado pela atenção!

Abraços!

>Então, quando normalmente se pensa em uma "essência individual" (espírito, alma, ou seja lá que nome se dê a isso), as pessoas estariam pensando na verdade no ego?

Não exatamente. As pessoas confundem a noção de uma essência individual (que não é a mesma coisa que alma e é apenas um aspecto individualizado do Si-mesmo universal) com o ego.

>E, portanto, essa questão de "continuidade da nossa essência individual" (problema que inquieta bastante o ser humano, e que envolve a preocupação com uma suposta "vida após a morte") é uma questão colocada pelo ego, e portanto, ilusória?

Só se elas pensarem essa continuidade em termos de uma sobrevivência do ego. De acordo com a psicanálise e a psicologia do desenvolvimento, o ego não existe nem sequer quando a pessoa nasce. O núcleo do ego começa a se desenvolver por volta dos 18 meses, quando a criança se identifica com seu reflexo no espelho, e termina em algum ponto entre os 3 e os 5 anos, com a dissolução do complexo de Édipo. Se o ego não existia no começo, não existe nenhum motivo para supor que ele continue existindo no final. Mas eu estou falando do ego, não da consciência.

>Então aquilo que você está chamando de consciência na verdade é algo "inconsciente", ou seja, desprovido de conteúdos, pensamentos, sensações, etc.?

Se isso fosse verdade, não haveria diferença entre um Buda iluminado e um cabra que entrou em coma depois de um acidente de carro.

>A individualidade dele se extinguiria, ou devemos pensar que existe algum núcleo permanente da individualidade, o qual continuaria a existir mesmo após a extinção física do indivíduo?

No fundo, portanto, o que você quer mesmo saber é se, na minha opinião, existe algum tipo de vida após a morte. Duas palavras: não sei. :-)

O que eu posso dizer é que, tanto na visão junguiana quanto na da tradição esotérica ocidental, a vida pode ser encarada como um processo de evolução da consciência, composto basicamente de dois estágios: no primeiro, a consciência se separa do inconsciente por meio da identificação com o ego; na segunda, a consciência se separa do ego e se desloca em direção ao Si-mesmo.

Me parece que esse processo todo seria estúpido se, no final, quando a consciência finalmente conseguisse se desvincular do ego, ela simplesmente deixasse de existir. Mas essa é a impressão que eu tenho a partir de um ponto-de-vista limitado, particular, e cujas premissas podem estar completamente equivocadas. Até porque em lugar algum existe uma regra proibindo o universo de ser estúpido. Às vezes, parece justamente o contrário... :-)

>Se eu preferir partir de um ponto de vista segundo o qual não há NADA de permanente e/ou "essencial" na individualidade, como é possível (se é que é possível) conciliar esse ponto de vista do qual eu parto com esse que você nos apresenta?

O budismo mahayana nunca teve a menor dificuldade em conciliar as duas perspectivas. Sugiro que você procure um livro chamado Vazio Iluminado (Francesca Freemantle, ed. Record/Nova Era), que analisa a questão a partir do Livro dos Mortos Tibetano - cujas concepções são o que mais se aproxima da idéia que eu faço sobre essa coisa toda.

Abs.
L.

Olá, Lúcio!

Obrigado por suas respostas!

Se isso fosse verdade, não haveria diferença entre um Buda iluminado e um cabra que entrou em coma depois de um acidente de carro.

Ué, mas foi você mesmo quem se referiu ao sono e ao estado de coma como sendo estados em que a consciência se apresenta em seu estado mais puro...:-)

Então, afinal, que mulesta é isso que você chama de consciência? De que ela tem ciência, afinal? O que é isso que, em seu estado puro, seria inconsciente sob a perspectiva do ego?

Dei uma pesquisada no Google a respeito do livro que você me indicou... O nome dele é "Vazio Luminoso", não?

Pelo que eu vi, ele trata mais de budismo. Eu estou mais interessado é nos conceitos da psicologia junguiana, analisada a partir de um ponto de vista segundo o qual não há nada de permanente na individualidade humana (ponto de vista esse que não é exclusivo do budismo, até onde eu sei). Se puder me adiantar algo a respeito, agradeço... Mas se estiver sem tempo para esse debate, posso esperar você ficar mais livre para continuarmos.

Abraços!

Você_Sozinho,

A perspectiva que norteia este blog deve muito à psicologia junguiana, mas não é junguiana, justamente porque, entre outras coisas, incorpora a distinção que as religiões orientais (especialmente o budismo e o vedanta) fazem entre a consciência e o ego. Se o que te interessa é um ponto-de-vista junguiano ortodoxo, então eu não posso te ajudar, até porque não sou psicólogo e não tenho credenciais para falar em nome da psicologia junguiana (ou de qualquer outra).

Abs.
L.

>Até porque em lugar algum existe uma regra proibindo o universo de ser estúpido. Às vezes, parece justamente o contrário... :-)

Estúpido como um deboche da Divindade Irada,
que não ensina pela dor, esta amarga mãe da sisudez, senão pelo puro sacaneio, a intuir o caminho da Santa Ignorância.

Miserável parece ser o homem que acha saber e acredita em seu saber, perdido na Torre de Babel de línguas falaciosas, idolatrando o pó de algo que presume ser conhecimento e que presume ser seu, somente seu, de mais ninguém.

Ah! como o EU é o amante ciumento de ilusões! Ora vê-se como muito, ora vê-se como pouco, pois ilusórios são o saber e o conhecimento nos quais vê-se refletido.

Harmonia é cada corpo em seu lugar, e o lugar do Homem é entre a poeira e o madeiro podre, e nisto se encontra a sua glória sem pompas, sem o orgulho inerente tanto ao ser como ao não ser, sem a arrogância da humilhação e da exaltação.

Por isto eu agradeço feliz à estupidez, à Santa estupidez que o universo permite vislumbrar por vezes como uma promessa sem esperança.

Pace e Bene,
Kingmob.

Companheiro Lúcio, pegando carona nesta discussão, gostaria de saber a sua opinião sobre o seguinte: a psicanálise freudiana também poderia ser considerada um caminho espiritual, em direção à superação das amarras do ego?
Que outros ramos da psicologia/psicanálise também abririam tal possibilidade? Reich?

Grato,
Malungo.

Kingmob, és um poeta de primeira!

Abs,
Malungo.

Nossa, quantas informacoes interessantes aqui!

Vou levar um tempnho pra digerir tudo, antes de tirar o tempo de vocês com minha participacao :)

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