'Nuf Said - PoétiKaDick
Traduzido de Lawrence Sutin, The Divine Invasions, pp. 136-138.
Outro escritor de FC de quem Phil tornou-se amigo foi Ron Goulart. E durante o verão de 1964, Phil mandou para Goulart uma longa carta que chega tão perto de um esquema definido para a construção de romances quanto Phil jamais escreveu. O que não significa que qualquer um dos romances se enquadre perfeitamente no esquema proposto na carta - Phil podia descartar qualquer plano no curso de sua datilografia frenética. Mas a carta é esclarecedora quanto às estratégias que entravam na criação dos mundos phildickianos de múltiplos pontos-de-vista. Também é formidável que a carta tenha sido escrita durante um bloqueio de escritor - talvez ela tenha ajudado Phil a reafirmar para si mesmo que ele poderia fazê-lo de novo.
Nos primeiros três capítulos, diz Phil, você introduz três personagens-chave. No Capítulo Um vem:
O primeiro personagem, não protagonista mas "sub-humano", isto é, menor do que a vida, uma espécie de homem comum que continua existindo ao longo do livro mas que é, bem, passivo; nós aprendemos sobre o mundo inteiro ou o pano-de-fundo enquanto o vemos agindo sobre ele; é "o cara que tem que apanhar as contas", o Mr. Pagador-de-Impostos, etc. Okay. Em termos dramáticos, nós obtemos pouco dele, mas o mais importante é que vemos o mundo que estamos prestes a habitar, e aqui o romance diverge do conto: não é uma progressão dramática culminando em uma Cena ou Crisis, mas, como eu disse, um mundo inteiro... "com todos os buracos preenchidos", como diz José Ortega y Gasset.
No Capítulo Dois vem o "protag", que tem um nome multissilábico como "Tom Stonecypher", em oposição ao rótulo monossilábico "Al Glunch" para o "sub-humano" do Capítulo Um. O protag
trabalha para - e aqui vem o Instituto, a organização ou a empresa ou - bem, quase qualquer coisa, contanto que forneça o seguinte: ela nos diz o que Mr. S. faz, e o que ela faz: sua função. Também aprendemos isto: a vida pessoal (ou privada ou doméstica) de Mr. S. Seus problemas conjugais ou problemas sexuais ou o que quer que preocupe unicamente a ele, e não à grande corporação para a qual trabalha... assim, nós não temos mais pano-de-fundo ou massa ou abstração aqui; nós temos o imediato, o agora, isto e não aquilo; o problema é urgente e envolve mais alguém, tal como uma esposa, um irmão, etc. Percebe?
No Capítulo Três vem uma figura que paira acima dos dois primeiros em estatura, e o escopo da novela é transformado:
Nós mudamos de pista e aqui começamos a desenvolver [a história] de uma forma proibida para uma peça curta. Continuamos com ambos, Mr. S. e o sub-humano Mr. Glunch... em um certo sentido. Mas, em outro sentido, embora tecnicamente sigamos em frente com Mr. S., nós estamos em uma outra dimensão, aquela do super-humano. Este é o problema dos grandes Eles, por exemplo, uma invasão da Terra, outra raça senciente, etc., e é através dos olhos e ouvidos de Mr. S. que pela primeira vez temos um relance dessa realidade super-humana - e o ser humano, devemos chamá-lo de Mr. Ubermensch?, que habita esse domínio; [...] assim como Mr. G. é o pagador de impostos e Mr. S. é o "eu", a pessoa média, Mr. U. é o Sr. Deus, Mr. Big. [...] Ele é Atlas carregando o peso do mundo, por assim dizer, não importa se mau - e ele bem pode ser barra-pesada - ou bom; em qualquer caso, o poder trouxe responsabilidade, e isso o machuca; seu peso o envelhece... contudo, ele é grande o bastante para ocupar este alto escalão; ele pode resistir; ele é suficiente.
Phil sublinha que "toda a linha dramática do livro depende do choque entre Mr. U. e Mr. S.". Um primeiro relance desse impacto é dado no Capítulo Três. "Nós entramos fundo em um livro agora, e não num mero conto [...]", devido ao jogo recíproco entre os três personagens. É o destino de Mr. S. "evoluir dramaticamente ao longo de um caminho que o arrasta para um confronto direto com Mr. U. - e conseqüentemente a opção de decidir em que direção as Coisas - isto é, Mr. U. - irão no final, na seção da crisis, recai sobre Mr. S.".
E agora vem a grande fusão de mundos para onde a narrativa vinha apontando:
Mr. S., no cap. ii, achava que tinha problemas (e tinha: pessoais). Mas olhe só para ele agora, no cap. iv. Ele tomou uma parte do peso de Atlas sobre ele: um salto e tanto. E: o problema original, pessoal, não desapareceu; de fato, ele piorou. Assim, temos um verdadeiro contraponto, dois problemas, o primeiro, pessoal, lado a lado com o último, do tamanho do mundo, cada um ferindo, machucando ou ampliando o outro.
E o grande momento dramático vem por fim quando Mr. U., agora profundamente envolvido com Mr. S., entra na área do problema pessoal originalmente estabelecida para Mr. S. E assim, num certo sentido, na última parte do livro, os dois mundos, ou problemas ou linhas dramáticas, se fundem.
O drama é amplificado pelo total entrelaçamento:
Dessa forma, o mecanismo estrutural final se revela: O PROBLEMA PESSOAL DE MR. S. É A SOLUÇÃO PÚBLICA PARA MR. U. E isso pode ocorrer quer Mr. S. esteja com ou contra Mr. U.; vê quantas variedades profundamente diferenciadas se apresentam estruturalmente por si mesmas? (Por exemplo, e se Mr. S., depois de "trabalhar para" Mr. U. por um período e se demitir dramaticamente - voltando-se contra ele para juntar-se à PPI ["Phenotype Products., Inc.", ou qualquer outra companhia "de valor moral duvidoso" que tiver sido inventada] em sua luta para sobreviver - tiver voltado de novo para seu velho chefe?
Phil sugeriu um "desenvolvimento dramático final" possível na forma de um choque de algum tipo entre Mr. S. e Mr. U., com este último perecendo a despeito de seu grande poder. Mas "Mr. S. sobrevive, e tudo está bem... exceto por alguns finais vagos, deixados deliberadamente em aberto: Mr. S. pode ter resolvido seus problemas pessoais ou os problemas do mundo - mas, o que quer que tenha sido resolvido neste livro - o outro, ironicamente, fica ainda pior... e aqui nós saltamos fora". A Terra foi salva das "Demolidoras Ervilhas Gigantes de Betelgeuse IV, afinal de contas... de modo que podemos relaxar e curtir o mundo com calma ao lado de Mr. S."
A "coda" é um último relance de Mr. G. - "como vai ele... ele que foi quase esquecido em meio a todo o turbilhão?" Praticamente o mesmo, embora possa estar num emprego ligeiramente melhor. (...)
De qualquer forma, meu caro, é assim que PKD extrai 55.000 palavras (a milhagem adequada) de sua máquina de escrever: tendo 3 pessoas, 3 níveis, 2 temas (um exterior ou do tamanho do mundo, o outro interior ou do tamanho do indivíduo), misturando todos e então, no final, uma última nota humana. É essa, por assim dizer, minha estrutura. 'Nuf said.
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