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15-03-2004

Paycheck

É impossível ler o conto "Minority Report" sem pensar no filmaço que poderia ter sido se os roteiristas tivessem se mostrado mais fiéis ao espírito do original. Talvez o grande problema da adaptação dirigida por Steven Spielberg é que Spielberg acredita no sistema, e é para nos lembrar disso que, logo no início do filme, ele colocou um garotinho recitando a Declaração de Independência dos Estados Unidos. Para Spielberg, o sistema é fundamentalmente bom e são os indivíduos que o pervertem. Com isso, todo o pano-de-fundo político do conto de Philip K. Dick se dilui e o intrincado plot de conspirações dentro de conspirações é substituído pela ambição desenfreada de um único homem. Saímos do cinema frustrados, porque toda aquela pretensiosa reconstituição de um futuro plausível, toda aquela produção sofisticada, todo aquele talento, enfim - porque não se pode negar o talento de Spielberg - não conseguem esconder a superficialidade da história, e não chegam sequer a disfarçar os inúmeros buracos do roteiro.imagens/index_07

Como o filme de Spielberg, O Pagamento (Paycheck), que estreou no cinema sexta-feira, também só conserva o esqueleto do plot do conto de Philip K. Dick. Como Minority Report, o filme de John Woo também suaviza a temática política da história. E tanto Spielberg quanto John Woo apostam mais na beleza plástica das cenas do que no questionamento filosófico que elas poderiam ensejar. No entanto, Paycheck não deixa o espectador com aquela sensação de frustração. Por quê?

imagens/john_woo
Em primeiro lugar, talvez, porque John Woo não tenha as pretensões messiânicas de Spielberg. Eu não sei se ele acredita ou não no sistema - e o simples fato de chegarmos ao fim de O Pagamento sem saber disso já é uma mostra de seus méritos. Qualquer que seja a resposta, ela não paralisa a narrativa para fazer sermões explícitos ou implícitos de cunho moralizante. E não é que o diretor não tenha suas crenças bem definidas ou que as guarde na gaveta quando está filmando. É público e notório que John Woo é católico praticante e que uma de suas marcas registradas - a pomba branca voando em câmera lenta como signo da redenção do herói - é uma alusão assumida ao Espírito Santo. No entanto, a missão que ele tomou para si é a de contar uma história de forma eficiente, não a de transformar a tela de cinema em um púlpito. Sua cartilha parece ser a mesma de um lendário editor de ficção científica que, nos tempos áureos da Golden Age, detonava impiedosamente qualquer cagação de regra com a frase: "Se você tiver uma mensagem, mande um telegrama."

É por esse motivo que o filme apenas suaviza a premissa do conto, em vez de destruí-la completamente como ocorre em Minority Report. Essa premissa vem claramente enunciada lá pela metade da versão literária, pela boca do próprio protagonista, Mike Jennings: "An individual has no place to turn to, anymore. No one to help him. He's caught between two ruthless forces, a pawn between political and economic powers. And I'm tired of being a pawn." Como Woo privilegia a ação em detrimento de todo o resto, as discussões políticas passam para o segundo plano - mas estão lá. O Jennings do filme, como o do conto, é um peão pego no fogo cruzado entre duas forças impiedosas, o poder político e o econômico. E, cansado de ser um peão, resolve virar o jogo.

Em "Paycheck", o conto, Mike Jennings é um mecânico contratado para um serviço especial que durará dois anos e pelo qual será muito bem pago. A única ressalva é que, ao final desse período, ele terá sua memória apagada pela companhia, a fim de preservar o segredo sobre o trabalho que executou. Passados os dois anos, Jennings se dirige para o caixa, louco para botar as mãos na bolada, e descobre que não tem direito a nenhum centavo. Em vez do prometido cheque de quinhentos mil créditos, tudo o que ele recebe é um envelope com sete objetos absolutamente triviais: um pedaço de arame, uma passagem de ônibus, uma tira de pano verde, etc. Incrédulo, descobre que foi ele mesmo quem fez a opção de trocar seu pagamento por esse monte de cacarecos, antes que sua memória fosse apagada. Mas, já na saída do escritório da companhia, o pedaço de arame e a passagem de ônibus o salvam de ser preso pela polícia, que está atrás dele por razões que desconhece, e percebe que o monte de cacarecos está longe de ser inútil. De alguma forma, antes de sua memória ser apagada, ele sabia o que ia lhe acontecer no futuro e tomou providências para ter sempre à mão o que precisaria para se livrar dos problemas que já conhecia de antemão.
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Em "Paycheck", o filme, Mike Jennings é um engenheiro especializado em engenharia reversa, o que, em português claro, significa que ele é contratado por companhias para roubar tecnologia dos concorrentes e melhorá-la. Ter sua memória apagada ao final do serviço faz parte de sua rotina, e essa parte é executada por um parceiro, Shorty. Numa festa, Jennings encontra um ex-colega de faculdade, agora à testa de uma megacorporação, que lhe oferece um emprego excepcional: trabalhar em um projeto ultrasecreto da companhia em troca de um lote valioso de ações. Jennings nunca teve tanto tempo de memória apagada de uma só vez, mas aceita. Passados os três anos, Jennings se dirige ao banco, louco para botar a mão na bolada, e descobre que não tem direito a nenhum centavo. Em vez do prometido lote de ações, que agora valem noventa milhões de dólares, tudo o que ele recebe é um envelope com vinte, e não sete, objetos absolutamente triviais: um maço de cigarros, uma passagem de ônibus, um par de óculos, etc. Incrédulo, descobre que foi ele mesmo quem fez a opção de trocar seu pagamento por esse monte de cacarecos, antes que sua memória fosse apagada. Mas, já na saída do banco, é capturado pelo FBI, que está atrás dele por razões que desconhece. Só consegue escapar graças ao maço de cigarros, aos óculos e à passagem de ônibus, e percebe que o monte de cacarecos está longe de ser inútil. De alguma forma, antes de sua memória ser apagada, ele sabia o que ia lhe acontecer no futuro e tomou providências para ter sempre à mão o que precisaria para se livrar dos problemas que já conhecia de antemão.

Como dá para ver pelo resumo, o roteiro de Dean Georgaris - que antes só havia emplacado o roteiro de Lara Croft: The Craddle of Life, mas que também escreveu Missão Impossível 3, que está sendo filmado, e o remake de The Mandchurian Candidate, em fase de pós-produção - faz as mudanças necessárias para adaptar a história à linguagem do cinema de ação hollywoodiano e ao estilo de John Woo em particular, mas a premissa e o plot permanecem inalterados.

Se o saldo final vale ou não a pena, vai depender das expectativas com que você entra no cinema e do que você acha do estilo peculiar de John Woo, que está em cada fotograma de Paycheck: a beleza plástica das cenas de ação, minuciosamente coreografadas em função do rendimento estético, e não da verossimilhança (em determinado ponto, o herói abandona a metralhadora que estava usando para enfrentar uma tropa de seguranças no mano a mano), os símbolos religiosos jogados aqui e ali para pontuar a história (além da pomba do Espírito Santo, temos também o emblema do yin/yang chinês), o ideário deslavadamente romântico que, com outro tratamento, poderia escorregar na breguice de uma novela mexicana, etc. Eu, particularmente, gosto, e por isso Paycheck não me decepcionou.

Como adaptação de Philip K. Dick, no entanto, está longe de Blade Runner, Total Recall e mesmo de Impostor, que continuam sendo as melhores transposições da obra de Dick para o cinema, em que pese a presença de um Arnold Schwarzenegger totalmente não dickiano no segundo. Mas o título de melhor transposição do espírito de Philip K. Dick, que captura perfeitamente a inquietante estranheza, a sensação de irrealidade e a incerteza existencial de suas histórias, ainda cabe a um filme que não foi inspirado diretamente em nenhum livro de Dick: Videodrome, do diretor canadense David Cronemberg.

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Woo, é fantastico, gosto ver os seus filmes, também são fantasticos como ele,
ele forte e tem muito cuidado nos seus filmes....

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