A Corda Sobre o Abismo
Senhoras e senhores, muito boa-noite (ou bom-dia, ou boa-tarde). Hoje temos conosco um convidado muito especial. Se existe alguém que merece figurar com todas as honras na galeria de nossos mais ilustres patrocinadores, é a pessoa que estamos recebendo esta noite (ou dia, ou tarde). Um personagem cujas palavras podem levar ao hospício ou à salvação, mas que nunca nos deixam indiferentes. Um profeta, que merece esse nome como poucos já mereceram. Mais do que um homem, menos que um deus - embora seu hobby seja nada menos que o deicídio. Uma salva de palmas para o SAGA de Friedrich Nietzsche - Zaratustra himself:
O homem é uma corda estendida entre o animal e o super-homem - uma corda sobre um abismo.
É o perigo de transpô-lo, o perigo de estar a caminho, o perigo de olhar para trás, o perigo de tremer e parar.
O que há de grande, no homem, é ser ponte, e não meta: o que pode amar-se, no homem, é ser uma transição e um ocaso.
Amo os que não sabem viver senão no ocaso, porque estão a caminho do outro lado.
Amo os grandes desprezadores, porque são os grandes veneradores e flechas do anseio pela outra margem.
Amo aqueles que, para o seu ocaso e sacrifício, não procuram, primeiro, um motivo atrás das estrelas, mas se sacrificam à terra, para que a terra, algum dia, se torne do super-homem.
Amo aquele que vive para adquirir o conhecimento e quer o conhecimento para que, algum dia, o super-homem viva. E quer, assim, o seu próprio ocaso.
Amo aquele que trabalha e faz inventos para construir a casa do super-homem e preparar para ele a terra, os animais e as plantas: porque, assim, quer o seu próprio ocaso.
Amo aquele que ama a sua própria virtude: porque a virtude é vontade de ocaso e uma flecha do anseio.
Amo aquele que não guarda para si uma só gota de espírito, mas quer ser totalmente o espírito da sua virtude: assim transpõe, como espírito, a ponte.
Amo aquele que da sua virtude faz o seu próprio pendor e destino: assim, por amor à sua virtude, quer ainda e não quer mais viver.
Amo aquele que não deseja ter demasiadas virtudes. Uma só virtude é mais forte do que duas, porque é um nó mais forte ao qual se agarra o destino.
Amo aquele que prodigaliza a sua alma, não quer que lhe agradeçam e nada devolve: pois é sempre dadivoso e não quer conservar-se.
Amo aquele que sente vergonha se o dado cai a seu favor e que, então, pergunta: "Sou, acaso, um trapaceiro?" - porque quer perecer.
Amo aquele que atira palavras de ouro precedendo seus atos e, ainda assim, cumpre sempre mais do que promete: pois quer o seu ocaso.
Amo aquele que justifica os seres futuros e redime os passados: porque quer perecer dos presentes.
Amo aquele que pune o seu Deus, porque o ama: pois deverá perecer da ira do seu Deus.
Amo aquele cuja alma é profunda também na mágoa e pode perecer de uma pequena ocorrência pessoal: assim transpõe a ponte de bom grado.
Amo aquele cuja alma é tão transbordante que se esquece de si mesmo e que todas as coisas estão nele: assim, todas as coisas tornam-se o seu ocaso.
Amo aquele cujo espírito e coração são livres: assim, nele, a cabeça é apenas uma víscera do coração, mas o coração o arrasta para o ocaso.
Amo todos aqueles que são como pesadas gotas caindo, uma a uma, da negra nuvem que paira sobre os homens: prenunciam a chegada do raio e perecem como prenunciadores.
Vede, eu sou um prenunciador do raio e uma pesada gota da nuvem; mas esse raio chama-se super-homem.
"O mundo verdade acabou abolido, que mundo nos ficou? O mundo das aparências? Mas não. Com o mundo verdade abolimos o mundo das aparências!
(Meio dia, momento da sombra mais breve, termo do erro mais demorado, ponto culminante da humanidade: INCIPIT ZARATUSTRA.)
Posted by: Andrei Punt el | 07-11-2005 at 23:49
Incipit Zaratustra. Pra mim, esse texto sobre a abolição do mundo das aparências e o fragmento do Zaratustra que eu reproduzi aqui são os dois textos-chave do Nietzsche. Não que tudo o que ele escreveu não mereça ser lido com toda a atenção, porque merece. (Mas também não podemos esquecer que ele próprio fracassou na travessia desse abismo, e eu tenho um ou dois palpites sobre o que foi que deu errado.)
Abs.
L.
Posted by: Malprg | 10-11-2005 at 12:21
Segundo minha professora de psicologia analítica, o problema de Nietzsche foi com a Anima.
Considerando-se , em seus escritos, a visão que tem das mulheres e, num âmbito mais geral, do feminino, é uma hipótese que merece meditação.
Posted by: Rafael | 10-11-2005 at 21:37
Salve, Rafael!
É uma leitura interessante, e a biografia do Nietzsche certamente tem elementos que podem ser interpretados nesse sentido - por exemplo, a fixação platônica que ele tinha pela Cosima Wagner e, depois, pela Lou-Andreas Salolmé.
Por outro lado, a interpretação clássica do Jung - que dedicou um seminário inteiro à análise do Zaratustra - é a de que o Nietzsche sucumbiu à possessão pelo arquétipo do Si-mesmo (do qual Zaratustra seria a personificação). Quando o arquétipo irrompeu na consciência do Nietzsche, veio com uma carga maior do que o ego do pobre conseguia suportar, e daí o ego explodiu, fragmentando-se na miríade de personalidades diferentes com que o Nietzsche assinava suas últimas cartas.
De qualquer forma, mesmo a loucura do Nietzsche não é um ponto pacífico. O Pierre Klossowski tem um ensaio chamado Nietzsche e o Círculo Vicioso - difícil, mas extremamente rico - em que ele contesta esse diagnóstico e sugere que mesmo a dissolução do ego faz parte do processo nietzscheano e foi uma conseqüência necessária do mergulho do filósofo no domínio pulsional.
Eu tendo mais pra visão do Jung que pra do Klossowski - embora ache que o Jung não foi inteiramente justo com o Nietzsche.
Abs.
L.
Posted by: Malprg | 10-11-2005 at 22:20
Acho as duas visões interessantes. O livro do Klossowski eu já tinha ouvi falar, mas ainda não li ... Quanto a este seminário do Jung, voçê sabe onde encontrar ??
Agradeço seus comentários do meu post, eles me abriram outras perspectivas. Obrigado.
Abraços
Posted by: Rafael | 11-11-2005 at 11:42
Esse seminário do Jung nunca saiu em português e, mesmo em inglês, a edição completa, em dois volumes, está esgotada. Mas existe uma edição resumida, que é a que eu encomendei pela Amazon. Em todo caso, você pode encontrar em Ciência da Alma, do Edward Edinger, uma síntese da visão junguiana sobre Nietzsche (assim como a interpretação do próprio Edinger). Outro livro interessante, se você lê inglês, é Nietzsche and Jung: The Whole Self in the Union of Opposites, de Lucy Huskinson, uma comparação detalhada entre a filosofia de Nietzsche e a psicologia de Jung (ou vice-versa), assim como uma análise da recepção de Nietzsche por Jung.
Abs.
L.
Posted by: Malprg | 11-11-2005 at 12:14