O Samba do Físico Doido
"Charlatães?", pergunta a capa da revista, em letras garrafais de um verde fosforescente. E logo embaixo tasca: "Correntes esotéricas abusam de conceitos da física e da biologia para justificar fenômenos que nada têm a ver com a pesquisa científica." A revista em questão é a Galileu deste mês, que resolveu investir pesado contra o que considera uma apropriação indébita da ciência por parte do esoterismo, do pensamento holístico e, sobretudo, das terapias alternativas, que são o grande alvo não declarado da reportagem. Mas, se as terapias alternativas são o grande alvo, a principal vedete e o cavalo-de-batalha mor da questão é a mecânica quântica. Não por acaso. Desde sua origem, como meus Vinte Fiéis Leitores já sabem, algumas interpretações da mecânica quântica têm colocado em xeque os principais pilares sobre os quais se apóia a ciência ocidental, sobretudo o materialismo e o pressuposto realista, isto é, a crença (indemonstrável, e tomada pelos cientistas como axiomática) de que existe uma realidade independente da percepção que temos dela. Mais ainda, essas interpretações apresentam uma semelhança mais do que notável com idéias e visões de mundo que vêm sendo defendidas por aqueles que, desde o século XVIII, a ciência aprendeu a ver como seus inimigos figadais: as religiões e o ocultismo. Nada mais natural, portanto, que os defensores da ideologia cientificista ficassem irritados quando esse pessoal resolveu aceitar o mote proposto por Niels Bohr, Wolfgang Pauli e outros pais da mecânica quântica (e popularizado por Fritjof Capra em O Tao da Física), utilizando os conceitos da mecânica quântica para pensar questões religiosas e metafísicas. Por mais que seja compreensível, porém, é uma reação passional - e, como pretendo mostrar, preconceituosa.
Seguindo o que ensina o manual de redação de qualquer jornal moderno, o autor da reportagem, Pablo Nogueira, ouviu ambas as partes no debate, e cita declarações tanto dos físicos que condenam a alegada apropriação indébita quanto de alguns autores que teriam incorrido nesse suposto crime. Também cita terapeutas holísticos que são contrários a essa mistura de ciência e pensamento alternativo. Mas, em momento algum, menciona nenhum cientista que seja favorável a essa aproximação.
A impressão que temos ao ler a matéria é a de que esses cientistas não existem, e de que a ciência em peso condena qualquer tentativa de pensar o esoterismo e as religiões à luz da mecânica quântica ou vice-versa, endossando as palavras da física Maria Cristina Batoni Abdalla, entrevistada pela revista: "São abusos. Misturam linguagens criadas para explicar coisas totalmente diferentes. É como tentar usar taquigrafia para fazer cálculo integral: não faz sentido." Ora, qualquer pessoa que tenha lido pelo menos O Tao da Física - considerado o principal culpado por essa tendência, como se ela tivesse nascido de uma extravagância do autor - sabe que os primeiros a apontar as intrigantes semelhanças entre os conceitos da mecânica quântica foram os próprios físicos. E não físicos quaisquer, mas as mesmas mentes que desenvolveram essa teoria.
Um refinamento da velha sabedoria. - Não foi por acaso que Niels Bohr (um dos primeiros,![]()
aliás, a também sugerir que o funcionamento da mente só poderia ser inteiramente compreendido com o uso da mecânica quântica) escolheu para seu brasão o símbolo taoísta do yin-yang. "Se buscarmos um paralelo para a lição da teoria atômica [...]", declarou Bohr, devemos nos voltar "para aqueles tipos de problemas epistemológicos com os quais já se defrontaram, no passado, pensadores como Buda e Lao Tsé, em sua tentativa de harmonizar nossa posição como espectadores e atores no grande drama da existência."
O pupilo dileto de Bohr, Werner Heisenberg, criador do célebre princípio da incerteza, era da mesma opinião: "A grande contribuição científica em termos de Física teórica que nos chega do Japão desde a última guerra pode ser um indício de uma certa relação entre as idéias filosóficas presentes na tradição do Extremo Oriente e a substância filosófica da teoria quântica." E Robert Oppenheimer, o pai da bomba atômica, foi ainda mais taxativo:
"As noções gerais acerca da compreensão humana [...] ilustradas pelas descobertas da Física atômica estão longe de constituir algo inteiramente desconhecido, inédito, novo. Essas noções possuem uma história em nossa própria cultura, desfrutando de uma posição mais destacada e central no pensamento budista ou hindu. Aquilo com que nos deparamos não passa de uma exemplificação, de um encorajamento e de um refinamento da velha sabedoria."
Sine ira et studio. - Se isso não é o bastante para convencer o leitor de Galileu de que nem todos os cientistas concordariam com a afirmação de Maria Cristina Abdalla de que religião e física são "coisas totalmente diferentes", talvez Erwin Schrödinger o faça mudar de idéia. Lembremos que, sem Schrödinger, a mecânica quântica simplesmente não existiria, pelo menos não como é hoje. Foi ele quem desenvolveu a equação de onda que se encontra no coração matemático da teoria quântica. Todas as interpretações variantes da mecânica quântica são tentativas de traduzir a equação de onda de Schrödinger no contexto de uma teoria mais ampla.
Pois bem, em 1944, Schrödinger escreveu um livrinho chamado O Que é A Vida?, qualificado por Roger Penrose como um dos "mais influentes escritos científicos deste século". Nessa obra, em pouco mais de cem páginas cujo alcance é desproporcional ao tamanho, Schrödinger desenvolve uma meditação sobre a possibilidade de que a mecânica quântica pudesse ajudar a compreender alguns dos problemas da biologia relativos à natureza da vida. E conclui com um epílogo que não deixa a menor dúvida de que, para ele, a aproximação entre ciência e religião pode ser tudo menos espúria. Diante de afirmações peremptórias como a do "físico e filósofo Osvaldo Pessoa Jr., da USP", para quem o "esforço para associar a física ao misticismo (...) não tem base científica", vale a pena olhar o epílogo de Schrödinger mais de perto:
Como recompensa pelos grandes embaraços que tive ao expor o aspecto puramente científico do nosso problema sine ira et studio, permitam-me que manifeste, agora, o meu próprio ponto de vista, necessariamente subjetivo, quanto às implicações filosóficas.
De acordo com as evidências expostas nas páginas anteriores, os fenômenos do espaço-tempo de um organismo vivo, correspondentes à atividade de sua mente, a sua autoconsciência e a suas outras ações (considerando também sua estrutura complexa e a explicação estatística aceita da físico-química) são, se não estritamente determinísticos, pelo menos estatístico-determinísticos. Para o físico, desejo enfatizar que, em minha opinião, e contrariamente à opinião mantida em alguns setores, a indeterminação quântica não tem neles qualquer papel biológicamente relevante, exceto talvez por sublinhar seu caráter puramente acidental em eventos tais como a meiose, a mutação natural e a mutação induzida por raios X etc. - sendo isso, de qualquer modo, óbvio e bem reconhecido.
Para fins de argumentação, permitam-me considerar esse aspecto como um fato, como acredito que qualquer biólogo sem preconceitos o faria se não existisse a desagradável e bem conhecida sensação de 'declarar-se a si próprio como puro mecanismo'. Pois isto está fadado a contradizer o Livre-Arbítrio tal como ele se encontra garantido pela introspecção direta.
A única inferência possível. - Até aqui, Schrödinger parece estar se movendo nas águas seguras do cientificismo e, de fato, sua convicção sobre a natureza determinística da vida provavelmente chocariam os defensores do pensamento holístico e os adeptos do movimento new age. Na verdade, em tempos do atual determinismo genético, poucos biólogos deixariam de endossar as afirmações de Schrödinger. O mesmo, entretanto, não pode ser dito das conclusões que ele extrai dessas premissas:
Mas experiências imediatas, em si mesmas, quão numerosas e diferentes sejam, são logicamente incapazes de se contradizerem mutuamente. Assim, vejamos se não somos capazes de extrair a conclusão correta, não-contraditória, das duas premissas seguintes:
(i) Meu corpo funciona como um puro mecanismo, de acordo com as Leis da natureza.
(ii) Ainda assim, sei por experiência direta e incontestável, que comando seus movimentos, dos quais prevejo os efeitos, que podem ser decisivos e extremamente importantes, em cujo caso sinto e assumo por eles total responsabilidade.
A única inferência possível a partir destes dois fatos, imagino, é que eu - eu no sentido mais amplo da palavra, ou seja, toda mente consciente que jamais disse ou sentiu "eu" - sou a pessoa, se é que existe alguma, que controla "o movimento dos átomos", de acordo com as Leis da Natureza.
Deus factus sum. - Aqui, começamos a nos afastar claramente da ideologia cientificista e nos aproximamos da seara dos místicos:
No âmbito de um determinado ambiente cultural (Kulturkreis) em que certos conceitos (que já tiveram ou ainda têm um significado mais amplo entre outros povos) foram limitados ou especializados, é ousado dar a essa conclusão a palavra simples que ela requer. Na terminologia cristã, dizer "Logo, eu sou o Deus Todo-Poderoso" parece tanto blasfemo quanto lunático. Mas, por favor, abstraiam por ora essas conotações e considerem se a inferência acima não é o mais próximo que um biólogo pode chegar para provar, de uma só vez, a existência de Deus e da imortalidade.
Pronto, está aí, dito com todas as letras. Schrödinger parte da mecânica quântica aplicada à biologia para chegar a Deus. Não, claro, do velho barbudo sentado numa nuvem com que sonham os fundamentalistas, mas de Deus tal como o concebiam os místicos orientais e ocidentais:
Em si, a idéia não é nova. Os registros mais antigos datam, até onde sei, de 2.500 anos atrás. Desde os primitivos grandes Upanixades, no pensamento indiano, a identificação de ATHMAN = BRAHMAN (o eu pessoal iguala-se ao eu eterno, e onipresente e onisciente), longe de constituir uma blasfêmia, representava a quintessência da mais profunda intuição quanto aos acontecimentos do mundo. O maior empenho de todos os estudiosos da escola Vedanta era, após o aprendizado dos movimentos dos lábios para a pronúncia correta, realmente assimilar em suas mentes este pensamento, o mais grandioso de todos.
De novo, os místicos de muitos séculos, independentemente, mas em perfeita harmonia uns com os outros (algo como ocorre com as partículas de um gás ideal) descreveram, cada um deles, a experiência única de sua vida em termos que podem ser resumidos na expressão DEUS FACTUS SUM (Tornei-me Deus).
Pouco importa se Schrödinger estava ou não certo em suas idéias sobre a contribuição da mecânica quântica à biologia ou a respeito da questão espinhosa do determinismo x livre-arbítrio. O que interessa no contexto é que ele não via nada de errado em, para citar a chamada de capa da Galileu, usar "conceitos da física e da biologia para justificar fenômenos que nada têm a ver com a pesquisa científica". Eu me pergunto se, no entender da profª Abdalla, Schrödinger (Erwin Schrödinger, lembremos, e não o terapeuta holístico da esquina) também estaria tentando usar taquigrafia para fazer cálculo integral...
Samba do crioulo quântico. - É claro que vai um universo de distância entre as especulações de um Schrödinger e os exemplos selecionados por Pablo Nogueira para a matéria da Galileu, como o da aluna que procurou o físico George Matsas, da Unesp: "Ela propôs a seguinte questão: se a teoria da relatividade diz que tudo é relativo e a mecânica quântica garante que tudo é incerto, como conciliar as duas coisas para explicar o poder de cura dos cristais?" A própria escolha dos exemplos, no entanto, é tendenciosa, feita para dar a impressão de que todas as tentativas de aproximar ciência e misticismo situam-se nesse patamar que mistura ingenuidade e desinformação. Não se situam.
Quem vem acompanhando o Franco-Atirador há já algum tempo estará certamente familiarizado com nomes como Amit Goswami e Shimon Malin. O primeiro, que esteve recentemente no Brasil, é professor titular de física quântica no Instituto de Física Teórica da Universidade de Oregon e há anos vem tentando desenvolver uma base epistemológica consistente para a mecânica quântica a partir de nada menos que o idealismo monista das religiões orientais. O segundo, especialista em mecânica quântica, teoria da relatividade geral e cosmologia, é professor de física na Colgate University e, em seu livro Nature Loves to Hide, mostra a convergência entre a mecânica quântica e a filosofia neoplatônica, especialmente a de Plotino. Pois bem, que está familiarizado com a história da filosofia ocidental sabe que o neoplatonismo é uma interpretação assumidamente religiosa do pensamento platônico e, de fato, uma das fontes da magia ocidental, na medida em que os métodos desenvolvidos por Jâmblico para obter uma experiência direta dos deuses foram incorporados aos rituais da magia cerimonial - ou seja, o tipo de coisa que deixaria espumando de raiva os êmulos de Carl Sagan entrevistados pela Galileu.
Contudo, mesmo os exemplos caricatos que, da forma como são mostrados na revista, parecem ser um verdadeiro samba do crioulo quântico, estão longe de constituir a pedra de escândalo que pensam os cultores da ideologia cientificista. "Alguns exemplos dignos de menção", escreve Nogueira, "são o uso da teoria das supercordas para explicar o símbolo cabalístico da árvore da vida, a afirmação de que os buracos negros são a porta de entrada para o plano espiritual da umbanda e a sugestão de que o DNA seria capaz de 'registrar' a Aids e assim a doença poderia ser transmitida às gerações futuras por essa via. De longe, porém, a idéia científica mais 'adaptada' é a mecânica quântica, que já foi evocada para explicar, entre muitos outros, até a astrologia, o tarô e o Tao."
Note-se que, para quem advoga a precisão do método científico, o autor da matéria mostra, nesse parágrafo, uma tendência flagrante para misturar alhos com bugalhos, já que coloca, no mesmo balaio de gatos, reflexões filosóficas (as analogias entre a mecânica quântica e o Tao ou as semelhanças entre a Árvore da Vida cabalística e a teoria das supercordas), hipóteses explicativas (as tentativas de explicar a astrologia e o tarô pela mecânica quântica) e exemplos de desinformação pura e simples (o DNA que registra a AIDS). Poderíamos atribuir essa falta de discriminação a uma falha metodológica do autor, se não houvesse a suspeita mais grave de que se trata de um artifício de retórica destinado a manipular a reação do leitor: ao colocar interpretações não-ortodoxas lado a lado com uma leitura errônea do conhecimento científico, o absurdo desta última "contamina" as outras, como se elas fossem igualmente errôneas. A questão que se coloca é: se as "apropriações" da ciência pelo esoterismo são realmente indevidas, qual a necessidade de recorrer a uma falácia retórica? Talvez porque, sem a ajuda dos sofismas, essas apropriações não pareçam mais tão indevidas assim...
Conexões sincronísticas. - Vamos deixar de lado o exemplo do DNA, primeiro porque repousa em um erro factual grosseiro e segundo porque eu não estou aqui pra defender o determinismo genético, que virou quase um paradigma dominante na biologia - o que só mostra que os cientistas também, como os leigos, são capazes de se agarrar a idéias não provadas para justificar suas próprias crenças. Fiquemos com os outros exemplos que, diferentemente do DNA capaz de registrar a AIDS, não se baseiam em erros de interpretação - quando muito, pode-se dizer que repousam sobre hipóteses não-comprovadas (e talvez não-comprováveis).
Já vimos que a aproximação entre a mecânica quântica e os conceitos da religião oriental, como o taoísmo e o budismo, não partiu de nenhum adepto maluco do movimento new age, mas dos físicos que criaram e desenvolveram a mecânica quântica na primeira metade do século XX. Da mesma forma, quem primeiro percebeu que a mecânica quântica fornecia uma moldura epistemológica adequada para se compreender técnicas divinatórias como a astrologia e o tarô não foi um astrólogo desesperado em busca de legitimação científica para sua profissão ou um tarólogo querendo impressionar os clientes para arrancar dinheiro deles. Foram um psiquiatra suíço e um físico austríaco, dois gigantes em seus respectivos campos de pesquisa: Carl Gustav Jung e Wolfgang Pauli.
Ao longo de uma correspondência de mais de vinte anos com Pauli, Jung desenvolveu um modelo teórico para explicar relações não-causais entre eventos físicos e psíquicos, ao qual denominou de sincronicidade e que ele relacionou à indeterminação quântica. Diga-se de passagem, desenvolvimentos posteriores da mecânica quântica a respeito das conexões não-locais, como o teorema de Bell e a experiência de Aspect, só vieram ratificar a posição de Jung. Pois bem, depois de expor a hipótese da sincronicidade, Jung mostra sua possível aplicação em diferentes áreas que vão da psicologia à biologia e a à física, passando pela parapsicologia. Nesse percurso, apresenta um elaborado modelo teórico para mostrar como a sincronicidade pode fornecer uma explicação razoável para "a Astrologia e os vários métodos intuitivos de interpretação dos acontecimentos causais" (o I Ching, o tarô, etc.). Depois de uma detalhada análise estatística dos dados astrológicos, Jung conclui que "podemos considerar o que aconteceu em nosso caso como sendo uma conexão sincronística: isto é, o material estatístico mostra que ocorreu uma combinação causal, não só praticamente como teoricamente improvável, que coincide de modo notável com as expectativas astrológicas tradicionais" (os grifos são de Jung).
As supercordas e o Nome de Deus. - A comparação entre as supercordas e a Árvore da Vida, por sua vez, baseia-se em uma forma de raciocínio que não tem muita utilidade para a ciência (a não ser, talvez, como fonte de inspiração inicial para a elaboração de hipóteses), mas que é o coração do pensamento mítico-religioso: o raciocínio analógico. As diferentes formulações da teoria das supercordas prevêem um número variável de dimensões extra, além das quatro dimensões tradicionais do contínuo espaço-tempo. De acordo com algumas versões, o número total de dimensões do universo seria dez, que é o mesmo número de sephiroth da Árvore da Vida, daí a comparação. Segundo a Cabala, as dez Sephiroth são os arquétipos que determinam todos os aspectos da existência, desde o nível físico até o espiritual. São, portanto, as coordenadas que determinam o universo, da mesma forma que as dimensões na teoria das supercordas. É claro que este último conceito é mais limitado, uma vez que a física, como o próprio nome diz, só se ocupa do aspecto físico da realidade. Mas, uma vez que, de acordo com a Cabala, cada sephirah possui também uma manifestação física concreta, a par com seus aspectos mais metafísicos, não seria descabido supor que as dez dimensões da teoria das supercordas representam a manifestação física das sephiroth. No máximo, pode-se censurar os autores da especulação por traçarem uma analogia com uma teoria física que ainda está longe de ser completa, uma vez que não se sabe sequer se esse número de dimensões está correto.
Outras variações da teoria das supercordas, por exemplo, prevêem nada menos que 26 dimensões. Mas também aqui o pensamento analógico teria com o que se alimentar, porque 26 é o número central da Cabala. Corresponde à soma dos valores numéricos do Tetragrama sagrado, isto é, o nome de Deus, IHVH (10 + 5 + 6 + 5), geralmente transliterado como Yahveh ou Jeová. Acontece que, na especulação cabalística, o Tetragrama é mais do que um nome. Derivado do verbo hayah, "ser", ele é considerado uma descrição simbólica de todas as transformações da energia divina que dão origem à nossa realidade, e existem diversos tratados cabalistas descrevendo as relações simbólicas entre as quatro letras do Tetragrama e o espaço-tempo.
Claro que para um Osvaldo Pessoa Jr. ou uma Maria Cristina Abdalla (ou mesmo um Pablo Nogueira), esse tipo de raciocínio analógico não faz o menor sentido. Mas eles têm que compreender que, mesmo quando aplicada a conceitos científicos, trata-se de outra forma de pensamento, que não está preocupada em elaborar hipóteses para depois demonstrá-las empiricamente, mas em encontrar semelhanças e analogias que façam sentido do ponto-de-vista simbólico. Em outras palavras, ao criticar o uso que o esoterismo faz das idéias da ciência como sendo "não-científico", eles incorrem exatamente no mesmo erro que acreditam denunciar, o de empregar indevidamente os parâmetros de uma área para avaliar os resultados de outra. Trata-se de um erro que os lógicos denominam de metábase, palavra grega que significa "transposição" e que é aplicada às transposições arbitrárias de modalidades de raciocínio. Negar que a interpretação mística dos conceitos religiosos seja válida dentro de seu âmbito específico de aplicação é como criticar um pintor por ter retratado um por-do-Sol em vez de elaborar um teorema sobre o índice de refração dos raios solares pelas nuvens.
O buraco negro da umbanda. - O que dizer, porém, da "afirmação de que os buracos negros são a porta de entrada para o plano espiritual da umbanda"? Trata-se de uma afirmação aparentemente desvairada. No entanto, ela parte de especulações correntes entre os próprios físicos. É preciso compreender que ninguém tem a menor idéia do que acontece no interior de um buraco negro. E não se trata de uma ignorância provisória, destinada a se dissipar com o avanço do conhecimento científico. A impossibilidade de saber o que ocorre em um buraco negro nasce do próprio conceito. Buracos negros são o resultado do colapso gravitacional de uma estrela. À medida que uma estrela se contrai sem perder massa, a intensidade de seu campo gravitacional aumenta até que, ao ultrapassar determinado limite (o "raio de Schwarzchild"), a estrela entra em colapso e se produz uma singularidade, isto é, uma região onde as leis da física deixam de ser aplicáveis. Assim, os instrumentos matemáticos que a ciência usa para descrever a realidade não são capazes de descrever uma singularidade.
Isso não impediu os cientistas de especular. E alguns deles sugeriram que, talvez, os buracos negros possam ser, sim, portas de entrada para universos paralelos. Claro que o que eles tinham em mente não era nada metafísico, mas outros universos semelhantes ao nosso. No entanto, não existe nenhuma razão pela qual os buracos negros não possam se conectar com "o plano espiritual da umbanda" (partindo-se do princípio de que eles existam, o que pode ser duvidoso para um cientista, mas é axiomático para um umbandista). É improvável? É (literalmente). É impossível? Não.
Uma vez que a singularidade central dos buracos negros escapa ao conhecimento científico, dizer que elas dão acesso ao plano espiritual da umbanda torna-se uma questão de crença. Mas a afirmação contrária, de que eles não dão acesso ao plano espiritual da umbanda, também é uma questão de crença. Do ponto de vista epistemológico, as duas afirmações se equivalem. Nenhuma das duas pode ser provada ou desmentida, e se é inteiramente livre para acreditar ou não nelas, conforme elas se encaixem ou não na visão de cada um. Na visão científica, ela não se encaixa e o cientista a rejeita. Mas ela se enquadra na visão do umbandista - e ele a aceita.
Oi Lucio,
Quando eu crescer quero ser igual a você... rsrsrs
Bela explanação.. Vou ler o artigo da Galileu..
Uma outra coisinha... Estava ontem em casa e quando passei pelo canal TeleCine da NET, me deparei com um filme que me mostrou ser a sua "cara". Gostei muito do filme e no final peguei o nome dele... Making Life.. Já viu??? Certamente que sim... Interessantissimo...
Tentei fazer meu filho ver, mas ele só tem 11 anos e não entendeu bulufas... Mas não perco as esperanças... Como ele estuda no Pedro II, no 2 grau vai ter filosofia como matéria. Estou radiante com esse fato... rsrs
Fraternalmente
Um abraço
Posted by: Celio Alencar | 04-04-2004 at 00:49
Sobre hubamda e singularidades, acho o motivo pelo qual os físicos não as imaginam ( as singularidades ) como um portal para o "Plano Espiritual" ou para a "Summerland" dos wiccans ( como Crowsley ), se chama: Navalha de Occan, a qual sempre procuro utilizar, e considero uma bela ferramenta para "barbear" a auto-ilusão. Já estudei wicca, portanto você deve achar o comentário sobre Summerland, uma espécie de implicância. Mas não encontrei nada de "valor", a não ser um certo liberarismo confortável, nesta forma de exoterismo um tanto quanto contraditória, ao menos em seus adeptos.
Posted by: Francisco M. Silva | 05-04-2004 at 09:51
Eu li a máteria da Galileu, e o que mais me chamou a atenção foi justamente a falta de informações nela. Ela nem ao menos dá a chance dos "místicos" explicarem como usam os conceitos da ciência em suas próprias visões.
E todos os exemplos dados nas revistas são caricatos. E com uma capa daquelas, não dava mesmo pra esperar algum tipo de parcialidade.
Posted by: Rafael ''Lupo'' | 05-04-2004 at 17:19
Salve, Célio!
Pra ser igual a mim não precisa crescer muito, não - eu sou baixinho. ;-)))
Você tá falando do Waking Life, né? Um filme de animação com os desenhos feitos em cima de atores reais? Achei meio lento, mas muito bacana - é exatamente o tipo de questão que me interessa e, no final, quando ele começa a falar de Philip K. Dick, foi tudo de bom. ;-) Aliás, consta que o diretor do filme vai dirigir a adaptação cinematográfica de A Scanner Darkly, romance do Philip K. Dick que tá pra ser adaptado há anos. Isso é bom, porque no Waking Life ele já mostrou que conhece bem o universo do autor. Mas o papel principal vai ser do Keanu Reeves, o que já não é tão bom - o Reeves é um ator limitadíssimo, funcionou bem como Neo, mas o personagem do livro do Dick é beeem mais complexo. Enfim, é aguardar pra ver.
Abs.
L.
Posted by: Malprg | 06-04-2004 at 10:49
Saravá, Francisco!
A Navalha de Ockham também proibiria os físicos de especularem sobre os buracos negros como pontos de entrada pra universos paralelos - e, no entanto, eles especulam. Além disso, o argumento central do meu post é que, quando os místicos usam conceitos oriundos da ciência, eles evidentemente não usam o método científico, mas empregam uma outra modalidade de raciocínio, que é o pensamento analógico. Portanto, princípios de metodologia científica, como a Navalha de Ockham, não se aplicam.
Abs.
L.
Posted by: Malprg | 06-04-2004 at 10:55
Fala, Lupo!
Uma coisa que eu acho engraçada nesse tipo de matéria - e em livros como O Mundo Assombrado pelos Demônios, nos textos do Fórum Cético Brasileiro e até em listas de discussão de ficção científica (acabei de ter um quebra-pau sobre isso na lista do CLFC) - é que os cientificistas enchem a boca pra falar da ignorância dos místicos em matéria de ciência, mas mostram uma incompreensão igual ou maior em relação à religião. Fica literalmente um diálogo de surdos, porque um não tem a menor idéia do que o outro tá falando. São raros os autores de formação científica, como o Amit Goswami, que são realmente capazes de compreender o pensamento místico. É uma pena, porque as duas áreas teriam muito a ganhar se admitissem que são abordagens complementares da realidade, e não concorrentes...
Abs.
L.
Posted by: Malprg | 06-04-2004 at 10:59
Oi Lucio,
Pô, já me considerava da geração copy and paste. Mas nem isso ainda sei fazer direito... rsrs
Claro que é Waking Life!!!
Tchau
Posted by: Celio | 07-04-2004 at 10:13
Eu me RECUSO a ler ou levar a sério a Galileu depois em que eles fizeram um artigo que só faltavam chamar Marie Curie(Uma das minhas maiores admirações) de perua, vaca e coisas do gênero, de tanto que denegriam a imagem de uma das maiores cientistas da História.
Posted by: André kenji | 10-04-2004 at 00:48
Saravá, Kenji!
De um modo geral, eu tendo a gostar mais da Galileu que da Superinteressante (e muito mais da Scientific American do que de qualquer uma das duas!). Mas, quando se trata das relações entre ciência e misticismo, a Super se mostra um pouco mais aberta do que a Galileu que, esta, sim, veste a camisa da ideologia cientificista. Tanto que a matéria da revista só reflete a desinformarmação e o preconceito que campeiam entre os próprios cientistas. A questão é que, como toda forma de ideologia, a cientificista não é neutra: ao erigir a ciência em árbitro absoluto da verdade e ao mesmo tempo proclamar que apenas os cientistas têm o direito de empregar os conceitos da ciência, cria-se uma reserva de poder dentro da sociedade, uma vez que faz com que apenas os cientistas sejam competentes para decidir o sentido do mundo. Seria uma coisa perigosa, se - graças àquilo mesmo que a Galileu critica - a sociedade não cagasse solenemente para a pretensão dos cientistas...
Abs.
L.
Posted by: Malprg | 12-04-2004 at 12:37
Olá. Stephen Hawking, no livro O universo numa casca de noz, fala que provou matematicamente a existencia de pelo menos 11 dimensões. Ora, a árvore da vida têm na verdade 11, e não 10 sephiroth (as bolinhas, já no plural). Uma delas é oculta, invisivel.
http://www.biosofia.net/biosofia7/hor_sophia_images/sephirot1.gif
Posted by: Saindo da Matrix | 12-04-2004 at 16:21
Salve, Acid!
Você deve estar falando de Daat, a sephirah oculta. Ela geralmente não é contada entre as sephiroth porque, de acordo com os cabalistas, Daat não é uma verdadeira sephirah, mas um reflexo das forças reunidas de Hokmah e Binah. A magia ocidental (especialmente a escola de Crowley) afirma que Daat é onde se localiza o Abismo que separa as sephiroth superiores das inferiores. Nessa escola, a Travessia do Abismo é a etapa seguinte ao contato com o Santo Anjo Guardião que personifica nosso Eu superior.
Abs.
L.
Posted by: Malprg | 12-04-2004 at 18:16
Lúcio
Eu curtia a Super quando eu era pré-aborrescente. Tinha uns dez, quinze anos. A revista era melhor naqueles tempos, tinha uma concepção gráfica interessante e trazia informações pertinentes. Não sei se cresci, mas a revista perdeu completamente a graça.
A Galiieu idem, quando ainda se chamava Globo Ciência e era ao menos uma boa diversão para pré-adolescentes nerdinhos... Talvez seja minha idade, sei lá. ;) Mas fiquei meio puto com o artigo sobre a Marie Curie, não só porque ela é uma das minhas maiores idolas como eu achei o artigo meio machista inclusive. Sei lá.
Hoje prefiro a National Geographic.
Posted by: André kenji | 21-04-2004 at 18:51
Toda essa discussão, se os cientistas são preconceituosos com relação aos místicos ou se os místicos são ingênuos, nada disso importa.
O que, realmente, importa é se a medicina alternativa e outros fenômenos místicos existem.
Até hoje não há qualquer prova da existência de tais fenômenos.
Você pode pegar os estudos científicos e conferir. A cochrane, por exemplo, é uma fundação que organiza os estudos científicos feitos em todo o mundo. Uma busca nesse sistema mostra uma síntese dos estudos realizados sobre um determinado assunto. Nem um estudo sobre medicina alternativa, até hoje, demonstrou diferenças entre as técnicas alternativas e o placebo. Nem um.
Se essas coisas realmente existem, por favor, provem, todos estamos interessados em descobrir novas verdades sobre o universo.
Provem e deixem de blá, blá, blá...
Posted by: Augusto Vindeira | 02-11-2004 at 08:00
Saravá, Augusto!
>Toda essa discussão, se os cientistas são preconceituosos com relação aos místicos ou se os místicos são ingênuos, nada disso importa.
>O que, realmente, importa é se a medicina alternativa e outros fenômenos místicos existem
"O que realmente importa" para quem, cara pálida? Não sendo médico nem terapeuta, eu estou pouco me lixando para a controvérsia medicina ortodoxa x terapias alternativas. O que me importa - e esse era o tema central do post, assim como o assunto declarado da matéria da Galileu - é saber se é possível traçar uma ponte entre, de um lado, os conceitos da mecânica quântica e da cosmologia e, do outro, as idéias defendidas por místicos e religiosos. O argumento da revista era de que não, isso não é possível, que qualquer tentativa nesse sentido só pode partir de pessoas desinformadas e que cientistas sérios não perdem tempo com essas bobagens. Mostrei que isso não é verdade, que cientistas sérios se ocupam, sim, em traçar essa ponte, e que entre esses cientistas estão justamente os pais da mecânica quântica, as últimas pessoas do mundo que poderiam ser consideradas "desinformadas" sobre uma ciência que eles mesmos criaram.
Mas, já que o tema das terapias alternativas parece tão importante para você, vamos falar um pouco sobre o assunto.
>Nem um estudo sobre medicina alternativa, até hoje, demonstrou diferenças entre as técnicas alternativas e o placebo.
Você sabe o que é o efeito placebo? Não, não sabe. Nem você, nem ninguém sabe. Dentro da moldura científica tradicional, não existe nenhum modelo teórico capaz de explicar de que forma a sugestão tem a capacidade de provocar alterações fisiológicas no organismo. E, no entanto, esse seria um campo de pesquisa fundamental, porque indica que a mente e a imaginação, por si só, são capazes de influenciar o corpo e curar doenças. Você diz que as curas obtidas pelas terapias alternativas são causadas por efeito placebo, e eu não discordo. Mas acho que, longe de desvalorizar as terapias alternativas, pelo contrário, isso só serve para aumentar seu valor: elas descobriram empiricamente uma maneira de mobilizar o fator de cura do próprio organismo, fazendo com que a imaginação do doente seja capaz de eliminar a doença. A crença religiosa também é capaz de mobilizar esse fator, o que explica as curas milagrosas, mas ninguém sabe como é que ela faz isso. Então, muito mais produtivo do que ficar arengando contra as religiões e as terapias alternativas, seria os cientistas se porem a estudar esses fenômenos pra tentar isolar os mecanismos psicossomáticos capazes de desencadeá-los. Em vez disso, eles se agarram ao rótulo efeito placebo, como se uma etiqueta colada sobre um fator desconhecido fosse o bastante para explicá-lo, e ficam brandindo a etiqueta quase como uma fórmula de exorcismo: Vade retro, placebo.
Mas claro, cientistas dependem de financiamento e o principal financiador das pesquisas na área médica é a indústria farmacêutica, que provavelmente não teria muita boa vontade em liberar recursos para pesquisar um mecanismo intrínseco ao próprio organismo que torna os remédios que ela fabrica desnecessários.
É mais fácil, portanto, a cada vez que aparece um sujeito que se curou por acupuntura, trepar no púlpito e começar a berrar: "Efeito placebo! Efeito placebo!"
Explique o efeito placebo ou deixe de blá blá blá... ;-)
Abs.
L.
Posted by: malprg | 02-11-2004 at 15:11
Ah, sim, eu entendi perfeitamente sua matéria, Lúcio. Aliás, muito bem escrita e de lógica impecável.
O que eu quis dizer é que essa discussão, simplesmente, não tem importância.
Existe uma questão mais importante, que está na base de toda essa discussão, que é a existência ou não dos fenômenos místicos.
Quanto à medicina alternativa e o efeito placebo, realmente, não se sabe exatamente o mecanismo do placebo, mas existem várias teorias a respeito, estabelecendo uma relação entre os estados psicológicos e as vias hormonais e imunes do organismo. A questão é por aí, e cada vez mais as pesquisas, e as provas, avançam nesse sentido.
Agora, não é algo aceitável um medicamento placebo ser usado, por dois motivos:
1) Um medicamento placebo é menos eficaz do que um medicamento verdadeiro. O verdadeiro possui, além do efeito placebo, um efeito terapêutico orgânico direto.
2)Um tratamento alternativo pode afastar o paciente de uma terapia verdadeira. Isso pode resultar em sofrimento para o paciente (como ele demora mais para se curar, sofre mais). E, pior, isso pode resultar em seqüelas para o paciente. Um exemplo bem típico. Um paciente com hipertensão. Ele resolve tentar se tratar com uma terapia alternativa antes de usar o modo convencional. Resultado: os efeitos negativos da hipertensão persistem no seu organismo por mais tempo. Isso vai acelerar o surgimento de doenças como infarto, derrame e insuficiência cardíaca. Em fim, o nosso paciente acaba morrendo mais cedo. Esse é só um exemplo rotineiro. Existem vários outros exemplos, tão freqüentes e mais graves do que esse.
Posted by: Augusto Vindeira | 02-11-2004 at 17:52
>Ah, sim, eu entendi perfeitamente sua matéria, Lúcio. Aliás, muito bem escrita e de lógica impecável.
Valeu, Augusto.
>O que eu quis dizer é que essa discussão, simplesmente, não tem importância.
Pra você talvez não tenha. Pra mim, ela é fundamental, porque toca na própria natureza da realidade, no alcance e nas limitações dos instrumentos teóricos que nós temos pra lidar com ela. Todas as outras questões - inclusive o problema das terapias alternativas - não podem ser adequadamente compreendidas sem esse pano-de-fundo, e a idéia que fazemos sobre o que é a realidade, sobre se nossas teorias sobre ela são ou não uma maneira adequada de compreendê-la, vai ter um reflexo direto sobre como lidamos com cada questão em particular.
Por exemplo, se partirmos do princípio de que o método científico é o único caminho que pode nos conduzir à verdade, então tudo o que dizem os místicos, os religiosos e os esotéricos não passa de um monte de lixo sem sentido. Reciprocamente, se admitirmos, como os evangélicos, que a Bíblia é a Palavra de Deus e, portanto, a única fonte autorizada da Verdade, a ciência passa a ser vista como um empreendimento arrogante e demoníaco. Entre esses dois extremos - ambos absolutistas - podemos adotar a postura bem mais humilde de aceitar que a realidade é mais complexa do que qualquer paradigma, que toda tentativa de conhecê-la, venha ela da ciência, da religião ou da filosofia, vai ser sempre uma aproximação relativa e que, portanto, as diferentes abordagens não são mutuamente exclusivas. Respeitados os respectivos contextos, elas podem inclusive ser combinadas.
>Quanto à medicina alternativa e o efeito placebo, realmente, não se sabe exatamente o mecanismo do placebo, mas existem várias teorias a respeito, estabelecendo uma relação entre os estados psicológicos e as vias hormonais e imunes do organismo. A questão é por aí, e cada vez mais as pesquisas, e as provas, avançam nesse sentido.
Exato. É o campo de estudos da medicina psicossomática, que estuda justamente como o estado psicológico pode influenciar na produção ou na cura de uma doença. Uma das coisas que a medicina psicossomática já demonstrou, por exemplo, é que o sistema imunológico mostra uma dependência sensível em relação ao estado emocional do paciente - para o bem e para o mal. Mostrou também que a convicção do paciente de que ele pode ser curado exerce um efeito positivo sobre os resultados de qualquer tratamento, seja ele convencional ou alternativo. E, finalmente, que a relação pessoal que o paciente estabelece com o médico - o que os psicanalistas denominam de transferência - é fundamental para o tratamento. Como diz um ditado chinês que o Jung gostava de citar, "o método certo nas mãos do homem errado não funciona; o método errado nas mãos do homem certo funciona".
Esse é um dos pontos em que as terapias alternativas são inegavelmente superiores à medicina convencional. Nesta última, a relação médico-paciente vem se tornando cada vez mais impessoal, distante, ao passo que as terapias alternativas investem todas as suas fichas no contato entre o terapeuta e o paciente. Uma vez que a atmosfera emocional é tão importante pro sucesso do tratamento, ponto para as terapias alternativas.
>Um medicamento placebo é menos eficaz do que um medicamento verdadeiro. O verdadeiro possui, além do efeito placebo, um efeito terapêutico orgânico direto.
Você tá subestimando o alcance do efeito placebo. Ele tem diferentes gradações. Num extremo, tem o cara que toma uma pílula de açúcar pra curar a enxaqueca, a dor desaparece por um tempo mas, meia hora depois, volta com mais intensidade. No outro, você tem curas milagrosas como as de Lourdes, muitas das quais comprovadas e documentadas. Entre esses dois extremos, você tem coisas como a remissão espontânea de casos de câncer, que ocorrem em mais ou menos 10% dos casos e que a medicina simplesmente registra, mas admite que não tem como explicar. Lembre-se que a medicina psicossomática toca no coração do problema mente-corpo, uma questão que está muito longe de ser resolvida, de modo que ainda é cedo para dizer até onde vai a influência recíproca da mente sobre o corpo e vice-versa.
>Um tratamento alternativo pode afastar o paciente de uma terapia verdadeira.
Somente na medida em que as duas coisas forem vistas como mutuamente excludentes (o que já fica implícito na tua colocação, quando você contrasta "tratamento alternativo" x "terapia verdadeira". Se o problema for colocado em termos de qual é a melhor, qual é a verdadeira, qual é a falsa, tanto pacientes quanto médicos vão continuar sendo obrigados a optar: ou uma, ou outra. Mas não precisa ser assim. Conheço médicos alopatas que também são acupunturistas, por exemplo, e que combinam ambas as formas de tratamento no que cada uma tem de melhor. Não vejo porque medicina e terapia alternativa têm que se encarar como dois exércitos inimigos disputando o mesmo território, especialmente porque o território que elas disputam é o corpo do paciente. Este seria muito mais beneficiado se ambos os paradigmas fossem aceitos como válidos, cada qual com suas vantagens e limitações. Estamos falando de medicina, não de times de futebol, pra ter rivalidade entre as torcidas. ;-)
Abs.
L.
Posted by: malprg | 02-11-2004 at 18:34
Realmente o antagonismo entre as medicinas tradicional e alternativa acaba gerando partidários de um lado e de outro. E os partidários da medicina alternativa acabam se afastando da tradicional.
Por outro lado, aceitar os tratamentos alternativos representaria o risco do paciente procurar primeiro esse tipo de terapia e sofrer graves conseqüências com isso.
Desse modo, ou as medicinas alternativas são extintas, ou é estabelecida a obrigatoriedade de que todo o tratamento alternativo seja acompanhado de um tratamento tradicional.
A segunda hipótese está mais próxima de ser atingida. Apesar de desagradar os alternativos.
No entanto, eu me pergunto se essa é mesmo a melhor opção.
Se nós estamos procurando um efeito placebo, por que não investir na imagem da medicina tradicional e na melhoria do atendimento ao paciente?
O efeito placebo das medicinas alternativas não tem nada de especial. Existem estudos comparando o tratamento tradicional, um placebo qualquer e a medicina alternativa, sendo que a terapia alternativa fica no nível do placebo.
Sim. Existem casos raros de cura pela fé. Aqui cabe lembrar que a medicina tradicional nunca se colocou contra as crenças religiosas dos pacientes. Aliás, o ideal seria que o médico fosse visto como um objeto usado pela divindade para se manifestar, como costumava ser no passado.
Por fim, admitir a medicina alternativa seria mentir para o paciente. Os médicos alternativos dizem que seus medicamentos atuam além do placebo e isso não é verdade.
Posted by: Augusto Vindeira | 02-11-2004 at 21:48
Desculpe, Augusto, mas você deu uma olhada no símbolo que ilustra este blog? Aquele A de Anarquismo não tá lá por acaso. Tornar obrigatório que todo tratamento alternativo seja acompanhado de um tratamento convencional? Sorry, pal, wrong number. Eu não acho que se deva tornar obrigatório nada, nem acho que se deva proibir coisa alguma. As pessoas devem ser livres pra decidir o que fazer de suas vidas. Se alguém acha que deve procurar a medicina tradicional, tem toda liberdade de fazer isso. Se alguém acha que deve procurar um tratamento alternativo, também tem todo o direito. A vida é dele, a decisão é dele, e ninguém tem nada a ver com isso - nem sequer os médicos.
Abs.
L.
Posted by: malprg | 02-11-2004 at 22:08
Acho que nossos recados foram dados.
Gostaria de pedir desculpas pelo tom agressivo das mensagens. Eu realmente acho que a medicina alternativa é algo prejudicial e, desse modo, essa questão me revolta.
Fora era discussão, gostaria de dizer que, apesar de termos uma visão da realidade completamente diferente, eu te admiro como pensador e que, principalmente, sou fã das suas histórias.
Continue com o ótimo trabalho, por favor.
Posted by: Augusto Vindeira | 03-11-2004 at 04:59
Saravá, Augusto!
Sim, acho que nossas respectivas posições ficaram bem claras, assim como o que elas têm de inconciliável.
Não se preocupe com o tom, ele é comum em qualquer debate. O único risco é quando isso resvala pra argumentos ad hominem ou ofensas pessoais, o que eu acho que nenhum dos dois fez.
Quanto à medicina alternativa, tudo o que eu posso dizer é que, se você considera ela perigosa, mantenha distância dos tratamentos alternativos. ;-)
De resto, espero que, divergências à parte, você continue visitando esta humilde mansarda, que é ao mesmo tempo um laboratório, um templo e um hospício. ;-)
Abs.
L.
Posted by: malprg | 03-11-2004 at 13:26
"Bíblia e a ciência"
Tendo em vista, que algo se torna realmente confiavel apenas quando é severamente provada e comprovada o seu fundamento, proponho-me a defender a Bíblia como sendo a Palavra(Revelação) de Deus para o homem. Sendo esta escrita por mais de 40(quarenta) escritores, seu assunto não deixou de ser coerente; pois analisando-a minuciosamente, o seu conteúdo foi expresso de uma forma que nenhum homem jamais conseguiu, a "Perfeição". (Qual teoria humana que não passa por algum descrédito ou uma reformulação quanto à sua estrutura pelo simples fato que é algo humano e não obedeceu aos princípios e critérios bíblicos?) Uma outra característica é que todas as suas revelações foram e estão sendo comprovadas cientificamente; suas profecias que tinham cumprimento até os dias de hoje já estão cumpridas, o que dirá então das que estão por vir...? ("Passará o céu e a terra, mas as minhas palavras não passarão." Marcos 13.31)
Quanto à cura de enfermidades pela fé(e não um simples pensamento) a Bíblia diz:(Hebreus 11.1 _ORA, a fé é o firme fundamento das coisas que se esperam, e a prova das coisas que se não vêem./ Hebreus 12.2 _"Olhando para Jesus, autor e consumador da fé", o qual, pelo gozo que lhe estava proposto, suportou a cruz, desprezando a afronta, e assentou-se à destra do trono de Deus.)
A sua verdade é incontextável e foi grandemente defendida por Paulo em suas cartas.
O que estou tentando dizer é: a Bíblia é a base de tudo e não é ela que está subordinada a ciência mas sim, a ciência subordinada a ela.
Vocês querem buscar a verdade, pois é buscam-na no lugar errado. Saberão pois, um dia, que acima de toda ciência está Deus.
Posted by: Leandro | 04-08-2005 at 11:30
Leandro, há os que pensam que a Bíblia é a verdade absoluta e há os que pensam que apenas a ciência pode fornecer certezas definitivas. Mas há também os que desconfiam de certezas definitivas e verdades absolutas, venham elas das páginas da Bíblia ou do laboratório de um cientista. É o meu caso e, acredito, o da maioria dos leitores deste blog. Em todo caso, boa sorte com as suas verdades.
Abs.
Malprg
Posted by: Malprg | 08-08-2005 at 23:24
Parabéns pelo trabalho/doação.
E, apesar de tudo, o processo maravilhoso/grandioso que se chama VIDA, se desenrola. Mentes infatilizadas usam o conhecimento (que parece muito, mas é pouco, face ao ainda não conhecido) para compensar suas vacuidades internas. Conhecimento dá poder, status. Mas tudo isto vai, em breve, valer pouco. Pois estamos entrando, tudo e todos,em faixas de frequencias até então desconhecidas (um novo RENASCIMENTO). Faz parte do processo VIDA que se desenvolve em ciclos. Não se trata mais do saber racional (como conhecido até agora), mas do vivenciar (com coração e mente) primeiro e depois explanar. Isto é coisa da frequencia vibratória conhecida como "mental concreto". Neste, pensamos que sabemos algo, pela comparação com outro algo já conhecido. Para os de menos idade (jovens, jovens adultos e adultos jovens, já em frequência vibratoria mais intensa, porisso mais ligados ao sentir) aquilo que é chamado de misticismo/medicina alternativa é mais aceito, pois encontra eco dentro de si, pois são processos que se desenrolam em frequências mais altas. Os mais adultos, já com mentes cristalizadas, orgulhosos de seus "saberes", encontram dificuldade em pensar em, imagine "sentir" o processo! E, além de tudo, há o grande inimigo interior: o sistema de crenças, aquela sutil aparelhagem montada(desde criança) a partir do "isto doi, isto não doi", "isto me torna aceito, isto não me torna aceito", etc., etc., etc. Não esquecer sermos TODOS humanos, sujeitos às armadilhas do edifício psíquico, onde reside aquele que se julga Rei, que se julga o centro de tudo/todos: O EGO. A grande maioria vive para satisfazer aos seus desígnios. Ele reina absoluto. Daí..
Fica por conta da imaginação de cada um...
BOA SORTE, muita boa sorte, lhe desejo...
Posted by: Alex | 30-11-2005 at 19:17
>E, além de tudo, há o grande inimigo interior: o sistema de crenças, aquela sutil aparelhagem montada(desde criança) a partir do "isto doi, isto não doi", "isto me torna aceito, isto não me torna aceito", etc., etc., etc. Não esquecer sermos TODOS humanos, sujeitos às armadilhas do edifício psíquico, onde reside aquele que se julga Rei, que se julga o centro de tudo/todos: O EGO.
Clap! Clap!! Clap!!!
Abs.
Malprg
Posted by: Malprg | 01-12-2005 at 10:38
Vi o Making Life ontem num canal de tv a cabo, mas gostaria de ter o filme para discutir com meus alunos, alguém sabe me dizer como consegui-lo?
Posted by: Raquel Viviani Silveira | 13-08-2007 at 17:42
Oi, Raquel, tenta aqui.
Abs.
Malprg
Posted by: Malprg | 15-08-2007 at 13:57
Olá,
Poderíamos supor "absurdamente" que a vida tende a se desfazer de um algo originalmente a ela "incorporado" como necessidade de realização circunstancial que já não procede mais?
Por favor, não se trata de brincadeira, que seja maluquice, idiotice ou algo nessa ordem, porém, peço que retornem de qualquer sorte.
Grato,
Dilton.
Posted by: Dilton | 17-08-2007 at 15:58
Muito Obrigado!
Eu procurava na net alguma artigo consistente que mostrasse que existem cientistas serios com este tipo de abordagem. Expus algumas destas teorias em uma comunidade no orkut e um aluno de doutorado da USP as classificou como se não fosse ciencia. Como vc disse:"feita para dar a impressão de que todas as tentativas de aproximar ciência e misticismo situam-se nesse patamar que mistura ingenuidade e desinformação."
ai esta o link:
http://www.orkut.com/CommMsgs.aspx?cmm=10864&tid=2566083259592792302&na=1&nst=1
qualquer contribuição sua será muito bem vinda..
parabéns pelo seu trabalho
;)
Posted by: Alexandre Dornelas | 27-11-2007 at 13:20
Boa sorte, Alexandre. Minhas experiências anteriores (algumas em listas de discussão, outras aqui mesmo, neste blog) me mostraram que é mais fácil convencer um Testemunha de Jeová do que um cientificista empedernido. Tem fanatismo de ambos os lados e a marca do fanático é que justamente ele não está aberto a discussão. Como diz a velha piada, fanático é o cara que não muda de idéia, nem de assunto. Mas às vezes é divertido terçar armas com os autoproclamados donos da verdade, tanto os que andam com uma Bíblia embaixo do braço quanto os que adotaram A Origem das Espécies como sagrada escritura.
Abs.
L.
Posted by: Malprg | 28-11-2007 at 21:24
Este texto da Galileu é um atentado contra a ética.
Hoje em dia são os meio jornalísticos que mais padecem da falta de ética.
Quanta inguinonrância..........
Posted by: Kingmob | 10-02-2008 at 17:57
muito bom cara, qdo acabar de processar tudo q li volto aqui para um comentario decente..
Posted by: GArbo | 08-03-2008 at 02:03
parabéns pela sua reportagem, me parece que ela deixou claro a falta de uma crítica mais aguda por parte dos grandes pensadores sobre as dificuldades que encontram em lidar com o conhecimento, quando este é colocado para explicar ou formular um fenômeno de forma holística, levando nos acreditar que o conhecimento holístico deva ser somente renegado ao misticismo.
"Onde a vida que perdemos quando vivos?
Onde a sabedoria que perdemos no saber?"
T.S Eliot
Posted by: Alan | 10-11-2008 at 12:13