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15-03-2004

A Formiga Engarrafada

imagens/la_persistencia_de_la_memoria

O que torna a formiga um símbolo tão adequado da razão, em especial da razão instrumental (há outra?) é a conotação de previdência - portanto, otimização, raciocínio lógico - e atividade industriosa que lhe é associada. Lembremos que a razão, pelo menos para a ciência ocidental, é o que permite prever e controlar os fenômenos. Não existe razão sem um alto grau de formalização, redução dos fenômenos a categorias, conceitos, formas padronizadas, e talvez não seja coincidência o paralelismo entre os termos latinos formica, "formiga", e formo, "dar forma a, formar, representar, figurar" e ainda "instruir, ensinar" e "compor, escrever, redigir", que se inscrevem no mesmo campo semântico que o logos, razão e palavra.

imagens/FormigasEssa analogia entre a formiga e a razão permite ver com outros olhos a alegoria do budismo tibetano, onde a formiga é um emblema "de vida industriosa e do apego excessivo aos bens deste mundo", que é a moral da fábula de LaFontaine e, ao mesmo tempo, o que deve ser superado na perspectiva budista. No mesmo sentido vai o hinduísmo, que lê na formiga "a pouca valia dos viventes, votados, individualmente, à mediocridade e à morte, se não buscam identificar-se com Brama, o infinito da pequenez evocando o infinito da divindade".

Assim, as formigas engarrafadas do quadro de Dalí talvez figurem a razão contida, limitada em seu devido lugar. Razão que é inábil para apreender o tempo que se dissolve em sua própria fluidez.

Por outro lado, formica também é foneticamente próxima a formido, que permite acompanhar esse símbolo numa outra direção. Porque formido, de onde saiu nosso adjetivo "formidável", significa aquele terror sagrado que Rudolf Otto qualificou de numinoso, o terror que surge na presença do absolutamente transcendente, o Totalmente Outro que é a matriz dos deuses e de-mônios com que sonha a humanidade.

Formido designa não apenas o sentimento, como também o objeto que o suscita. Daqui a pouco, os dogon africanos ensinar-nos-ão qual pode ser esse objeto. De momento, lembremos que há quem veja na razão uma função apotropaica, des-tinada a exorcizar o irracional, e observemos que esse irracional talvez seja inerente à razão mesma, a qual seria incapaz de abarcar seu próprio núcleo. Da mesma forma como o significante não se significa, a razão seria igualmente irracional, quer dizer, não seria apta a racionalizar a si mesma.

imagens/athena
Ter-se-á notado que a razão é sempre personificada como feminina? Em que pesem as denúncias feministas e pós-estruturalistas do logocentrismo como correlato ao falocentrismo, apesar de Jung atribuir o masculino ao logos e eros ao feminino, vertentes que inspiraram a saga pirotécnica de Camille Paglia sobre como o racionalismo do macho opõe-se e se afasta do úmido ventre ctônico da na-tureza, o que ressalta mesmo é a dée Raison dos iluministas franceses. Seria um erro simplificar a questão e dizer que essa personificação se deve ao fato de a palavra razão ser do gênero feminino. Porque, em grego, logos é masculino e, não obstante, a Razão também aparece no poema inaugural de Parmênides como uma deusa, que aliás reveste-se dos atributos de Palas Atena. E é de Palas Atena que, segundo a mitologia grega, origina-se a formiga, a qual, nos dizem os mitos, era inicialmente uma mulher, Myrmex, por quem a deusa Razão se apaixonou. Myrmex, porém, era egoísta e mentirosa, e atribuiu a si a invenção do tear que, na verdade, havia sido criado por Atena. Assim, irritada, a deusa transformou-a em formiga. Guardemos o tear na memória - nós o reencontraremos daqui a alguns parágrafos.

Não seria H. L. Mencken que negaria haver algo de feminino na razão: "As mulheres, na realidade", escreveu ele em 1921, "não são apenas inteligentes, também detêm quase um monopólio das formas mais sutis e úteis de inteligência." Mencken foi o primeiro a observar o que só recentemente foi confirmado pela psicologia experimental, a saber, que aquilo que os homens ingenuamente chamam de intuição feminina é, na verdade, "uma aguda e acurada percepção da realidade, uma imunidade natural ao encantamento emocional e uma incansável capacidade para distinguir entre aparência e substância". Conforme Mencken, essa pretensa intuição seria uma invenção masculina para evitar reconhecer a superioridade intelectual da mulher: "Quer dizer, ele sabe por experiência que o juízo dela em assuntos de importância capital é mais sutil e penetrante que o dele - mas, relutante em creditar essa maior sagacidade a uma inteligência mais competente, ele se refugia na doutrina de que, nela, isto se deve a algum talento impenetrável e intan-gível para avaliar corretamente; uma espécie de sensibilidade meio mística ou um vago instinto, em essência, infra-humanos." Daí a conclusão de Mencken: "As mulheres são as supremas realistas da espécie. Aparentemente ilógicas, elas detêm uma superlógica rara e sutil."

Talvez por isso na cosmogonia da tribo dogon, de Mali, "o verbo e seu suporte material, a técnica de tecelagem", saíram de um formigueiro que, para eles, era ao mesmo tempo uma boca e a vagina da terra. De fato, na África inteira encontra-se essa associação entre o sexo feminino e o formigueiro. É curioso que, de acordo com a mitologia africana, as formigas tenham dado às mulheres a tecelagem (entendida como suporte material do verbo), porque Freud também achava que essa técnica tivesse sido descoberta pelas mulheres. E já vimos lá em cima que os gregos também estabeleciam uma relação direta entre o tear e a formiga, a mulher e a razão. Comentando essa idéia, escreve o filósofo e psicanalista francês Paul-Laurent Assoun: "Baseou-se numa analogia com o corpo castrado da mulher: a própria imagem do sexo feminino é que teria despertado a tekné mediante o enlaçamento das fibras, numa imitação dos pêlos enraizados na pele."

Ora, foi a partir da concepção psicanalítica da feminilidade que Lacan desenvolveu a tese de que a mulher, como o real, escapa ao menos parcialmente à lógica do significante, da qual depende em última análise a razão. Formiga e mulher, quase como símbolo e simbolizado (na medida em que se pode simbolizar o que não pode se significar), inscrevem-se, pois, naquele ponto paradoxal em que a razão revira-se sobre si mesma e revela seu núcleo irracional, que Lacan procurou algebrizar com o matema do Outro barrado, tesouro dos significantes que, entretan-to, não conseguem dar conta dele mesmo.

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Comments

Saravá, Francisco!

Ah, agora sim! Dá pra escrever sem ficar de olho no contador de caracteres e com direito a todo o html que a gente precisar... ;-)

>Não julgo competente, para responder que a razão pode compreender à si mesma. Mas, ao menos, é a que podemos no momento considerar como a mais eficaz ferramente produzida pela seleção natural, para compreendermos o cosmos ao redor.

Aí é que está, Francisco: a razão não foi desenvolvida pela seleção natural para compreendermos o cosmos ao redor. Até podemos tentar usá-la pra essa finalidade (e é o que fazemos, claro), mas a seleção natural está-se nas tintas para a compreensão do cosmos. Ela só se interessa pela sobrevivência, no sentido mais imediato do termo. A razão foi moldada pela seleção natural porque dotava o animal que depois se tornaria o ser humano de uma flexibilidade maior para obter comida, escapar dos predadores e se proteger das intempéries. Ela tem um escopo eminentemente prático. Por isso, quando Adorno e Horkheimer, na Dialética do Esclarecimento, arengavam que a razão instrumental era uma perversão da "verdadeira" razão, eles não faziam idéia do que estavam falando: a razão sempre foi, desde o começo, razão instrumental. Sua capacidade de avaliação e cálculo é estritamente utilitária: não está voltada para o que é ou não a verdade (seja lá o que for isto), mas para o que é mais vantajoso para o indivíduo. A especialidade da razão é a relação custo-benefício. E olha só que interessante, em O Gene Egoísta, o Richard Dawkins desenvolve a tese (que, por si só, mereceria um post) de que o pensamento se originou da capacidade de simulação. Se você cruzar isso com as descobertas do Humberto Maturana sobre o fechamento do sistema nervoso, a conclusão inevitável é que a razão se move unicamente dentro de um universo de simulações e, portanto, ela não dá acesso ao real. O cosmos que ela compreende não é o mundo real, mas um universo de representações geradas pelo cérebro.

>Com isso, não quero afirmar que somente os humanos são capazes de preverem eventos, ou de pensamentos abstratos; experimentos desde a década de 70 têm demonstrado que chipanzés são capazes de aprender liguagem de sinais, e montarem frases relativamente criativas, mais ao menos no nível de inteligência de uma criança humana ( "Os Dragões do Édem" de Carl Sagan ).

Segundo as descobertas mais recentes, a grande diferença genética entre humanos e chimpanzés está nos órgãos da fala. A capacidade dos chimpanzés de articularem o pensamento em uma linguagem coerente é fisicamente limitada. Como o pensamento é, basicamente, linguagem internalizada, uma capacidade de fala mais ampla permitiu ao cérebro do homem se desenvolver mais, enquanto a limitação fônica dos chimpanzés funcionou como uma trava, impedindo seu cérebro de crescer mais. Os chimpanzés também parecem ser dotados de um certo grau de autoconsciência (são poucos animais que possuem a autoconsciência: além do homem e dos chimpanzés, tudo indica que os orangotangos e os cetáceos são as únicas outra espécies que têm um senso de eu pessoal), mas, devido às mesmas limitações da fala, essa autoconsciência também é limitada - lembre-se que o eu é basicamente um discurso interno sobre si mesmo.

> Quanto a iventividade e conotações com relação à terra e o sexo femino, isso parece ter suporte na psicologia evolutiva ( você sabia que as ancas largas das garotas parecem ter se desenvolvido para sermos mais inteligentes? ).

Não leve a mal, mas eu não dou muita bola pra psicologia evolucionista, não. ;-) Mesmo os autores que serviram de inspiração pra essa linha de pensamento, como o Richard Dawkins e sobretudo o Noam Chomsky, têm sérias críticas a essa escola que, basicamente, apresenta dois problemas:

- Primeiro, ela é toda construída em cima de inferências indemonstráveis. Do ponto de vista da metodologia científica, isso não tem o menor valor. Inferências e suposições são bons pontos de partida para gerar hipóteses de trabalho, mas uma teoria só se torna realmente científica quando ultrapassa esse estágio e encontra maneiras de testar concretamente as hipóteses. É o que o Karl Popper chama de "critério de falseabilidade": uma boa teoria tem que ser capaz de prever as condições que poderiam demonstrar se ela é verdadeira ou falsa. A maior parte das hipóteses da psicologia evolucionista fracassa vergonhosamente nesse critério.

- Segundo, e mais sério, por uma estranha coincidência, as inferências da psicologia evolucionista quase sempre acabam justificando os preconceitos da sociedade patriarcal ocidental. Por exemplo, elas tentam encontrar uma explicação "biológica" para a submissão da mulher ao homem, dizendo que isso era porque na pré-história era o homem que saía para caçar enquanto a mulher ficava em casa, cuidando da prole. E deduzem daí toda uma explicação para a passividade "biológica" da mulher. Tudo isso faz muito sentido no papel - exceto que os antropólogos constataram que a submissão da mulher não é um traço universal, e que existem diversas sociedades (como, por exemplo, os indígenas das ilhas Tobriand, estudadas pela Margareth Mead) em que os papéis masculinos e femininos, que para nós são "naturais", se invertem totalmente: os homens são passivos, as mulheres são mais ativas. E existem evidências arqueológicas de que mesmo na nossa civilização, essa distribuição de papéis não é a mesma desde a pré-história: há fortes indícios de que, no período neolítico, as sociedades européias viviam num regime de matriarcado, em que as mulheres eram dominantes e ao homem cabia apenas o papel de procriador.

Em resumo, na maior parte dos casos, as hipóteses da psicologia evolucionista não passam de fantasias com um forte viés ideológico.

E eu vou ficando por aqui, porque o meu tempo também acabou. ;-)

Abs.
L.

Olá! Obrigado pelos esclarecimentos.
Já que você - devido ao tempo - não falou nada sobre o "tear do tempo", penso que seria interessante um post sobre tal questão. Talzez, o tempo seja como um novelo de lã, onde há sem dúvida curvas muita acentudas, que até parecem retornar ao mesmo ponto ( o que Hawking chama de, "anel de tempo" ), mas se observamos bem, isso não aconte; o fio enrolado sobrepõem-se ( o que faz lembrar as branas ), e assim, quanto mais enrolamos o fio, mais o novelo aumenta. Cabem ainda lembrar que, microscópcamente o fio é descontínuo ( constituído por moléculas e átomos ); por que não valeria o mesmo para tempo? Mas, como admiti a hipótese de o fio possuir curvar fortes, e enrolar-se sobre si mesmo sem de fato retornar ao mesmo ponto; perguntaria: Quem enrola o fio do tempo? Será que existem mesmo três deusas gregas tecendo a trama da história?

ADOREI!!!
Enfim alguém escreveu sobre a formiga!
Bjo,
Lu

Rárárá! A formiga, essa injustiçada...

Bjs.
Malprg

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