Da necessidade de matar
Não li o livro ainda e só descobri que ele existe graças à capa da Ilustrada de domingo (link só para assinantes). Mas já está na minha lista de compras, porque parece leitura obrigatória, daquelas que derrubam opiniões pré-concebidas, mas desprovidas de lastro concreto, e recolocam as coisas em seu devido contexto. Estou falando de Brincando de Matar Monstros, o livro de Gerard Jones que a Ed. Conrad acaba de lançar (a Conrad tem tantos títulos bons no catálogo que é surpreendente que ela tenha deixado um RAW passar quase em branco). Roteirista veterano, que trabalha como consultor de mídia para o MIT, Jones arremete de encontro à crença solidamente estabelecida pelo senso comum de que desenhos animados e vídeogames violentos são uma influência nociva para a mente das crianças. Muito pelo contrário, argumenta ele que, na entrevista à Folha, declarou: "Uma das funções das histórias é que ajudem as pessoas a entender o que acontece ao redor delas. Você não se sente tão só, se sente reconhecido. Em geral, isso é saudável (...). É um engano achar que uma história ou uma música sempre reforça algo, em muitos casos é só uma maneira de reduzir a ansiedade, dando mais entendimento e controle psicológico sobre a realidade." Pelo que eu entendi da resenha, o principal argumento de Jones é o de que, ao contrário do que pensam os comitês de pedagogos que cada vez mais palpitam na programação da tevê, a violência dos desenhos animados e jogos de computador é, na verdade, uma válvula de escape para os impulsos agressivos que as crianças, como qualquer ser humano, carregam dentro de si.
Na verdade, não é um argumento novo. Boa parte dos capítulos de Psicanálise dos Contos de Fadas, de Bruno Bettelheim, merecidamente um clássico da psicologia infantil, é uma explicação de porque faz bem para as crianças ouvirem histórias em que João e Maria jogam a Bruxa Malvada num caldeirão de óleo fervente. Psicólogos infantis, pedagogos e pais bem-informados conhecem o livro de Bettelheim, e até o admiram. Mas acham que o que vale para Branca de Neve e os Sete Anões não se aplica a Pokemon, e o mérito do livro de Jones é defender o contrário. "Certamente há o fato de conter mais sangue, mais violência explícita do que se considera certo para crianças de certas idades", disse ele na mesma entrevista. "Mas existe também o que chamo no livro de 'ansiedade com os novos meios'. Programas que hoje parecem realmente seguros, como o 'Papa-Léguas', preocuparam também os adultos quando a TV era novidade. Quando crescemos e vemos que já fazem parte da nossa paisagem cultural, não nos preocupamos tanto com os antigos, mas com os novos, que não entendemos."
De fato, um pouco mais da boa e velha cultura clássica e um pouco menos de Dr. Benjamin Spock seriam suficientes para mostrar o quanto essa visão de quadrinhos, comics e games como bode expiatório da violência é tacanha. A premissa da Poética de Aristóteles - que, por sua vez, é um dos esteios da estética ocidental ao longo dos últimos dois mil anos - é a de que as peças de teatro (e, por extensão, todas as formas de arte ou, pelo menos, todas as formas de arte narrativa) servem para fornecer uma representação (mímese) para as tensões emocionais, permitindo, assim, que o espectador descarregue suas tensões psíquicas. É o célebre conceito de catarse (do grego katharsis, purificação). Ao encontrar uma representação simbólica - no palco, numa tela ou numa página de quadrinhos - a tensão é descarregada de forma igualmente simbólica, o que suprime a necessidade de vivenciá-la na vida concreta.
Na verdade, o conceito de catarse permitiria até mesmo vôos especulativos bem mais amplos, uma vez que, de um lado, liga-se aos rituais iniciáticos dos mistérios gregos como os Mistérios de Elêusis e os Mistérios Dionisíacos, que são a fonte do nosso teatro e também eram chamados de katharsis; e, do outro, à psicanálise, já que a catarse forneceu a base do método freudiano conhecido como ab-reação e que consiste em usar a representação simbólica para resgatar os conteúdos reprimidos do inconsciente. O primeiro caminho desembocaria no gnosticismo, que utilizava a katharsis como um instrumento para libertar a centelha espiritual do homem, e não é por nada que uma das últimas seitas gnósticas oficiais se autodenominasse de cátaros (do grego katharoi, "puros", termo cognato de katharsis). O segundo levaria até Jung e à constatação de que o que é ab-reagido por meio da catarse são, em última análise, os arquétipos do inconsciente coletivo.
Tudo isso levaria a ver com outros olhos os processos psíquicos que se desenrolam na cabeça de uma criança diante de um simples desenho animado, e poderíamos até nos perguntar se, adequadamente compreendidos e utilizados, esses processos não poderiam servir a uma finalidade espiritual mais profunda. Mas não é preciso ir tão longe. Basta perceber que nenhuma criança normal vai se tornar um serial killer por gostar de jogar Doom, da mesma forma que gerações de meninos cresceram com a violentíssima história de João e Maria sem sair por aí jogando velhas chatas num caldeirão de óleo fervente. Talvez, pelo contrário, houvesse muito mais psicóticos à solta se o entretenimento não fornecesse válvulas de escape seguras para toda a agressividade que herdamos do animal dentro de nós.
Fala Honesto-Atirador!
Realmente...
Eu sou um daqueles que pode dizer "é, não tive infância". Nunca vi Rei Leão e adorava O Exterminador do Futuro 2 e todos os games violentos que tivessem o máximo possível de tripas.
E hoje me considero mais são por ser mais insano que a média comum e geral. Claro, leia todos os livros de auto-ajuda sobre como criar teu guri, mas só vai sair um belo bos&@ igual a todos que não fede nem cheira (claro, é o mais seguro e o que todo pai quer... prefere que o pentelho não tenha nenhum cheiro a que feder). Aquele que nunca sequer se adimitiu que pode ao mínimo ter um lado esquizofrênico enfiado em algum cantinho de sua cabeça... bem, o que um lado mais mau-humorado e adolescente chamaria de "todos aqueles m%rdas zumbis".
Olha, os moleques de Columbine jogavam Doom, mas já traziam coisas ruins bem antes. Viram Matrix, mas vê coisa ruim quem traz já merda pra dentro do cinema, muito antes da projeção...
Abs.
M.A. Lobato
Posted by: M.A. Lobato | 19-05-2004 at 01:17
Saravá, Lobato!
Tentei responder ontem, mas deu um pau na hora de postar. Vamos lá de novo. Eu brincava de polícia e ladrão, tive uma série de armas de brinquedo (inclusive uma metralhadora), tinha uma coleção de soldadinhos de plástico, super-heróis, guerreiros medievais, adorava brincar com o Falcon e escrevi várias histórias com um agente secreto que era uma versão infantil do James Bond. A julgar pelo que pensam os pedagogos, hoje eu deveria ser um assassino. No entanto, sou pacifista até a medula e acho a morte de outro ser humano em qualquer circunstância absolutamente injustificável. Bem, não absolutamente... Talvez em casos como Bush, Maluf ou os Fernandinhos Beira-Mar, eu cumprimentasse o autor do disparo - mas isso não seria assassinato, seria um ato de misericórdia para a humanidade. ;-))))
Sobre os livros de auto-ajuda para pais preocupados, você vai ver que eles seguem modas cíclicas, que oscilam entre os pólos da liberdade e autoridade, e isso só reflete o fato de que ninguém sabe exatamente onde se situar na questão. Você só pode ter certeza de uma coisa: não importa que tipo de pai você seja, liberal, autoritário, conservador, pra frente, você vai errar. Faz parte da condição paterna (e materna). De fato, faz parte da condição humana. E errar é tão importante para o aprendizado (dos adultos e das crianças) quanto fazer a coisa certa. Tirando o (ótimo) ronmance do George Pérec, não existe nenhum livro do tipo Vida - Modo de Usar. A gente vai improvisando com o que tem à mão, e de vez em quando até acerta. ;-)
Abs.
L.
Posted by: Malprg | 19-05-2004 at 12:51
Tom e Jerry na Tv e Doom no micro...
"Polícia e ladrão" é pouco: "mamãe tô na rua" era "pura porradaria"...assim como o nome já indica, a famosa brincadeira "porradobol"
"Queimado", "paint ball", "bate-bate no Tivoli-park...
Bom, é claro que há a questão da idade e da dose das brincadeiras...nada como um pouco de Judô ou algo que valha para acalmar um pouco os ânimos...
Depois de uma certa idade nada como umas "pegações" num canto isolado das festinhas...
se bem que isso já vem desde o "salada de frutas"...
bom, realmente Doom é demais...mas duas equipes atirando sacos dágua uma na outra e encharcando todo o playground para depois brincar de ski aquático com chinelos havaianas é , no mínimo, tão bom quanto... bom mesmo é fazer os dois: olhar para o vizinho moleque que nem você, ou para a menina apavorada e gritar: morra demônio do inferno!
Agora jogo violento mesmo é "bafo-bafo", não tinha uma vez em que quando eu ganhava todas as cartas do(s) oponente(s) não saisse uma briga....
Posted by: hammadi | 19-05-2004 at 14:24
encontrei esse site que fala sobre porradobol tbm..mto bom
botecodotiosam.blogspot.com
entre ai!!!
Posted by: julio | 17-05-2007 at 17:40