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06-11-2005

A Corda Sobre o Abismo

Senhoras e senhores, muito boa-noite (ou bom-dia, ou boa-tarde). Hoje temos conosco um convidado muito especial. Se existe alguém que merece figurar com todas as honras na galeria de nossos mais ilustres patrocinadores, é a pessoa que estamos recebendo esta noite (ou dia, ou tarde). Um personagem cujas palavras podem levar ao hospício ou à salvação, mas que nunca nos deixam indiferentes. Um profeta, que merece esse nome como poucos já mereceram. Mais do que um homem, menos que um deus - embora seu hobby seja nada menos que o deicídio. Uma salva de palmas para o SAGA de Friedrich Nietzsche - Zaratustra himself:

O homem é uma corda estendida entre o animal e o super-homem - uma corda sobre um abismo.

É o perigo de transpô-lo, o perigo de estar a caminho, o perigo de olhar para trás, o perigo de tremer e parar.

O que há de grande, no homem, é ser ponte, e não meta: o que pode amar-se, no homem, é ser uma transição e um ocaso.

Amo os que não sabem viver senão no ocaso, porque estão a caminho do outro lado.

Amo os grandes desprezadores, porque são os grandes veneradores e flechas do anseio pela outra margem.

Amo aqueles que, para o seu ocaso e sacrifício, não procuram, primeiro, um motivo atrás das estrelas, mas se sacrificam à terra, para que a terra, algum dia, se torne do super-homem.

Amo aquele que vive para adquirir o conhecimento e quer o conhecimento para que, algum dia, o super-homem viva. E quer, assim, o seu próprio ocaso.

Amo aquele que trabalha e faz inventos para construir a casa do super-homem e preparar para ele a terra, os animais e as plantas: porque, assim, quer o seu próprio ocaso.

Amo aquele que ama a sua própria virtude: porque a virtude é vontade de ocaso e uma flecha do anseio.

Amo aquele que não guarda para si uma só gota de espírito, mas quer ser totalmente o espírito da sua virtude: assim transpõe, como espírito, a ponte.

Amo aquele que da sua virtude faz o seu próprio pendor e destino: assim, por amor à sua virtude, quer ainda e não quer mais viver.

Amo aquele que não deseja ter demasiadas virtudes. Uma só virtude é mais forte do que duas, porque é um nó mais forte ao qual se agarra o destino.

Amo aquele que prodigaliza a sua alma, não quer que lhe agradeçam e nada devolve: pois é sempre dadivoso e não quer conservar-se.

Amo aquele que sente vergonha se o dado cai a seu favor e que, então, pergunta: "Sou, acaso, um trapaceiro?" - porque quer perecer.

Amo aquele que atira palavras de ouro precedendo seus atos e, ainda assim, cumpre sempre mais do que promete: pois quer o seu ocaso.

Amo aquele que justifica os seres futuros e redime os passados: porque quer perecer dos presentes.

Amo aquele que pune o seu Deus, porque o ama: pois deverá perecer da ira do seu Deus.

Amo aquele cuja alma é profunda também na mágoa e pode perecer de uma pequena ocorrência pessoal: assim transpõe a ponte de bom grado.

Amo aquele cuja alma é tão transbordante que se esquece de si mesmo e que todas as coisas estão nele: assim, todas as coisas tornam-se o seu ocaso.

Amo aquele cujo espírito e coração são livres: assim, nele, a cabeça é apenas uma víscera do coração, mas o coração o arrasta para o ocaso.

Amo todos aqueles que são como pesadas gotas caindo, uma a uma, da negra nuvem que paira sobre os homens: prenunciam a chegada do raio e perecem como prenunciadores.

Vede, eu sou um prenunciador do raio e uma pesada gota da nuvem; mas esse raio chama-se super-homem.

Comments

"O mundo verdade acabou abolido, que mundo nos ficou? O mundo das aparências? Mas não. Com o mundo verdade abolimos o mundo das aparências!

(Meio dia, momento da sombra mais breve, termo do erro mais demorado, ponto culminante da humanidade: INCIPIT ZARATUSTRA.)

Incipit Zaratustra. Pra mim, esse texto sobre a abolição do mundo das aparências e o fragmento do Zaratustra que eu reproduzi aqui são os dois textos-chave do Nietzsche. Não que tudo o que ele escreveu não mereça ser lido com toda a atenção, porque merece. (Mas também não podemos esquecer que ele próprio fracassou na travessia desse abismo, e eu tenho um ou dois palpites sobre o que foi que deu errado.)

Abs.
L.

Segundo minha professora de psicologia analítica, o problema de Nietzsche foi com a Anima.
Considerando-se , em seus escritos, a visão que tem das mulheres e, num âmbito mais geral, do feminino, é uma hipótese que merece meditação.

Salve, Rafael!

É uma leitura interessante, e a biografia do Nietzsche certamente tem elementos que podem ser interpretados nesse sentido - por exemplo, a fixação platônica que ele tinha pela Cosima Wagner e, depois, pela Lou-Andreas Salolmé.

Por outro lado, a interpretação clássica do Jung - que dedicou um seminário inteiro à análise do Zaratustra - é a de que o Nietzsche sucumbiu à possessão pelo arquétipo do Si-mesmo (do qual Zaratustra seria a personificação). Quando o arquétipo irrompeu na consciência do Nietzsche, veio com uma carga maior do que o ego do pobre conseguia suportar, e daí o ego explodiu, fragmentando-se na miríade de personalidades diferentes com que o Nietzsche assinava suas últimas cartas.

De qualquer forma, mesmo a loucura do Nietzsche não é um ponto pacífico. O Pierre Klossowski tem um ensaio chamado Nietzsche e o Círculo Vicioso - difícil, mas extremamente rico - em que ele contesta esse diagnóstico e sugere que mesmo a dissolução do ego faz parte do processo nietzscheano e foi uma conseqüência necessária do mergulho do filósofo no domínio pulsional.

Eu tendo mais pra visão do Jung que pra do Klossowski - embora ache que o Jung não foi inteiramente justo com o Nietzsche.

Abs.
L.

Acho as duas visões interessantes. O livro do Klossowski eu já tinha ouvi falar, mas ainda não li ... Quanto a este seminário do Jung, voçê sabe onde encontrar ??
Agradeço seus comentários do meu post, eles me abriram outras perspectivas. Obrigado.

Abraços

Esse seminário do Jung nunca saiu em português e, mesmo em inglês, a edição completa, em dois volumes, está esgotada. Mas existe uma edição resumida, que é a que eu encomendei pela Amazon. Em todo caso, você pode encontrar em Ciência da Alma, do Edward Edinger, uma síntese da visão junguiana sobre Nietzsche (assim como a interpretação do próprio Edinger). Outro livro interessante, se você lê inglês, é Nietzsche and Jung: The Whole Self in the Union of Opposites, de Lucy Huskinson, uma comparação detalhada entre a filosofia de Nietzsche e a psicologia de Jung (ou vice-versa), assim como uma análise da recepção de Nietzsche por Jung.

Abs.
L.

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