O Outro Lado da Paixão
Metaphilm é um site de crítica de cinema, no sentido mais profundo do termo. Ele não oferece resenhas, mas interpretações. Não vai lhe dizer se vale a pena sair de casa num sábado à noite para ver o filme, não vai atribuir uma cotação de estrelas nem tem um bonequinho para aplaudir de pé ou dormir na cadeira. O que ele faz é destrinchar cada fotograma, enquadramento ou linha de diálogo, em busca de pistas para o possível significado simbólico do filme. Algumas dessas análises beiram o óbvio ululante, outras são tão estrambóticas que, perto delas, a leitura que Quentin Tarantino faz de Ases Indomáveis na única cena antológica de Vem Dormir Comigo parece um exercício de bom-senso. Entre esses dois extremos, no entanto, muitas das interpretações do site dão o que pensar. E simplórios, ridículos ou sofisticados, os ensaios do Metaphilm pelo menos têm a vantagem de sempre tentar olhar para os filmes do ângulo menos óbvio.
E não é que, em meio à tempestade de polêmica e acusações de anti-semitismo, alguém por lá teve a coragem de defender The Passion of the Christ? E o que é pior - com argumentos que, ao menos para quem ainda não viu o filme e tem de se basear no talk of the town, soam bastante convincentes. Mas serão mesmo?
Os olhos do ladrão. - De acordo com o autor do artigo, The Passion responde antecipadamente a todas as acusações de anti-semitismo feitas contra o filme: "Pedro é representado por um bom rapaz judeu da vizinhança, e sua fisionomia, que é o estereótipo do judeu, parece ser a forma de Mel nos lembrar do óbvio - que todos os discípulos eram judeus, que está é, de fato, uma narrativa judia, uma peça da história judaica, tanto quanto ou mais do que um artefato de propaganda ou piedade católica." Ele cita ainda outros cenas em que ficaria claro que a intenção de Mel Gibson não é responsabilizar os judeus pela morte de Cristo, mas toda a humanidade, além de mostrar que os romanos não são, no filme e ao contrário do que seus detratores propagam, mostrados como algozes inocentes.
O editor do Metaphilm também se esforça por demonstrar que as acusações de falta de sutileza imputadas ao diretor de Braveheart e O Troco (atribuído a Brian Helgeland nos créditos mas, de fato, dirigido por Gibson depois que ele e Helgeland se desentenderam durante as filmagens) são igualmente infundadas:
"Um momento simbólico de impacto vem quando focalizamos os dois ladrões crucificados a cada lado de Cristo. Em uma cena chocante, o ladrão que renega Cristo tem seus olhos perfurados por um corvo negro. O corvo é uma das aves associadas à morte na alquimia, e um bocado de metafísica ocorre nessa única cena. Os olhos são as janelas da alma, e a falta da mesma no ladrão é indicada pela remoção de seus olhos. Os olhos sendo perfurados também deixam claro que este ladrão em partícular não consegue 'ver' quem Cristo realmente é (...). Finalmente, pássaros que predam organismos maiores do que eles mesmos sempre bicam os olhos primeiro para confirmar o status mortal de suas vítimas, e assim esta cena revela que este ladrão já está (espiritualmente) morto."
O Evangelho segundo Mel. - Por outro lado, o Mel Gibson a quem o autor atribui esse amplo domínio do subtexto é o mesmo Mel Gibson que, tempos atrás, ao saber de uma crítica negativa de Frank Rich, do The New York Times, disse que tinha vontade de arrancar seus intestinos e pendurá-los numa estaca - além de matar seu cachorro. Mais tarde, numa entrevista a Jay Leno, Gibson declarou que perdoava o jornalista, que sua resposta raivosa não tinha nada de pessoal (!) e ainda teve a cara-de-pau de acrescentar: "Você tenta executar um ato de amor mesmo para aqueles que o perseguem, e eu acho que essa é a mensagem do filme." Quem comenta essa declaração é o próprio Frank Rich:
"Assim, nós vemos o evangelho segundo Mel. Se você critica seu filme e o ataque aos judeus com o qual ele o promoveu, você o está perseguindo - por todo o caminho até o banco. Se ele diz que quer você morto, que quer 'pendurar' seus intestinos e que gostaria de matar seu cachorro - tal foi a fatwa dele contra mim em setembro -, não só não há nada de pessoal nisso como é um ato de amor. E essa é, de fato, a mensagem de seu filme. The Passion tem mais amor por colocar os intestinos de Jesus em um poste do que em dramatizar seus ensinamentos divinos, que são relegados a uns poucos e breves flashbacks crípticos."
Rich também tem uma ou duas coisinhas a dizer sobre o fato de que o filme coloca todos - judeus, romanos, a humanidade - no mesmo barco perante o assassinato de Cristo:
"Não há como questionar que ele reescreve a história, tornando Caifás e os outros alto-sacerdotes os principais instigadores da morte de Jesus, ao mesmo tempo em que suaviza Pôncio Pilatos, um infame assassino romano, transformando-o em algo como um executor mordido pela consciência. [...] Como se isso não fosse o bastante, os alto-sacerdotes judeus também são mostrados como sádicos ferozes, com narizes e dentes feios - Shylocks e Fagins do estoque do século 19. (O único judeu com um nariz bonito nessa Judéia é Jesus.)"
Dialética absurda. - O jornalista cita ainda a entrevista de Elaine Pagels à revista The New Yorker desta semana. Pagels é uma renomanda especialista na história do cristianismo e seu livro sobre Os Evangelhos Gnósticos é leitura obrigatória para qualquer um que se interessa pelo tema. Acostumada a revirar os Evangelhos de ponta-cabeça em busca de significados embutidos no texto, e a interpretar o intrincado simbolismo das escrituras gnósticas, ela seria a pessoa indicada para encontrar as sutilezas que o editor do Metaphilm aponta. A profª Pagels, contudo, saiu de The Passion chocada.
"Mel Gibson nega qualquer anti-semitismo, e eu não sou capaz de analizar suas motivações", declarou Pagels ao crítico David Remnick, "mas existem mecanismos narrativos que são claros. Quanto mais benigno Pilatos aparece no filme, mais malignos são os judeus. Desviar a responsabilidade dos romanos por prender e executar Cristo, o que Gibson tomou dos Evangelhos e tornou ainda mais extremado, é contrário a tudo o que sabemos de história. É implausível que os judeus pudessem ser os responsáveis e Pilatos, um governador benigno. Há muitos exemplos no filme de uma dialética absurda: os maus judeus e os bons romanos. Quando a polícia do Templo prende Jesus, Maria Madalena se volta para os romanos, como se eles fossem os policiais do quarteirão, protetores benignos da ordem pública. Mas a própria idéia de uma mulher judia se voltando para os soldados romanos para pedir ajuda é ridícula."
Pagels lembra que Pilatos não foi nem de longe o homem gentil e sofisticado que aparece no filme, obrigado a ceder à Crucificação pela pressão dos sumo-sacerdotes judeus, mas um governador corrupto e sanguinário, cujos feitos foram relatados com horror por seus contemporâneos: "Nosso primeiro comentário bem-informado sobre Pilatos vem de Filo de Alexandria, um rico e influente cidadão judeu, que fez parte de uma delegação enviada a Roma para negociar com o imperador. A delegação encontrou o Imperador Calíngula no ano 40, de sete a dez anos depois da morte de Jesus, e Filo escreve que Pilatos era obstinado, cruel e rotineiramente ordenava execuções sem julgamento. " A esse retrato nada lisongeiro, o historiador Flávio Josefo acrescenta que Pilatos também roubava o tesouro público, e que costumava incitar deliberadamente os judeus à revolta, apenas para poder mandar seus soldados assassiná-los quando explodia o tumulto.
É assim que foi. - De acordo com as pessoas que já viram o filme, não se vê nem sombra disso em The Passion, em que pesem as repetidas declarações do diretor sobre a "acurácia histórica" de sua obra e a suposta declaração do Papa ao recomendá-la a todos os cristãos como "uma experiência espiritual", dizendo: "É assim que foi." (Como se João Paulo II, infalibilidades papais à parte, estivesse lá para ver.)
Apesar das boas intenções do editor do Metaphilm, portanto, e de sua louvável tentativa de se elevar acima da polêmica para ver The Passion sem preconceitos, tudo indica que a ode de Mel Gibson a sua versão particularmente reacionária do cristianismo é mesmo aquilo tudo que se esperava - ou temia. Só saberemos com certeza quando o filme estrear por aqui e pudermos conferir com nossos próprios olhos, mas o mais provável é depararmos com aquela dialética absurda de que falava a profª Pagels. A menos, claro, que antes disso Mel Gibson pendure nossos intestinos numa estaca.
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