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15-04-2004

O Riso e a Sístase (1): a Couraça

Aristóteles talvez tenha sido o primeiro a observar que o homem é o único animal que ri. Outros depois dele acrescentaram que apenas o humano é risível: quando rimos de algum animal ou objeto, é apenas porque ele evoca a condição humana, ou porque projetamos esta última sobre ele. Desde Aristóteles, o enigma do riso tem desafiado filósofos, psicólogos e cientistas. Por que determinadas situações, expressões ou gestos nos provocam a hilariedade? Qual o sentido do riso?imagens/bergson Em 1899, o pensador francês Henri Bergson se propôs a refletir sobre a questão em três artigos publicados originalmente na Revue de Paris e depois reunidos em um livro que se tornou clássico sobre o tema: O Riso. “O que haveria de comum entre uma careta de palhaço, um jogo de palavras, um qüiproquó de vaudeville, uma cena de comédia fina?”, perguntava-se Bergson logo na abertura do primeiro capítulo. Com a resposta a essas perguntas, Bergson tinha a esperança de atingir um objetivo mais amplo: “Razoável, a seu modo, até em seus maiores desvios, metódica em sua loucura, sonhadora, se me permitem, mas capaz de evocar em sonhos visões que são prontamente aceitas e compreendidas por toda uma sociedade, por que a invenção cômica não nos daria informações sobre os procedimentos de trabalho da imaginação humana e, mais particularmente, da imaginação social, coletiva, popular?”

imagens/tomboAutomatismo e rigidez. — Bergson parte de dois exemplos bem simples, o do homem que tropeça e cai no meio da rua e o de um hipotético sujeito metódico que tenha sido vítima de uma brincadeira: seus objetos foram trocados de lugar, mas ele continua se comportando de acordo com a rotina estabelecida, seguindo o impulso impresso pelo hábito. “O que há de risível num caso e noutro”, observa Bergson, “é certa rigidez mecânica quando seria de se esperar a maleabilidade atenta e a flexibilidade viva de uma pessoa.” Alargando seus exemplos para abranger os tipos cômicos, o filósofo acaba por chegar a um princípio geral que, segundo ele, descreveria o lado risível da natureza humana, “um efeito de automatismo e rigidez”.

Assim, de acordo com ele, o riso “persegue (de modo inconsciente e até imoral em muitos casos particulares) um objetivo útil de aperfeiçoamento geral”, na medida em que procura flexibilizar “tudo o que pode restar de rigidez mecânica na superfície do corpo social”. Mais tarde, talvez tenhamos ocasião de falar um pouco dessa ênfase de Bergson no social. Por ora, fiquemos nisto: o riso tem um objetivo, que é o de destacar o que há de automático e estereotipado no comportamento das pessoas.

imagens/caricaturaPara testar essa hipótese, Bergson procura determinar o que torna uma fisionomia cômica. Depois de analisar alguns exemplos, conclui que “uma expressão risível do rosto será aquela que nos leve a pensar em algo rígido, congelado, por assim dizer, na mobilidade ordinária da fisionomia. Um cacoete consolidado, um esgar fixado” constituem a essência dos rostos e posturas corporais que evocam o riso, como se o rosto e o corpo estivessem imobilizados em uma careta permanente: “É um esgar único e definitivo. Parece que toda a vida moral da pessoa se cristalizou em tal sistema. Por isso é que um rosto é tanto mais cômico quanto mais nos sugere a idéia de alguma ação simples, mecânica, em que a personalidade estaria absorvida para todo o sempre.” E exemplifica: “Há rostos que parecem ocupados a chorar o tempo todo; outros, a rir ou a assobiar; outros a assoprar eternamente uma trombeta imaginária. São os mais cômicos de todos.”

imagens/ReichA couraça muscular. — O psicanalista austríaco Wilhelm Reich provavelmente não os achava muito cômicos, mas estava bastante familiarizado com esses rostos e corpos que parecem imobilizados em uma postura rígida, condenados a expressões e comportamentos mecânicos. Ele os encontrava diariamente em seu consultório e, mais tarde, passou a observá-los nas ruas, nas casas, no ser humano em geral. De fato, essa estereotipia é a base de sua teoria da couraça muscular.

Embora nossos corpos sejam, em princípio, infinitamente flexíveis e maleáveis – como demonstram os esportistas e bailarinos – na prática, o que observamos é que carregamos conosco, diariamente, uma carga de tensões musculares que se acumulam no organismo, limitando seus movimentos a um conjunto restrito que somos forçados a repetir. A repetição, por sua vez, reforça as limitações, transformando-as em um hábito vicioso. Essa carga de tensões forma como que uma couraça sobre o organismo, impondo-lhe as mesmas características que Bergson descobrirá na essência do cômico: automatismo e rigidez.

Reich, porém, foi mais longe. Como psicanalista, constatou que existia uma correspondência entre a couraça muscular e os conflitos recalcados no inconsciente de seus pacientes. Assim, por exemplo, um homem que temesse a hostilidade do mundo teria seu rosto crispado em uma perpétua careta de medo. Outro, cuja personalidade se mostrasse tímida na superfície, mas que inconscientemente se julgasse superior aos demais, teria a expressão congelada num esgar de sarcasmo. Uma mulher de sexualidade intensa, mas que tivesse sido obrigada pela educação a adotar uma atitude recatada, poderia revelar seus desejos inconscientes sob a forma de um sorriso insinuante do qual nem ela teria consciência. E assim por diante, Reich foi acumulando evidências – nas quais reencontramos os rostos cômicos de Bergson – de que a couraça muscular era o equivalente físico de algo mais amplo, que condicionava todo o comportamento do ser humano, e que ele denominou de couraça de caráter. Pois bem, foi exatamente o que Bergson descobriu em sua análise do cômico.

imagens/caricatura-grupoUm parentesco natural. – “Automatismo, rigidez, vezo contraído e mantido: aí está porque uma fisionomia nos faz rir”, escreve Bergson. “Mas esse efeito ganha intensidade quando podemos vincular tais características a uma causa profunda, a uma certa distração fundamental da pessoa, como se a alma se tivesse deixado fascinar, hipnotizar, pela materialidade de uma ação simples.”

Nas páginas seguintes, o autor perseguirá essa causa profunda, cujo principal sintoma é uma tendência da forma a sobrepujar o fundo, e a descobrirá não só nas expressões, nas posturas e nos gestos, mas também nas formas de falar, nas deformações profissionais e em uma série de outras instâncias. Mais importante, examinando os personagens cômicos, ele vai salientar como esses automatismos não surgem isolados, mas formando verdadeiras constelações de comportamento, de modo que um personagem cujo humor nasce da rigidez com que se apega aos ristos de sua profissão também terá um modo de falar igualmente cômico e estereotipado.

De fato, diz Bergson, quando o autor da comédia não indica no próprio texto tiques e maneirismos que componham com o perfil do personagem, o ator mesmo se encarregará de construí-los instintivamente. E é aqui que Bergson antecipa as conclusões de Reich sobre a identidade entre a couraça muscular e a couraça de caráter: “Há, portanto, um parentesco natural, naturalmente reconhecido, entre essas duas imagens que estamos aproximando uma da outra, o espírito a imobilizar-se em certas formas, o corpo a enrijecer-se segundo certos defeitos.” Existe um antigo termo médico, hoje em desuso, para descrever um tal enrijecimento do corpo: a sístase, uma contração muscular crônica, geralmente dolorosa. Esse termo, porém, tem uma história.

imagens/Gichtel-unregenerate_manO estado de sístase. – Muito antes que os médicos a adotassem (e depois abandonassem) para descrever uma instância particular do que Reich designou como “couraça muscular”, a palavra sístase foi empregada pelos gnósticos em um sentido bem mais amplo – mas não inteiramente desconectado.

Os gnósticos consideravam que o ser humano é composto de três princípios: corpo, alma e espírito. Destes três, apenas o espírito (que não é nem material, nem imaterial, mas transcende a oposição entre os dois) constitui verdadeiramente a nossa essência. O corpo e a alma, por sua vez, foram criados por uma entidade perversa, o demiurgo, para formar um envelope no interior do qual o espírito (que é a centelha de Deus em nós) encontra-se aprisionado. Dessa forma, corpo e alma são os componentes de um sistema que limita a plena expressão do nosso potencial espiritual. E, como meus Vinte Fiéis Leitores já terão adivinhado, o nome que os gnósticos davam a esse sistema era sístase.

Não é difícil reconhecer aí tanto a couraça muscular (o corpo) quanto a couraça de caráter (a alma) reichianos. Assim como se pode ver claramente que eles correspondem ao corpo enrijecido e ao espírito imobilizado mencionados por Bergson. Do ponto de vista gnóstico, um e outro são apenas elementos de um sistema mais vasto, construído com o propósito deliberado de fazer com que o homem viva em um nível inferior àquela que deveria ser sua condição naturalmente divina.

O espaço do post não me permite entrar em detalhes a respeito da natureza do demiurgo. Mas, antes que o leitor mais paranóico comece a imaginar uma vasta conspiração cósmica orquestrada por uma entidade demoníaca, é bom esclarecer que, ao que tudo indica, o demiurgo gnóstico é apenas um símbolo para o ego. Em última análise, pois, é o próprio homem que limita a si mesmo, vivendo em uma prisão que ele mesmo construiu. E, se a aproximação que estamos fazendo com as reflexões de Bergson sobre o riso estiver correta, é contra as grades dessa prisão que se dirige a arma do humor.

Voltaremos a isso.

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Comments

Fala jovem!

Vixi... Já está há muito tempo fora rapaz...
Aproveite a folga... mas saiba que a ausência de suas pérolas estão sendo sentidas.

Abraço!

M.A. Lobato

Aê, muito bons os textos desse blog. Depois de ter passado por vários blogs de charlatões, finalmente achei algo que preste. Só não sei de onde vc tira saco pra escrever tudo isso.
Mais uma vez parabéns.

Saravá, Lobato!

Pois é, vários fatores direrentes convergiram pra que eu ficasse quase um mês sem atualizar o blog. Mas agora tô de volta, devagar e sempre!

Abs.
L.

Salve, Luis!

Legal que você curtiu. Olha, saco é o de menos. Onde o bicho pega mesmo é no quesito "tempo". Por isso que, às vezes, eu fico um tempão sem atualizar...

Abs.
L.

Olá pessoal, gostava que alguem me disse-se onde posso encontrar o verdadeiro texto "O riso de Aristóteles" , quero mesmo o original.Obrigado

Caro L.tenho chegado à correlações bastante interessantes entre os filtros cognitivos, arcontes e as categorias aristotélicas.Tenho visto os arcontes do demiurgo cada vez mais enquanto mecanismos de canalização propedêutuco-epistemológicos, conjuntos de conceitos expostos por aristóteles e reutilizados em Kant, através dos quais há a possibilidade do pensamento.Dá pano pra manga hein? Se vc pensar no demiurgo enquanto mecanismo restritor da infinita potencialidade do pleroma, até mesmo as limitações da nossa linguagem e processos mentais seriam expressões paupáveis para uma analítica do problema, a própria necessidade de revestir a informação abstrata em códigos semiológicamente traduzíveis já nos aponta a ação do agente adensador, onde concordo contigo seja uma estrutura inerente ao ego.
abçs

Salve, Oskar!

Não tenho muita certeza de qual texto do Aristóteles você se refere. Se for a segunda parte da Poética, sobre o riso e a comédia, ele está perdido (de fato, a trama de O Nome da Rosa, do Umberto Eco, é toda construída em cima de uma hipotética redescoberta desse texto).

Abs.
L.

Saravá, Adorador de Christos!

Sim, na minha opinião, os arcontes gnósticos se referem, entre outras coisas, aos filtros cognitivos, que Kant chamava de "categorias apriorísticas do conhecimento" e se encarnam nas estruturas da linguagem e do pensamento. Tratei desse assunto aqui.

Abs.
L.

Relendo este post que é seminal aqui no F-A.

Este tema do riso é um ponto em que suas pesquisas vem ao encontro de minhas pesquisas de forma particularmente interessante.

Meu enfoque cairia mais para o lado libertador do riso.

Contei aqui que uma vez em meditação olhando para uma imagem de uma Divindade Irada do Budismo de repente eu a vislumbrei não irada, mas dançando, soltando fumaça pelas ventas e ouvidos, rindo de mim e debochando impiedosamente de minha cara. Como se dissesse: "Seu otário, vc só sofre porque quer, nesse sua barricada auto-construída de defesas, culpas e medos, que só servem a sua própria auto-importância e lamentação masoquista".

Não é a toa também que o trunfo móvel do tarot seja "O Louco", o bobo da corte. Mas aqui eu acho que vc poderia falar melhor que eu.

Eu tenho a convicção pessoal de que uma vibração muito alta no universo está ligada ao que vislumbramos como comicidade, como riso na sua forma mais libertadora possível. Vem-me a mente agora o Lila dos hindus.

Enfim a própria galera da magia do caos costuma banir com uma gargalhada, e eu já ouvir dizer por aí que funciona muito bem.

A energia crística também pode ser vislumbrada como uma enegia altamente cômica que te faz rir com o espírito não só com o corpo.

É por isto que eu tendo a desconfiar de abordagens muito sérias da espiritualidade.

O riso junto com a sexualidade são as maiores ferramentas que a gente tem contra a sístase.

L., aqui neste ponto há matéria pra pesquisa pruma vida inteira.

abraço,
Kingmob

presente pra vcs
http://youtube.com/watch?v=4XQKmfYnuOI

Olá Kingmob.

Robert Monroe, em seu segundo livro "Viagens além do Universo", encontra no mundo mental uma forma de vida não física que "rolava", que é a forma de "rir" no mundo mental. No fim do livro, ele diz que: "O riso é a maior expressão do espírito humano." O riso está em todos os mundos.

Os indigenas sabem disto, e riem o tempo todo. Peidar e rir prá eles é a melhor forma de quebrar a seriedade de qualquer situação.

Isto me lembrou muito o Don Juan, de Castaneda e o Don Genaro, que era o rei da irreverencia. Don Juan e Don Genaro pegavam duro com Castaneda e riam tanto as suas custas que chegavam a cair no chão com dores segurando o estomago e diziam:"desculpe, mas é que vc me faz lembrar muito de mim quando estava aprendendo como vc."

Rir é tudo de bom, relaxa, massageia o instestino e quebra a fixação em nós mesmos.

abs.

Saravá, KingMob!

>Relendo este post que é seminal aqui no F-A.

Pois é. Eu sempre fico me cobrando uma explicação mais didática do conceito de sístase, mas aí eu releio o post e vejo que ele já explica a coisa da maneira mais simples que eu consigo.

>Meu enfoque cairia mais para o lado libertador do riso.

Mas é essa a idéia mesmo. Não que o humor seja sempre libertador. É só pensar nas piadas de preto, de bicha, de loira pra ver que ele pode estar, e muitas vezes está, a serviço da manutenção de preconceitos. Mas essa não é a essência do humor, é o humor cooptado pela sístase.

Em seu estado mais puro, o riso tem uma função libertária. Ele põe o dedo nas estruturas calcificadas da sístase e, como o vitríolo alquímico, é capaz de dissolvê-las. Só isso já pode ser uma experiência profundamente iluminadora. É por isso que as anedotas sufis, as histórias do Mulá Nasrudin ou os mondo zen, todos planejados para ajudar a conduzir o discípulo à iluminação, quase sempre são engraçados. O bufão, afinal de contas, é um dos avatares de Hermes. Os padres medievais difundiram a lenda de que Cristo nunca ria. Só isso já basta pra mostrar como eles perderam a conexão com a essência original do cristianismo.

Abs.
L.

>presente pra vcs

Muuuito bom! Eu tinha visto esse desenho quando era criança mas, claro, na época não fazia a mínima porra da idéia sobre Pitágoras, Fibonacci ou geometria sagrada, e a coisa toda me passou batida.

Revendo agora, graças ao teu link, fiquei impressionado. Não só com a clareza da demonstração, mas também com o visual psicodélico (a transformação do Donald numa mandala fractal é maravilhosa!). Ficou óbvio também que o roteirista sabia do que estava falando: a pretexto de ensinar matemática e mostrar às crianças que a geometria pode ser divertida, o que ele estava mesmo fazendo era dar uma aula de esoterismo 101...

Abs.
L.

PS. Seguindo os links recomendados pelo Youtube, a gente encontra outros vídeos também bastante interessantes (e outros nem tanto).

>Isto me lembrou muito o Don Juan, de Castaneda e o Don Genaro, que era o rei da irreverencia.

Também ri muito com as estripulias de Dom Genaro, Marcelo! Imagino que, "na real" (se é que houve algum "na real"), o Castaneda não fosse tão pateta quanto o Carlito que ele pinta. Mas que é divertido, é...

Abs.
L.

>se é que houve algum "na real"

Nunca saberemos né Lúcio ? A não ser que desvendemos os mistérios da "segunda-atenção", proposta nos livros.

Mas estes dias estava pensando que o valor dos livros de Castaneda, sendo ficção ou não, é que eles são viscerais, e realmente mexem com nossa visão de mundo.

Para mim foi essencial e marcou uma fase de minha vida. Eu até já fui praticante de Tensegridade (passes-mágicos) e o efeito é indiscutível, vc se sente forte como um touro e sua percepção fica mais aguçada.

No fim, a obra de Castaneda pode ficar como um "Conto de Poder" e por isso só já tem seu valor.

abs.

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