Um Mundo Povoado de Espíritos
“Fundamentos Psicológicos da Crença nos Espíritos” é uma
conferência proferida por Jung em julho de 1919 perante a British Society for
Psychical Research, em Londres, e posteriormente publicada no vol. VIII/2 de
suas Obras Completas. Daí possivelmente o tom cauteloso do texto e os cuidados
de Jung para não ferir a suscetibilidade dos que acreditam piamente nas manifestações
espirituais. Ele começa lembrando que a crença nos espíritos é universal e
persiste tanto entre os povos primitivos quanto entre os mais civilizados.
Reconhece inclusive que em nossa época materialista, filha do Iluminismo,
assistimos a uma renovação dessa crença, desta vez sob o manto do interesse
científico, pela mão de pesquisadores como Crookes, Myers, Wallace e Zoellner
que, independente de estarem certos ou errados, tiveram a coragem de arriscar
suas reputações para tentar lançar alguma luz sobre o assunto.
Na interpretação de Jung, esse interesse renovado pelos
espíritos deve ser visto como uma reação contra a visão materialista dominante.
A retomada da crença nos espíritos serviria "como a arma mais eficaz
contra a simples verdade dos sentidos" (§ 572), função análoga à que essa
crença desempenha entre os povos primitivos, entre os quais "a percepção
de uma realidade espiritual" arranca o ser humano "dos laços que o
prendem a um mundo puramente sensível e material", dando-lhe a certeza da
existência "de uma realidade espiritual cujas leis ele deve
observar". Não seria exagero dizer que o primitivo vive "realmente em
dois mundos" porque, para ele, a "realidade física é, ao mesmo tempo,
um mundo povoado de espíritos".
Jung acredita que um europeu que realizasse os mesmos rituais prescritos pelos curandeiros para evocar a aparição dos espíritos teria exatamente o mesmo tipo de experiência, só que a interpretaria a seu próprio modo, "negando-lhe qualquer objetividade" (§ 573). Assim, ele não nega a validade dos fenômenos descritos pelos povos primitivos, mas salienta que há uma diversidade de explicações possíveis. E se dedica a mostrar quais são as principais fontes para a crença nos espíritos.
A primeira dessas fontes são os sonhos, nos quais freqüentemente
aparece a imagem de pessoas mortas, que o primitivo interpretará de modo
concretista. Em seguida vem as doenças psicógenas como a histeria e as
perturbações mentais do tipo esquizofrênico, que apontam ambas para conflitos
psíquicos inconscientes, muitos dos quais envolvem os pais do doente. Jung
considera que foi daí que surgiu o culto aos antepassados que, originalmente,
seria uma proteção para manter os espíritos afastados. Além disso, as
alucinações visuais e auditivas que acompanham muitas perturbações mentais
costumam ser interpretadas pelos povos primitivos como manifestações diretas de
entidades espirituais, a cuja possessão se atribuem os sintomas que o doente
experimenta.
Até aqui, Jung não avançou muito em relação à interpretação racionalista tradicional, que também interpreta as supostas manifestações de espíritos como um fenômeno patológico. Mas a argumentação continua e Jung salienta que a crença nos espíritos desencarnados é indissociável da crença de que o homem tem alma. Para os povos que acreditam que essa alma é única e indivisível, é ela que, depois da morte, se transforma em espírito. Mas existem religiões, como a egípcia e a chinesa, que postulam a existência de várias almas em cada ser humano, ou que a alma pode se dividir em várias partes. "Neste caso", diz Jung, "o espírito do morto é apenas uma das várias almas que o indivíduo tinha quando em vida. É, portanto, apenas uma parte da alma total, por assim dizer apenas um fragmento psíquico." (§ 577)
Embora compartilhem uma natureza semelhante, a atitude do
sujeito em relação às almas é radicalmente oposta à que ele adota perante os
espíritos. Enquanto a perda da alma ou de uma das almas é encarada pelo
primitivo como uma verdadeira tragédia, a ser remediada mediante ritos destinados
a resgatar a alma perdida, a proximidade com os espíritos deve ser evitada a
todo custo. "Para o primitivo, portanto, a alma é algo que lhe pertence e
normalmente deveria estar presente, ao passo que os espíritos lhe parecem
estranhos, e normalmente não deveriam ficar perto dele." (§ 587)
Mas qual é essa natureza que espíritos e almas compartilham? Para responder a essa pergunta do ponto de vista psicológico, Jung retorna aos três tipos de fenômeno que indicou como fontes da crença nos espíritos: os sonhos, as doenças mentais e as aparições. Ele nota que, nos sonhos, as pessoas conservam apenas uma consciência limitada de seu ego, que se reduz a "apenas um fragmento ou a sombra do eu quando em estado de vigília" (§ 580). Nesse estado, conhecido como eu onírico, a pessoa testemunha a aparição de imagens pelas quais não se sente responsável, mas que experimenta como fenômenos objetivos, que lhe chegam de fora e obedecem a suas próprias leis. "Constituem, manifestamente, complexos psíquicos autônomos formados com seus próprios materiais." (§ 580) Esses complexos escapam ao controle da nossa consciência e, se passam mais ou menos despercebidos durante o estado de vigília, quando geralmente só se manifestam sob a forma de "pensamentos que se apoderam de nós contra nossa vontade", durante o sono "produzem conteúdos que irrompem, quais seres estranhos e incompreensíveis, na consciência, como se viessem de um outro mundo" (§ 580). Todos os personagens que nos aparecem em sonhos são a personificação desses complexos.
A mesma coisa no que se refere às visões e aparições,
fenômenos psicologicamente semelhantes aos sonhos, com a diferença de que
acontecem quando a pessoa está acordada. A visão brota do inconsciente junto
com as percepções conscientes "e nada mais é do que uma irrupção
momentânea de um conteúdo inconsciente na continuidade da consciência" (§
581). São os complexos também que estão por trás das vozes, alucinações e
idéias delirantes que surgem nas doenças mentais. "O que estes tipos de
fenômenos têm em comum", resume Jung, "é o fato de que a psique em si
não é uma unidade indivisível, mas um todo divisível e mais ou menos
dividido." (§ 582) Em última análise, o que Jung está dizendo é que os
espíritos que se acredita assombrar os vivos, interferir na vida deles e se
manifestar nas casas mal-assombradas e sessões espíritas (bem como, acrescento
eu, nas possessões da umbanda e do candomblé) não são entidades exteriores, mas
complexos autônomos, isto é, partes da psique do próprio médium (ou da
testemunha da aparição) que, por um motivo qualquer, ou se desligaram da
consciência ou nunca fizeram parte dela. E a diferença entre espíritos e almas
não é que os espíritos sejam almas desencarnadas ou que as almas sejam
espíritos encarnados. Tanto uns como as outras constituem complexos autônomos.
Mas as almas são "complexos inconscientes que normalmente pertencem ao
eu", ao passo que os espíritos são "complexos que normalmente não
deveriam estar ligados ao eu" (§ 587). Mais exatamente, a diferença entre
almas e espíritos equivale aos dois níveis do inconsciente postulados pela
teoria junguiana: "As almas dos primitivos correspondem aos complexos
autônomos do inconsciente pessoal e os espíritos aos complexos do inconsciente
coletivo." (§ 591)
Na concepção de Jung, o inconsciente pessoal é mais ou menos análogo ao sistema pré-consciente/inconsciente descrito por Freud. Seu conteúdo é composto por todos os elementos esquecidos ou recalcados ao longo da vida, bem como pelas percepções subliminares e pelos traços do caráter incompatíveis com a vida em sociedade, os impulsos agressivos, eróticos, violentos, tudo que a nossa civilização considera como desagradável. Abrindo-se um parêntese, deve-se lembrar que o grande mérito de Reich foi ter demonstrado que esses conteúdos encontram-se claramente inscritos no corpo e na postura de cada indivíduo.
Já o inconsciente coletivo, que é um dos conceitos mais
mal-compreendidos da teoria junguiana, é composto por elementos que nunca
fizeram parte da consciência e nem poderiam, porque sua natureza é radicalmente
diferente. O núcleo de um complexo do inconsciente coletivo não é um elemento
recalcado ou esquecido, mas uma imagem arquetípica, isto é, uma imagem
produzida por um arquétipo que, em si, é impossível de se conhecer e só pode
ser percebido indiretamente, através de suas manifestações. São essas
manifestações que constituem, para citar o título da conferência, o fundamento
psicológico da crença nos espíritos. O campo privilegiado para a manifestação
dos complexos do inconsciente coletivo são justamente aquelas áreas que
respondem por essa crença nos povos primitivos: os sonhos, as visões e as
doenças mentais. Não se trata da alma dos mortos, mas de uma parte arcaica da
psique que, ao se aproximar da consciência, é sentida "como algo de
estranho, de misterioso e, ao mesmo tempo, fascinante" (§ 590).
Depois de mostrar a congruência entre a crença nos espíritos e a estrutura do inconsciente coletivo, Jung acrescenta que isso não diz nada a respeito da existência ou não da vida após a morte, a respeito da qual, como psicólogo, ele prefere não se pronunciar. "Creio que o leitor estará tão consciente quanto eu", diz, "de que é extremamente difícil encontrar uma demonstração satisfatória da existência independente dos espíritos, porque as comunicações espíritas normais em geral nada mais são do que manifestações ordinárias do inconsciente coletivo." (§ 599)
À primeira vista, continuamos em pleno terreno do redutivismo psicológico. Se os fenômenos comumente atribuídos aos espíritos são causados pela mesma fonte que provoca as doenças mentais, não quererá isso dizer que esses fenômenos são igualmente patológicos? Jung não estará, como qualquer racionalista, pegando um fenômeno tido como inexplicável e reduzindo-o a causas perfeitamente normais e corriqueiras? A resposta é não em ambos os casos, e basta uma leitura mais atenta do texto para demonstrá-lo.
Embora a descrição que Jung faz do efeito exercido pelos
arquétipos sobre a consciência pareça unilateralmente sombria, dando a
impressão de que os conteúdos do inconsciente coletivo são sempre mórbidos e
patogênicos, o próprio Jung admite que "o arquétipo tem também uma
numinosidade positiva, que menciono abundantemente em meus escritos" (§
5909). Mais adiante, ele acrescenta que os espíritos nem sempre são
perigosos ou nocivos, mas podem produzir também efeitos benéficos, quando seu
conteúdo é adequadamente integrado à consciência. O exemplo que ele cita, que
eu considero particularmente pertinente, é a manifestação do Espírito Santo
durante o milagre do Pentecostes, que ele considera como uma bem-sucedida
"transladação de um conteúdo do inconsciente coletivo na linguagem
comum" (§ 596).
É essa tendência que se observa também em uma parte imensa da literatura espírita, que mostra "uma propensão espontânea do inconsciente no sentido de se tornar consciente sob uma forma coletiva". Por baixo da algaravia e dos chavões que constituem o conteúdo manifesto das mensagens atribuídas aos espíritos, existe uma intenção que quase se pode qualificar de terapêutica: "A tomada de consciência espontânea dos conteúdos coletivos, cuja existência a Psicologia descobriu, desde há muito tempo, no inconsciente, constitui parte da tendência geral das comunicações mediúnicas no sentido de fazer passar os conteúdos do inconsciente para a consciência." Jung chega até mesmo a citar uma obra espírita, The Road I Know, de autoria de Stewart E. White, como uma "excelente introdução ao método da imaginação ativa que venho utilizando há mais de 30 anos no tratamento da neurose, como forma de levar os conteúdos incoscientes até o nível da consciência" (§ 599). Dessa forma, o transe e a psicologia junguiana compartilham, ainda que os espíritas o ignorem, do mesmo objetivo último, qual seja, o de ampliar o estado de consciência do ser humano por meio do acesso a níveis da psique normalmente vedados ao eu.
Salve, Lúcio!
Qual seria a natureza dos elementais, aos olhos do arcabouço teórico junguiano? Projeção arquetípica?
Posted by: Marcelo R | 04-07-2005 at 18:12
Salve, Marcelo!
Pros junguianos ortodoxos, os elementais são interpretados como uma personificação das funções básicas da psique. Se a gente parar pra pensar, não é muito diferente da interpretação alquímico-esotérica, que vê os elementais como uma personificação das forças elementares do universo.
Abs.
L.
Posted by: malprg | 13-07-2005 at 13:16
Saudações!
Gostei bastante do blog.
Venho pedir licença para colocar o link na minha página... posso ?
Namaste
Posted by: Ariadne | 08-10-2005 at 02:31
Oi, Ariadne
Seria um prazer!
Abs.
Malprg
Posted by: Malprg | 08-10-2005 at 11:01