A doença política
Marx dizia que ser apolítico já é uma posição política, e eu concordo. Mas Marx dizia isso com uma intenção crítica, e eu discordo. Minha posição política é ser apolítico. Quando proferiu essa frase, que a esquerdalha sempre teve na ponta da língua, a intenção do velho diabo era levar o ouvinte a crer que ou você estava com os comunistas ou era um lacaio servil e abjeto do capitalismo. O desenrolar da história mostrou que a diferença entre os dois lados não era assim tão grande quanto uns e outros supunham, uma constatação da qual a recente egotrip etílica do outrora ídolo-mor da esquerda brasileira não passa de uma confirmação desnecessária. Esquerda e direita são duas formas de se posicionar dentro do sistema, mas é dentro do sistema que ambas se posicionam. Este haure suas forças da existência de classes em conflito, quaisquer que sejam elas; de haver exploradores e explorados, não importa quem explora quem; de uma hierarquia, e a composição específica dos níveis hierárquicos é olimpicamente indiferente. Hegemonia capitalista ou ditadura do proletariado, do ponto de vista do sistema dá tudo no mesmo. Ele continua vivo e atuante, contanto que haja um pólo positivo e outro negativo para gerar energia, como em qualquer pilha Duracel. Da mesma forma que uma usina hidrelétrica, é preciso apenas que alguém esteja por cima e outro alguém esteja por baixo. E é a esse desnível - estrutural, necessário, fundamental para o sistema - que chamamos de política. Logo, sou apolítico. Por convicção.
Isso não significa, porém, que eu seja alienado politicamente. Pelo contrário, acompanho a política, e a história da política, com um olho c(l)ínico. A política é a doença mais antiga da humanidade, uma verdadeira endemia, espalhada por onde quer que o animal humano se encontre. E não se trata de uma figura de linguagem. A política é uma doença e, como as moléstias mais infecciosas, é propagada por vírus que contraímos logo ao nascer, talvez até mesmo antes (e deixo ao arbítrio do leitor decidir se estou falando de reencarnação ou das pesquisas de David Boadella sobre como a couraça do caráter começa a se formar quando o bebê ainda está no útero materno, ou de ambas as coisas). A diferença é que os vírus da política não são microorganismos materiais, mas memes, padrões cognitivos que absorvemos da sociedade à medida que a sociedade vai moldando nossas percepções e personalidades, e que se entranham na estrutura de nosso cérebro de modo tão completo que passam a filtrar qualquer contato que possamos ter com a realidade. É impossível dizer exatamente quais e quantos são esses memes, mas os principais equivalem às categorias apriorísticas do conhecimento de Kant, que se apresentam sob a forma de pares: tempo/espaço, causa/efeito, sujeito/objeto. É nesta última dicotomia que devemos buscar a origem da exploração do homem pelo homem e dessa estranha distorção psíquica que vem a ser a política, uma distorção tão profunda que já nem nos parece uma distorção, mas a condição natural da humanidade. Nas palavras mal-traduzidas de Aristóteles, para nós o homem é um animal político. Não é. Tornou-se. E é preciso compreender como ele veio a se tornar isso para que possamos curá-lo. Para que possamos nos curar.
Místicos de todas as latitudes e longitudes sempre insistiram na união subjacente a todas as coisas, no fato de que nossa percepção da realidade como um universo composto de fragmentos individuais, interdependentes mas separados uns dos outros, é uma ilusão. A mecânica quântica redescobriu essa verdade com o efeito-EPR e o princípio de conexões não-locais. Místicos de todas as longitudes e latitudes sempre insistiram que o eu pessoal é uma ilusão. As neurociências redescobriram essa verdade com a constatação de que o sentimento de um eu pessoal é um efeito de perspectiva que surge apenas ao final do processo cognitivo, como a cereja egoística que arremata o bolo. Immanuel Kant, que não era místico, físico ou neurocientista, mas filósofo, já havia cantado essa bola no século XVIII: sujeito e objeto não são características das coisas-em-si, mas categorias (arbitrárias, como o pós-estruturalismo veio a salientar mais tarde, já no século XX) que a mente usa para estruturar nossas percepções. Em outras palavras, eu percebo a mim mesmo como um sujeito separado de todas as outras coisas e pessoas do universo, que automaticamente passam a ser vistos por mim como objetos da minha percepção. Objetos com os quais eu devo interagir, mas também objetos que eu posso manipular para meus próprios fins e que, do meu ponto-de-vista torto, existem apenas para serem usados por mim. A "natureza" torna-se uma coleção de recursos "naturais" e o outro, as outras pessoas, é instrumentalizado, transforma-se em uma força de trabalho que eu devo colocar sob o meu comando, se não quiser ser comandado. As complexas relações de poder que compõem a arena política, a estrutura hierárquica da sociedade, o sexismo e o racismo, toda forma de poder (é uma forma de morrer por nada), enfim, todas as mazelas da condição humana emergem espontaneamente dessa separação arbitrária - e patológica - entre sujeito e objeto. "Amar a Deus em todas as coisas e ao próximo como a ti mesmo", recomendava o bom e velho JC, e com razão: se eu percebo meu próximo como sendo eu mesmo, se tenho consciência de que eu e ele somos partes do mesmo todo, não sou capaz de explorá-lo, não posso me ver como superior a ele, estamos todos em pé de igualdade, e igualdade e domínio são mutuamente exclusivos. E se eu vejo Deus em todas as coisas, inclusive em mim mesmo, é óbvio que essas coisas não existem apenas como meios para que eu possa alcançar meus objetivos egoístas.
Em resumo, é a dicotomia sujeito/objeto que torna a política possível. E essa dicotomia - que, como Piaget mostrou, não existe nas crianças antes do terceiro ou quarto ano de idade - se propaga em nossos corações e mentes como um vírus infeccioso. Por esse motivo, acompanho a política com todo o interesse do mundo - o interesse de um epidemiologista que acompanha a evolução de uma doença na esperança de erradicá-la. Todas as manifestações políticas não passam de sintomas, maiores (as cagadas globais e globalizantes de Bush Jr.) ou menores (os surtos totalitários do Barbudo do Planalto) dessa doença. Mas se a doença é política, sua cura não é. E assim, como todo bom anarquista, sou apolítico. Mas, ao contrário dos anarquistas clássicos, não acredito que basta mudar as estruturas econômico-sociais para erradicar a moléstia política. O buraco é mais embaixo e mais fundo. Passa por uma transformação radical de nossa própria psique, e pela redefinição de tudo o que fomos adestrados a considerar como naturalmente humano.
Amiúde, irretocável o texto acima. Apenas gostaria de dizer que seguir o ensinmento de Jesus Cristo, vendo no próximo a nós mesmo, não é apenas ato de caridade e benevolência, mas sobretudo questão de sobrevivência do indivíduo, enquanto ser e espécie.
Valeu.
Posted by: Fábio | 07-10-2005 at 10:14
Além de o mundo de sofia, o que mais vc leu de filosofia?
Posted by: Zé | 27-06-2008 at 15:32
Ave, Lúcio!
Será que essa doença tem cura? Difícil hoje em dia alguem dizer que sim. Eu sou um pouco cético tanto em relacao a dizer que sim ou que nao.
Se olharmos um pouco pra trás, sociedades anarquistas foram poucas. Até onde eu sei, um exemplo disso seria os georgiói na Grécia antes do surgimento das pólis. Mas (me avise se souber de outra) só na Grécia. No Egito já tinha governo até antes do reino dos farós, quando havia os nomarcas.
Hoje em dia é muito comum dizer que anarquismo nao existiu ( o que nao é exatamente uma verdade) e nunca vai existir ( o que pode ser verdade, mas nao abraço isso). Porque nós estamos sujeitos a paradigmas do tempo em que vivemos. Hoje se diz que o melhor que existe é sociedade democrática e economia de mercado e nunca vai existir algo melhor que isso. Já se pensou antes que o melhor que existia era o feudalismo e a servidão e também nunca haveria algo melhor. Depois a melhor coisa era a monarquia absolutista e nunca ia haver algo melhor. Chegar na época do absolutismo e falar em sufrágio universal, democracia, regime presidencialista constitucional antes do iluminismo será uma coisa vista como tao absurda e utópica como hoje se falar em anarquismo. Por isso mesmo eu nao conseguiria falar que anarquismo é utopia. Pode ser para hoje, mas mudando o pensamento do homem, muda o sistema inevitavelmente.
Agora, acho que a política nao é a doença mais antiga do homem, é uma delas. Algo que considero tão ruim quanto, ou pior, é o dinheiro. Nem entro no aspecto do pobre coitado que tem que fazer malabarismos como laranjas ou se vestir de estátua no semáfaro pra ganhar uns trocos porque sem dinheiro você morre de fome, tendo que se submeter a condicoes desumanas e mostrando que essa historia de quem nao tem dinheiro nao tem por ser vagabundo ou nao "batalhou" o bastante nao é bem assim ( algo que, se houvesse uma conscientização de que isso é absurdo, tambem acabaria) mas na questao moral.
Adam Smith disse que a economia se construiria com aspirações individuais que acabariam contribuindo para a coletividade. Aristóteles disse que o homem na pólis atinigiria a felicidade ao pensar no bem comum. Hoje vigora a ética de Adam Smith. É claro que temos que ter uma atividade profissional pro mundo funcionar, mas se surgisse o homem que buscasse fazer aquilo que gosta com esse objetivo de pensar no todo, as coisas funcionariam normalmente e, sem ninguem cobrar pelo que faz, logo ninguem ia precisar ter dinheiro. Teríamos um mundo moralmente correto, em que nao uma pessoa nao seria privada de algo que ela precisa por nao ter como pagar. Por isso o mercado é desumano: ele poe o dinheiro acima de uma relacao de ser humano pra ser humano e acabamos nao fazendo um serviço ou ofertando um bem para servir aos nossos semelhantes, mas sim para pegar o dinheiro deles. E nenhum de nós pode escapar disso. Acabamos sendo forçados a colocar relacoes economicas alem das relacaos humanas.
Não é só injusto e desumano, acaba sendo amoral. Sei que nao sao todos que fazem isso e muitas pessoas fazem seu trabalho porque gostam e nem ligam muito pra pagamento, mas se essa mentalidade tambem fosse predominante esse sistema seria resolvido.
É uma auto-alimentacao do estado de sístase: a necessidade que o mercado impoe de ganhar dinheiro é um prato cheio para esquecer da liberacao. O adulto acaba se distriando com o trabalho da mesma forma que uma criança se distrai com um brinquedo novo. Essa necessidade do dinheiro para sobreviver foi gerada pelo estado de sístase ainda o fortalece, num círculo vicioso.
Bom, chega de te cansar com esse papo, mas aí, o que acha? Tem saída? :)
Posted by: Filipe Wels | 26-09-2008 at 09:33
Na minha modesta opinião, nós só podemos procurar a saída individual: o caminho é para dentro e não para fora. Querer mudar o mundo exterior me parece um boa desculpa para não encarar a nossa baderna interna. Eu, sinceramente, tenho preferido nem observar esse jogo. Ou melhor, até observo, mas procurando não me envolver emocionalmente. É triste o ódio que essa atitude desperta nas pessoas. Parece feio, imoral, não tomar partido.
Posted by: Andréia | 26-09-2008 at 16:55