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24-03-2004

Tempestade litorânea

imagens/ulisses1

A tese vem sendo repetida ad nauseam: Ulisses, essa velha personificação do racionalismo grego, é o protótipo do burguês esclarecido, com seu projeto de submeter a natureza pela razão e dominá-la através do conhecimento. Formulada por Theodor Wiesengrund Adorno e Max Horkheimer no primeiro excurso da Dialética do Esclarecimento, ela se tornou um lugar-comum para gerações de universitários, muitos dos quais nem leram a Odisséia e conhecem o mito grego unicamente por intermédio dos dois teóricos alemães da chamada Escola de Frankfurt. Consultassem as fontes, lessem o poema homérico com atenta consideração pelos detalhes, estudassem a mitologia grega da qual a epopéia é um produto e dar-se-iam conta de que, bem vistas as coisas, Adorno e Horkheimer andaram brincando de Procusto com o pobre Homero, para não falar do infeliz Odisseu que, não bastasse ter sido obrigado - contra a vontade, Homero é bem claro quanto a isso - a lutar numa guerra que não era a sua por mais de dez anos, errar outros dez longe de casa, fantoche de deuses e homens, no final ainda vê sua imagem convertida na caricatura de um burguês cuja principal preocupação, expressa entre baforadas de charuto, é com a racionalidade de seus atos.

Na verdade, o ensaio de Adorno e Horkheimer baseia-se num uso calculado do anacronismo. Não necessariamente ao buscar nos gregos o arquétipo do esclarecimento burguês - embora isso também precisasse ser discutido - mas quando atribuem a Homero um racionalismo que só se tornaria característica grega no período clássico e, sobretudo, quando reúnem elementos que a consciência homérica mantinha separados e, pelo contrário, separam atributos entre os quais essa mesma consciência enxergava uma necessária contigüidade.

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Assim é, por exemplo, a associação de Ulisses com a inteligência. É certo que o herói encarnou, desde sempre, o ideal grego de um tipo de inteligência. Não obstante, é preciso verificar o que se entende em Homero sob essa rubrica. Veremos logo que se trata, não da faculdade racional, do intelecto, mas da astúcia. É verdade que, a nossos olhos pós-hegelianos, a diferença parece insignificante - não se fala de uma astúcia da razão? Para os gregos do período homérico, entretanto, os dois termos ocupam extremos opostos do que não se poderia sequer descrever como uma reta. A razão, no sentido em que Adorno e Horkheimer empregam esse termo, a razão instrumental inerente ao projeto do esclarecimento burguês, os gregos a personificavam na figura de Palamedes, inventor do alfabeto, do cálculo e até da moeda, a santíssima trindade que depois sustentaria o modo de produção capitalista. Ora, tão distante está a razão instrumental da astúcia odisséia que Ulisses e Palamedes são mostrados pelo mito como inimigos ferrenhos: foi Palamedes quem obrigou Ulisses a participar da guerra de Tróia e, em troca, foi Ulisses que na primeira oportunidade tratou de mandar Palamedes para a morte. É preciso insistir nesse ponto: qualquer que seja o significado por atribuir ao engenho de Ulisses, ele representa a morte da razão instrumental.

Tendo isso em vista, boa parte da argumentação do Excurso I desmorona. O restante, por sua vez, não está em melhores condições, uma vez que depende de outra identificação problemática: a que torna os seres mitológicos uma encarnação das forças da natureza, temidas e inexplicadas para o homem primitivo. Esse lugar-comum sobre o mito, repetido à exaustão nos livros secundários de filosofia (Jostein Gaarder, por exemplo, perpetua-o no paparicado O Mundo de Sofia), origina-se daquela inesgotável fonte de clichês que foi o século XIX e já deveria ter sido aposentado faz tempo, junto com a morte térmica do universo e a glândula que produz o espírito. De fato, não há mitólogo que hoje a sustente seriamente. O mito constitui um universo mais complexo do que sonha a boa alma de Frankfurt, um amálgama de simbolismo arquetípico, alegoria e até história, tudo isso fundido à luz de estruturas fornecidas por uma modalidade própria de racionalidade, a seu modo tão rigorosa quanto a lógica aristotélica. Trata-se, sim, de uma descrição do universo, mas não a descrição ingênua do selvagem atemorizado pelo raio: é uma descrição simbólica (no sentido junguiano), alegórica (aqui, no sentido benjaminiano), enfim, uma descrição mítica - no mesmo sentido, já que falamos de Ulisses, em que o romance de Joyce é uma descrição mítica de Dublin no início do século XX. Para devolver a perspectiva correta à visão romântica que Adorno e Horkheimer se fazem do mito - e que tecnicamente é conhecida como animismo - basta lembrar aquele erudito novecentista citado, com a merecida ironia, por C. W. Ceram no clássico Deuses, Túmulos e Sábios. No momento mesmo em que Schliemann redescobria Tróia usando o poema homérico como guia, ele interpretava a Ilíada como a personificação de uma tempestade litorânea...

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