O Riso e a Sístase (2): o Mecanismo
Retomemos nossas considerações sobre O Riso, do filósofo francês Henri Bergson. Ele havia determinado que o elemento comum a todas as figuras e situações que consideramos cômicas era a tendência a uma postura rígida e automatizada, tanto no corpo quanto no comportamento. Mostramos como essa postura é ponto por ponto idêntica à couraça do caráter, um conceito que nasceu no consultório do psicanalista Wilhelm Reich, mas que tem implicações políticas, sociais e até metafísicas muito mais amplas.
Na visão de Reich, a couraça do caráter é ao mesmo tempo o principal sintoma e o instrumento por meio do qual um sistema social alienante, que drena a energia do indivíduo, reduzindo-o a uma espécie de autômato social, condenado a viver de acordo com uma série de rotinas pré-programadas. Para Reich, que nessa época seguia uma orientação marxista, as origens desse sistema escravizante deviam ser buscados nas desigualdades econômicas e na exploração do homem pelo homem.
Quase dois mil anos antes de Reich, contudo, os gnósticos já haviam se debruçado sobre essa questão e concluíram que as desigualdades e injustiças sociais são um efeito do sistema, e não sua causa. Na terminologia gnóstica, esse sistema é chamado de sístase, um conceito que abrange tanto o automatismo psíquico e a rigidez corporal de Bergson quanto a couraça muscular e a couraça de caráter de Reich, mas eleva-os a uma dimensão ontológica: na concepção gnóstica, a sístase é um filtro que nos impede de perceber a verdadeira realidade, isolando-nos em um mundo ilusório.
Se retornarmos ao estudo de Bergson com essa perspectiva em mente, não teremos a menor dificuldade em encontrar a sístase descrita com clareza em todos os seus aspectos. Na filosofia de Bergson, a sístase é denominada de o mecanismo.
O mecanismo. - É quase um truísmo dizer que o humor é um espelho deformante, que nos faz rir porque exagera nossos próprios defeitos. Bergson, porém, demonstra que não são quaisquer defeitos que se prestam a essa deformação cômica, mas apenas aqueles que nascem da rigidez e do automatismo. Esses traços se apresentam reunidos na idéia do mecanismo, da qual o filósofo extrai o que considera uma lei geral do humor: As atitudes, os gestos e os movimentos do corpo humano são risíveis na exata medida em que esse corpo nos faz pensar numa simples mecânica. E algumas linhas adiante: "A visão de um mecanismo a funcionar dentro da pessoa é coisa que abre para uma multidão de efeitos engraçados; no mais das vezes, porém, é visão fugaz, que se perde logo em seguida no riso que provoca. É preciso um esforço de análise e reflexão para fixá-la." Para Bergson, a causa do riso, mesmo que não tenhamos consciência disso, é essa inflexão da vida na direção da mecânica: "Porque tenho agora diante de mim um mecanismo que funciona automaticamente. Já não é vida, é automatismo instalado na vida, imitando a vida. É comicidade." E, mais detalhadamente:
A comicidade é esse lado da pessoa pelo qual ela se assemelha a uma coisa, aspecto dos acontecimentos humanos que, em virtude de sua rigidez de um tipo particular, imita o mecanismo puro e simples, o automatismo, enfim o movimento sem a vida. Exprime, portanto, uma imperfeição individual ou coletiva que exige correção imediata. O riso é essa correção. O riso é certo gesto social [sic] que ressalta e reprime [sic] certa distração especial dos homens e dos acontecimentos.
Deixemos estar, por enquanto, a atribuição do riso ao social e façamos de conta que não vimos o autoritário verbo reprimir, que vai contra a essência libertária do riso, se insinuando entre as palavras de Bergson. O que interessa ressaltar é que a dinâmica do riso detecta e aponta, no interior do nosso próprio corpo e de nossa mente mesma, a existência de um mecanismo que nos impede de agir com liberdade, um mecanismo que nos impele a seguir uma programação fixada. Seu funcionamento é análogo ao da sístase e, da mesma forma que esta, rastreando os diferentes níveis de operação do mecanismo, Bergson passará da esfera individual para o campo da sociedade, mostrando que, também aí, ele se encontra plenamente ativo:
Risível será, portanto, uma imagem que nos sugira a idéia de uma sociedade fantasiada e, por assim dizer, de uma mascarada social. Ora, essa idéia se forma logo que percebemos o que há de inerte, de pronto, de confeccionado enfim, na superfície da sociedade viva. É a rigidez outra vez, e que destoa da flexibilidade no interior da vida. O lado cerimonioso da vida social deverá, pois, conter uma comicidade latente, que só precisará de uma oportunidade para vir à luz.
O reconhecimento da mascarada social, o fato de que a vida em sociedade impõe determinados papéis que devemos cumprir mecanicamente, aliás, bastaria para mostrar como é problemática a idéia de que o riso seja um impulso corretivo que nasce da dinâmica social. Porque esta última participa, e de fato decorre, da lógica implacável do mecanismo, de tal forma que, se quisermos encontrar a fonte daquilo que em nós se opõe a ele, será preciso procurar em outro ponto que não o social.
Será, então, na natureza que o encontraremos? Não, porque imediatamente antes de tratar da mecânica social, Bergson já havia encontrado o mecanismo entranhado na própria natureza: "Uma natureza arremedada mecanicamente, esse é então um motivo francamente cômico, sobre o qual a imaginação poderá executar variações com a certeza de obter grande sucesso em matéria de riso." E cita como exemplo Tartarin sur les Alpes, primeiro romance da trilogia Tartaran de Tarascon, de Alphonse Daudet, no qual o protagonista descobre "que a Suíça é movida por maquinismos, como os porões da Ópera, explorada por uma companhia que ali mantém cascatas, geleiras e falsas fendas." Ao se superpor a regulamentação automática da sociedade à imagem de um mecanismo inserido na natureza, chega-se a uma conclusão cujo alcance ontológico o humor não deixou de explorar: "O resultado da combinação será, evidentemente, a idéia da regulamentação humana a substituir as leis da natureza."
É, nem mais, nem menos, a concepção gnóstica da natureza que reencontramos aqui, aquela mesma que também reaparece em filmes como O Show de Truman, de Peter Weir, e livros como Time Out of Joint, de Philip K. Dick, e naturalmente na trilogia Matrix, dos Irmãos Wachowski: a idéia de que o mundo que tomamos como natural é, na verdade, um cenário ou uma representação. E, como ocorre com a sístase gnóstica, o humor, ao menos na interpretação de Bergson, aponta para uma continuidade entre todos os níveis de funcionamento do mecanismo: "Assim, em resumo, o mesmo efeito vai sempre se sutilizando, desde a idéia de mecanização artificial do corpo humano, se assim pudermos nos expressar, até a de uma substituição qualquer do natural pelo artificial."
Trata-se da evolução mesma da sístase, que se implanta no organismo como um sistema de filtros e travas internalizados, os quais agem como filtros cognitivos que coordenam as relações do homem consigo mesmo, com os outros homens e com o mundo, gerando uma falsa realidade que ingenuamente tomamos como sendo a natureza. Mas qual a origem desse sistema? E por que ele veio a se constituir?
Uma zona intermediária. - A resposta de Bergson é dada no último capítulo de O Riso, quando ele abandona temporariamente o assunto do livro para tecer considerações sobre o objetivo da arte em geral. "Se nossos sentidos e nossa consciência fossem diretamente impressionados pela realidade", alega Bergson, "se pudéssemos entrar em comunicação imediata com as coisas e conosco, acredito que a arte seria inútil, ou melhor, que seríamos todos artistas, pois nossa alma vibraria então continuamente em uníssono com a natureza." Se precisamos da arte e dos artistas é precisamente porque isso não acontece: "Tudo isso está em torno de nós, tudo isso está em nós e no entanto nada de tudo isso é percebido por nós distintamente. Entre nós e a natureza - mas que digo -, entre nós e nossa própria consciência, interpõe-se um véu, véu espesso para o comum dos homens, véu leve, quase transparente, para o artista e o poeta."
Desnecessário dizer, esse véu é apenas outro nome para a sístase, cujo mecanismo Bergson vem decifrando ao longo de toda a obra. Inspirado pelo darwinismo, Bergson vai buscar suas causas nas vicissitudes da evolução, e sua hipótese foi a principal influência para a teoria do cérebro como válvula redutora que Aldous Huxley desenvolve em As Portas da Percepção: "Era preciso viver, e a vida exige que apreendamos as coisas na relação que elas têm com nossas necessidades. Viver consiste em agir. Viver é só aceitar dos objetos a impressão útil, para responder-lhes por reações apropriadas: as outras impressões devem obscurecer-se ou só nos chegar confusamente." Eis aí, portanto, a gênese daquela distração fundamental que faz com que o homem caia nos automatismos de percepção e comportamento denunciados pelo humor: "Eu olho e acredito ver, dou ouvidos e acredito ouvir, estudo-me e acredito ler no fundo de meu coração. Mas o que vejo e ouço do mundo exterior é simplesmente o que meus sentidos dele extraem para aclarar minha conduta; o que conheço de mim mesmo é o que aflora à superfície, o que toma parte da ação. Meus sentidos e minha consciência, portanto, só me entregam da realidade uma simplificação prática." A conclusão de Bergson, taxativa e inescapável, é a de que "não vemos as coisas mesmas; limitamo-nos, no mais das vezes, a ler etiquetas coladas sobre elas". Nossa realidade é feita de generalidades e símbolos, "uma zona intermediária entre as coisas e nós", que nos exclui ao mesmo tempo do mundo e de nós mesmos.
Mais importante ainda, essa simplificação prática, essas etiquetas coladas sobre as coisas não são uma criação exclusivamente minha, mas são impostas de fora, pela história, pela cultura e pela sociedade, a partir das quais "são-me traçados de antemão caminhos nos quais minha ação enveredará. Esses caminhos são aqueles pelos quais a humanidade inteira passou antes de mim". Os gnósticos chamavam esses "caminhos traçados de antemão" (e que, diria Heidegger, não conduzem a parte alguma) de heimarmene ou anankê, a fatalidade e a necessidade, que cerceiam a liberdade espontânea do indivíduo e o obrigam a viver de acordo com um destino predefinido, obedecendo a leis sobre as quais ele não tem nenhum controle. E tanto as imutáveis leis da natureza quanto as rígidas normas de conduta social, como o humor já havia intuído, não passam de manifestações locais desse mecanismo mais amplo, que nos aprisiona a todos em suas engrenagens.
É esse, portanto, o quadro contra o qual o riso se insurge, mesmo que (e até principalmente porque) aquele que ri e aquele que faz rir não tenham consciência disso. É um olhar implacável, que atravessa a realidade de um extremo a outro, devassando nossa sujeição ao mecanismo da sístase em todas as esferas da vida e revelando seu ponto de origem naquilo mesmo que consideramos (erroneamente, talvez) como o que temos de mais íntimo: nosso corpo e nosso caráter, nossa postura, enfim, no e diante do mundo.
Bravo!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!
Este foi original pacas...........
=D
Mob.
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Posted by: Kingmob | 10-02-2008 at 23:51