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25-03-2004

Reflexões sobre o elefante

imagens/elefanteAs ciências, as religiões e as filosofias são todas diferentes aproximações da realidade. Cada uma delas é totalmente válida no seu âmbito específico, mas quando elas extrapolam esse âmbito e tentam universalizar suas verdades particulares, a cagada é geral. É como na fábula dos seis cegos e o elefante, os cegos quebram o pau entre si, sem perceber que estão descrevendo a mesma coisa de diferentes pontos de vista: dependendo de onde se olha, o elefante realmente parece tanto um barril quanto um tronco de árvore ou um espanador...

Quando a ciência veste o manto da onisciência, geralmente é pra dizer que isto é impossível, aquilo não existe ou aquilo outro é bobagem. Já eu não acho que nada seja impossível, porque sempre se pode descobrir alguma lei ou princípio que torne qualquer coisa possível, por mais absurda que pareça. Quando a ciência se esforça pra ampliar o campo do nosso entendimento, eu tô com ela e não abro. Mas quando ela senta numa cátedra acadêmica pra pontificar que não podem cair pedras no céu porque não existem pedras no céu (isso aconteceu mesmo, e em pleno século XVIII), então ela não é em nada diferente dos eclesiásticos aristotélicos que se recusaram a olhar pelo telescópio de Galileu porque "já sabiam" o que iam ver lá.

A grande vantagem da ciência como método heurístico é sua abertura pro desconhecido, é saber que as respostas que ela tem são sempre provisórias, nunca a verdade absoluta. Qualquer lei científica hoje considerada universalmente válida pode acabar se revelando apenas um caso particular de uma lei mais ampla, como aconteceu com a força da gravidade na mecância de Newton, que Einstein acabou demonstrando que não é nem gravidade, nem força, mas uma deformação geométrica do espaço-tempo. Então, nenhum pronunciamento da ciência deve ser tomado como definitivo. Mas, na prática, muitos cientistas (e o próprio Carl Sagan é o melhor exemplo disso) vivem esquecendo desse caráter provisório da ciência, e falam como se ela tivesse a palavra final sobre qualquer assunto.

O problema é que o bom senso aristotélico acabou sendo substituído por um "bom senso científico" que pode ser igualmente falacioso. Ele se cristalizou em alguns princípios ideológicos, como o racionalismo (tudo pode ser compreendido pela razão), o realismo (as coisas têm uma existência independente de nós), o materialismo (todos os fenômenos têm uma causa material) e a causalidade (todo fenômeno é o efeito de uma causa da qual pode ser racionalmente deduzido). Durante muito tempo, o determinismo (se você conhece a causa, pode deduzir o efeito) também fez parte dessa lista, mas o princípio da incerteza deu um xeque-mate definitivo no determinismo. E algumas interpretações da mecânica quântica também colocaram o realismo, o materialismo e a causalidade na berlinda. Mas, no nível ideológico, o "bom senso científico" continua dominando.

imagens/scientist1A ciência trabalha sobre dados que, direta ou indiretamente, foram recolhidos pelo nosso sistema sensorial. Portanto, ela tem muito pouco a dizer sobre a realidade absoluta, se por realidade absoluta você entender o real em si mesmo, independente da percepção que temos dele. O que a ciência faz é descrever minuciosamente as regras e o funcionamento do mundo da nossa percepção, mesmo quando se estende até os limites da nossa experiência, como a física relativística e a física das partículas. A ciência não desvenda o véu de Maya - ela apenas nos diz qual é a sua composição e como ele opera. Essa distinção, aliás, já tinha sido estabelecida por Kant - a ciência se ocupa dos fenômenos, isto é, da realidade filtrada e modelada pelas nossas categorias apriorísticas do conhecimento. Já a realidade propriamente dita, que Kant chamava de númeno ou coisa-em-si, é outro babado completamente diferente. Kant dizia que ela é por definição incognoscível, porque se encontra fora do alcance das estruturas da razão. Eu não concordo inteiramente com Kant porque, diferente dele (e da ciência), não acho que a razão seja a nossa única ferramenta de conhecimento. Mas, de qualquer forma, os limites da razão demarcam também os limites da ciência. O que se encontra para além desses limites, a ciência limita-se a resvalar, como o contínuo quadridimensional do Minkowski e a equação de onda de Schrödinger, que apontam para uma realidade que é impossível de se conhecer diretamente (ninguém sabe o que é realmente o contínuo, nem o que é que a equação de onda de fato descreve). Não é por nada que, quando se chega nesses limites, o que os físicos dizem começa a se parecer com o discurso místico.

imagens/scientistO universo com que a nossa ciência lida é o universo da nossa experiência. Em última análise, a ciência é uma sistematização das informações captadas pelos nossos sentidos - mesmo quando auxiliados por instrumentos como o telescópio, o microscópio, etc., ela lida com o que podemos perceber direta ou indiretamente sobre o universo e sua tarefa é estruturar esses dados. As leis do universo são, portanto, as leis da nossa percepção do universo. A mecânica quântica e a teoria da relatividade tocam as fronteiras do universo da nossa experiência e, utilizando a matemática, nos mostram um vislumbre do que se encontra para lá dessas fronteiras: o contínuo espaço-tempo da teoria da relatividade, que não podemos perceber diretamente, e o estado de superposição coerente da mecânica quântica, que também não pode ser observado, mas apenas inferido. A minha impressão de leigo, na verdade, é que tanto o contínuo quanto a superposição coerente são duas descrições diferentes, feitas de dois pontos-de-vista diversos, da mesma realidade fundamental. E se a gente comparar, as propriedades que a física atribui tanto ao contínuo quanto à superposição coerente são as mesmas que os gnósticos atribuíam ao pleroma, isto é, à verdadeira realidade: em ambos os casos, eles se encontram além do espaço e do tempo convencionais (e "convencional" aqui é pra ser entendido ao pé da letra: nosso espaço e nosso tempo são construídos por convenções perceptivas), contêm em si todas as potencialidades simultaneamente e, neles, todos os opostos se reconciliam e coexistem.

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Comments

Devido ao tempo, apenas dei uma lida superficial no seu artigo.Mas, confesso que em muitos pontos tanto Carl Sagan ( meu ídolo ), concordaria com você, quanto eu mesmo.
Mudando de assunto - mas não muito -, os borgs da série Star Trek, possuem mentes coletivas ( o que não consegui descobrir até hoje - talvez por falta de empenho - foi como os borgs surgiram ), o que faz com que certamente percebam a "realidade" de modo bem diverso do ser humano, ou, dos "não-assimilados". Penso que este seria um assunto e tanto para um post no Franco-Atirador.

Lendo melhor o seu texto, acho dentro de um ponto de vista positivista, Stephen Hawking estaria de preno acordo com você. Leia esta dele:

"Não me preocupo se uma teoria científica descreva a realidade ou não, pois não sei o que ela é. Assim, acho que a tarefa da ciência deve ser a de desenvolver modelos cada vez mais elaboradas que possam ser testadas e estejam de acordo com a experiência."
Stephen W. Hawking ( físico, matemático e Cosmólogo ).

"Se confiarmos apenas em nossa percepção sensorial, teremos indiscutívelmente, razões muita bem fundamentadas para concruímos - sem sombra de dúvidas - que o Sol vira em torno da Terra, completando uma revolução a cada 24h. O difícil é explicar porquê Mercúrio nunca se distancia do Sol, se ele também há de virar em torno da Terra."
Francisco Maximiano da Silva

Saravá, Francisco!

>Devido ao tempo, apenas dei uma lida superficial no seu artigo.Mas, confesso que em muitos pontos tanto Carl Sagan ( meu ídolo ), concordaria com você, quanto eu mesmo.

Duvido que Sagan concordasse. Embora ele até tivesse um discurso parecido na teoria, na prática ele via, sim, a ciência como o árbitro supremo e a detentora da palavra final sobre qualquer fenômeno. Basta ler O Mundo Assombrado pelos Demônios pra perceber isso.

>Lendo melhor o seu texto, acho dentro de um ponto de vista positivista, Stephen Hawking estaria de preno acordo com você.

De pleno acordo eu não digo, porque Hawking é basicamente um racionalista. Ele não acredita que a ciência possa dar respostas definitivas sobre a natureza última da realidade, mas também acredita que nada mais possa. Então, com relação ao valor heurístico da experiência mística, Hawking discordaria totalmente. Mas, sim, com relação ao fato de o campo de aplicação da ciência ser o universo da nossa experiência, creio que ele estaria de acordo.

>Se confiarmos apenas em nossa percepção sensorial, teremos indiscutívelmente, razões muita bem fundamentadas para concruímos - sem sombra de dúvidas - que o Sol vira em torno da Terra, completando uma revolução a cada 24h.

Francisco, a ciência se apóia inteiramente sobre os dados da percepção sensorial. Estes entram de duas formas: como os dados brutos que o cientista coleta para elaborar sua hipótese e como verificação empírica da validade da hipótese. Não tem como escapar: a ciência começa ou acaba na percepção. Os próprios limites do universo do qual a ciência se ocupa - se você leu Uma Breve História do Tempo, vai saber disso - são os limites traçados pelo cone da luz visível. Qualquer coisa que escape a esses limites é, literalmente, meta-física (ou seja, encontra-se além da física).

Abs.
L.

Bom, não sei se você percebeu, mas na verdade eu sou estudante de física e matemática ( com boa parte destas ciências aprendidas de forma auto-didática ). Conheço muito bem o conceito de cones de luz. Mas será que alguma ocorrência metafísica ( metafísica esta, a qual muito recorro em meus poemas, se você chefou a ler alguns deles ), pode fazer-nos vislumbrar o que para além do nosso horizonte cósmico? Ou será que resposta pode ser encontrada pela própria física ou matemática, quem sabe numa fusão entre a física da entropia de informação, teoria de computação e cosmologia holográfica? De todo modo, vislumbrar através de uma experiência mística todos os possíveis estados quânticos de um sistema, e/ou, vermos o que há para além de nosso horizonte cósmico, me parece uma forma de paradoxo EPR. Tenho certa "fé", de que a gravidade quântica ( afinal Jão Magueijo, que também trabalha com isso ousou afirmar que a velocidade da luz pode variar com tempo, sendo dependente da estrutura da rede de spins casuais que compõe o espaço-tempo, discretizando-o, fazendo que portanto: a teoria de inflação cósmica possa estar errada ), desenvolvida por Lee Smolim e a beldade da Valdini Makapolou Kalamara ( acho ele bonita ), possa resolver esta questão, uma vez que me parece muito mais promissora, pois o espaço-tempo discreto ( com horizontes cósmicos e tudo o mais ) emergem da própria teoria, não sendo necessária um fundo pré-existente, como no caso da teoria das cordas. Mas afinal, como disse o próprio Smolin, talvez ambas as abordagens sejam formas diferentes de se chegar a mesma coisa.

Desculpe correção de grafia: Kalamara é uma mulher, portanto: "Acho ela bonita". Antes que alguém saia pensando coisas erradas a meu respeito.

Saravá, Francisco!

>Conheço muito bem o conceito de cones de luz. Mas será que alguma ocorrência metafísica ( metafísica esta, a qual muito recorro em meus poemas, se você chefou a ler alguns deles ), pode fazer-nos vislumbrar o que para além do nosso horizonte cósmico?

Você não entendeu. Eu não estou sugerindo que a experiência mística seja capaz de mostrar "o que está além" do cone de luz. A experiência mística lida com outro nível de percepção da realidade, que não tem nada a ver diretamente com o mundo físico. Usei o exemplo do cone de luz apenas para frisar que o conhecimento científico só vai até onde chega o universo da nossa experiência. Qualquer coisa que caia fora dessa experiência pode ser alvo de especulações, hipóteses (e a cosmologia é cheia de ambas as coisas), mas não pode, por definição, ser um objeto de conhecimento. É por isso, aliás, que boa parte dos físicos ortodoxos se sente desconfortável com conceitos como o tempo blocado da teoria da relatividade e a superposição coerente da mecânica quântica. Esses conceitos são pressupostos pela matemática da teoria - o tempo blocado é uma conseqüência inevitável do contínuo de Minkowski e a superposição coerente é uma decorrência da equação de onda de Schrödinger - mas apontam para realidades que não são passíveis de verificação experimental.

>De todo modo, vislumbrar através de uma experiência mística todos os possíveis estados quânticos de um sistema, e/ou, vermos o que há para além de nosso horizonte cósmico, me parece uma forma de paradoxo EPR.

Nope. Isso só ocorre se você entender a experiência mística como uma espécie de "visão à distância", o que não é o caso. A experiência mística não é uma percepção de realidades objetivas, mas de níveis de consciência. Uma vez que a realidade é criada pela nossa consciência, mudar o nível desta também afeta a percepção daquela, mas isso não tem nada a ver com perceber o que se passa nos confins do cosmo. De qualquer forma, o paradoxo EPR não é mais um paradoxo teórico, mas um efeito concreto. Quer os físicos gostem ou não disso, ele foi verificado experimentalmente por Alan Aspect na década de 80.

>Tenho certa "fé", de que a gravidade quântica (...), desenvolvida por Lee Smolim e a beldade da Valdini Makapolou Kalamara (acho ela bonita), possa resolver esta questão, uma vez que me parece muito mais promissora, pois o espaço-tempo discreto (com horizontes cósmicos e tudo o mais) emergem da própria teoria, não sendo necessária um fundo pré-existente, como no caso da teoria das cordas.

A gravidade quântica não anula o conceito de superposição coerente, muito pelo contrário: extrapola o conceito para o próprio espaço-tempo que, dessa forma, também existe normalmente em um estado de superposição coerente e assume as características definidas que percebemos mediante o colapso da função de onda. Ou seja, casa perfeitamente com a interpretação von Neumann/Wigner de que a realidade é criada pela consciência.

Abs.
L.

Salve Lúcio!!!

Há quanto tempo, meu jovem!
Minha Internet Voltou!

Antes, quero agradecer a recomendação sobre Jung e parabenizá-lo pela entrevista no Senhor do Caos (um que está no "favoritos" há um longo tempo). Mandou bem.

Ainda acho estranho descartar o racionalismo. A razão. Acho que essa razão que estamos tentando tanto exorcisar é apenas uma razão que provou-se ser extremamente irracional. Simplesmente não é racional, ao meu ver.

Lembro que a primeira vez que li sobre o Iluminismo. Fiquei encantado. Pensei "por que o mundo não virou uma utopia?"... engraçado...

Bem, irei parar de divagar. Estou cansado demais.

Abraço!

M.A. Lobato

Saravá, Lobato!

>Antes, quero agradecer a recomendação sobre Jung e parabenizá-lo pela entrevista no Senhor do Caos (um que está no "favoritos" há um longo tempo). Mandou bem.

Ainda bem que você gostou. E, precisando, disponha.

>Ainda acho estranho descartar o racionalismo. A razão. Acho que essa razão que estamos tentando tanto exorcisar é apenas uma razão que provou-se ser extremamente irracional. Simplesmente não é racional, ao meu ver.

Ah, mas ela é racional, sim. Exceto que o coração da razão, como eu argumentei no post sobre "A Formiga Engarrafada", é irracional. Pascal dizia que o coração tem razões que a razão desconhece. Podemos inverter a frase e dizer que a razão tem um coração que a razão desconhece - e não é racional. Mas isso é assunto pra todo um outro post. ;-)

Abs.
L.

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