Vídeocassetada
O que é uma videocassetada?
Uma câmera na mão e o acaso substituindo a proverbial idéia na cabeça definem a estética dessa modalidade espontânea de vídeo-arte. E é preciso que seja espontânea: sabe-se da reação negativa do público diante do que se apresenta como um vídeo "armado". Mais que espontânea, até, exige-se que seja surpreendente, inesperada. Trata-se da ruptura de uma ordem quotidiana. São situações do dia-a-dia, ou ocasiões especiais, mas que balizam o ritmo da vida, aniversários, casamentos, festas, momentos que a câmera visa eternizar para que seus participantes, transformados em espectadores de si mesmos, possam passá-las e repassá-las ad nauseam. A câmera-olho infiltra-se no fluxo contínuo dos acontecimentos e seleciona instantes descontínuos, aos quais salvará transformando-os em mônadas temporais, quadros isolados e independentes que, em sua independência e isolamento, aspiram refletir a totalidade da vida.
A câmera, adverte-nos Walter Benjamin, instaura uma espécie de inconsciente ótico que se revela nas imagens de modo análogo à revelação do inconsciente psíquico através dos atos falhos. Assim, as imagens vêem mais do que o coração sabe, Blake dizia-o já antes do cinema e do vídeo. Concentrando o sentido da vida - aquele mesmo do grupo Monthy Python - em partículas de tempo atemporais, fragmentos de eternidade isolados de seu contexto, a câmera abre passagem ao ridículo no seio do formal, e ao caos em meio à ordem. É a madrinha de casamento que escorrega descendo do altar, a modelo que cai ao desfilar; a mesa do bolo de aniversário que desaba, o exibicionista da piscina que perde a sunga na água. Engraçado, cômico, o sentido que se revela é o próprio non-sense. A imagem do homem que as lentes da câmara capturam é a de um ser patético, grotesco, inexoravelmente submetido à lei de Murphy e sempre burlado em suas tentativas de dominar o acaso, vencido por circunstâncias inesperadas, confusamente arrastado por acontecimentos que continuamente lhe escapam ao controle. Num primeiro momento, o que a videocassetada faz é reafirmar a crença num destino exterior ao homem, que não obedece a qualquer sabedoria transcendente, mas recai sobre vítimas escolhidas ao acaso. Mas há mais, ainda.
Por que nos rimos do velho que cai, da senhora que rasga o vestido ou do menino que bate a cara contra o muro? Ao responder, não nos apressemos, tratemos de deixar a América para Colombo e a pólvora com os chineses. Apelar para o sadismo do telespectador, se verdadeiro ou pelo menos verossímil, é, no entanto, por demais óbvio. Por outro lado, o embaraço e o sofrimento, próprios e alheios, ao se transubstanciarem em vídeocassetadas, submetem-se a uma certa estetização, é verdade que mínima, mas inevitavelmente imposta pela simples presença da câmera. Esta desrealiza o infausto acontecimento, ficcionaliza-o. Ao agir assim, transforma-o em algo passível de domínio, e isso duplamente. Porque estruturado por um certo enquadramento e perspectiva, e porque convertido em uma série de imagens que, com o dedo no controle, posso congelar, avançar ou mesmo fazer retroceder, invertendo sua causalidade, como naquela antiga propaganda de um vídeocassete em que Chico Anysio falava em rodar a vida ao contrário, da velhice ao nascimento, do último ao primeiro homem. Além disso, por expô-lo aos olhos do público, transformo-o em espetáulo, e o espetáculo é sempre um simulacro de acontecimento, ainda que seja um registro fiel do próprio acontecimento: não há show da vida, mas a vídeocassetada transforma a vida em show, livrando-nos de sua imprevisbilidade. Não por negar a imprevisibilidade, mas superando-a de modo quase hegeliano, absorvendo o acaso numa ordem mais elevada, que é a do espetáculo.
Uau...
Até cinco minutos atrás era só uma questão de ver o João Kleber rindo no fundo sonoro enquanto alguém se ferrava...
Belo. Muito belo.
Abraço!
M.A. Lobato
Posted by: M.A. Lobato | 08-04-2004 at 10:31
Para Lúcio Manfred:
Ultimamente em seu blog você tem falado de alguns cientistas, me parece entre os seus favoritos estão Schrondinger, Bhor, Capra, dentre outros.
Sir Isaac Newton foi um homem que estudou mais alquimia e teologia do que qualquer outro em sua época ( e posteriormente foi criticado por Laprace, pois o Deus de Newton, tinha que intervir concertando coisas aqui e acolá no universo, dado que nas equações de Newton um sistema gravitacional a mais de dois corpos, é caótico; mas Newton não conhecia o conceito de caos em seu tempo ), e possivelmente, até depois de sua época, já que Newton era um obcecado – e bota obcecado nisso!
Não acha que tão venerável místico-cientista mereceria um post em seu blog? E por falar em místico-cientista, também tem Johannes Kepler.
Posted by: Francisco Maximiano da Silva | 12-04-2004 at 09:48
Salve, Francisco!
Não se trata de falar dos meus cientistas favoritos, ou dos que mereceriam um post. O que eu venho fazendo no Franco-Atirador há já algum tempo é refletir sobre as possíveis analogias e conexões entre a mecânica quântica, o esoterismo e o misticismo. Daí a preferência dada a Bohr, Heisenberg, Schrödinger e Wolfgang Pauli, que não só são os pais da mecânica quântica, mas também os primeiros a explorar essas possíveis conexões.
Abs.
L.
Posted by: Malprg | 12-04-2004 at 12:07
Saravá, Lobato!
É que com o João Kleber e assemelhados, nós saímos do terreno das vídeocassetadas e entramos no das pegadinhas - e aqui a coisa fica um pouco mais perversa, porque não se trata mais de captar um acontecimento aleatório que perturba a ordem habitual, mas pelo contrário, armar deliberadamente uma situação que expõe a vítima ao ridículo. Mas não quero me adiantar, porque pretendo escrever um post exatamente sobre essa diferença.
Abs.
L.
Posted by: Malprg | 12-04-2004 at 12:11