O Cair da Noite
Crianças, não chorem. A festa aqui acabou, mas tem outra começando anoitã em http://anoitan.wordpress.com/, com muito mais convidados e sem hora pra acabar.
Espero vocês lá.
Crianças, não chorem. A festa aqui acabou, mas tem outra começando anoitã em http://anoitan.wordpress.com/, com muito mais convidados e sem hora pra acabar.
Espero vocês lá.
Ok, feitas as despedidas, vamos às explicações.
Mês passado, O Franco-Atirador completou exatos sete anos de existência. Não vou torrar a paciência dos meus Vinte Fiéis Leitores recapitulando todo o simbolismo do número sete. Basta dizer que sete anos é o tempo que leva para todas as células do corpo se renovarem e que, como vocês já estão carecas de saber, sete são as esferas dos arcontes, os chakras e os degraus da escada planetária. Várias sincronicidades que ocorreram nos últimos meses me levaram à conclusão, devidamente confirmada pelo Velho Sábio Chinês, de que tudo isso quer dizer uma só e a mesma coisa: o prazo de validade deste blog expirou, "Malprg" também já ultrapassou seu tempo de vida útil e minhas tolas tentativas de ignorar os sinais sutis dessa morte anunciada só tiveram como resultado produzir sinais cada vez menos sutis. Os deuses conduzem suavemente pelas mãos os que se deixam levar, mas arrastam pelos cabelos os que se recusam a seguir.
A verdade é que O Franco-Atirador cumpriu, e bem, a função a que se destinava quando eu comecei, mesmo que quando eu comecei eu ainda não soubesse que função seria essa. Durante estes sete anos, o blog foi um espaço valioso, onde pude testar cálculos extraordinários e hipóteses estranhas, desenvolver idéias estrambóticas e, principalmente, trocar informações. Revelou-se uma ferramenta imprescindível para o meu processo de individuação e uma forja onde as minhas visões de mundos puderam ser moldadas e depuradas. A maior e mais grata surpresa, porém, foi descobrir que não estava sozinho, que há outras pessoas percorrendo caminhos semelhantes e falando a mesma língua. Faço votos para que, de alguma forma, tudo isso também tenha sido útil para vocês.
Mas, de uns tempos para cá, o projeto do Franco-Atirador começou a me parecer restritivo, uma mistureba de alhos com bugalhos que, em vez de liberar a imaginação, acaba por manietá-la. Por isso, depois de ponderar muito, decidi acabar com O Franco-Atirador e substituí-lo por uma outra coisa, talvez outros blogs, com temáticas mais diferenciadas. Mas ainda estou trabalhando nisso, o caminho a seguir não está totalmente claro e a coisa vai tomando forma no meu espírito aos poucos.
O fim do Franco-Atirador, porém, não significa um adeus. Meus Vinte Fiéis Leitores provavelmente devem ter notado que o perfil do blog já vem se modificando há algum tempo. Com os longos intervalos entre os posts, o eixo de gravidade foi se deslocando dos textos para os comentários trocados entre os leitores. Atualmente, é essa a parte mais viva, ativa e vibrante do blog, seu verdadeiro coração: um ponto de encontro entre pessoas com interesses semelhantes mas, graças ao Bom Deus, não idênticos, o que estimula a discussão, o debate e a troca. Não gostaria que o falecimento do blog pusesse um fim a essa troca, e imagino que (pelo menos alguns de) vocês também não.
Por esse motivo, como a última vontade de um moribundo ("Malprg", não Lúcio, bem-entendido), gostaria de pedir que vocês dedicassem um minutinho para responder à pesquisa abaixo, a fim de, juntos, estudarmos a melhor maneira de preservar o que tem de ser preservado quando this mortal coil passar desta para melhor:
Além disso, estou selecionando os posts mais relevantes do Franco-Atirador para publicar uma coletânea em forma de ebook - assim, o trabalho feito até aqui não se perde, o que não faria o menor sentido depois de sete anos de dedicação a estas páginas.
Diante do que, só me resta agradecer a atenção de todos e esperar que pelo menos alguns de vocês continuem por aqui na próxima etapa dessa jornada. Foi uma honra e um privilégio partilhar este espaço com vocês, e espero não ter pentelhado além da conta.
Um vento dançarino agita a poeira lunar, soprado pela embarcação que pousa suavemente no centro da cratera de Heráclito. No lado direito do casco, letras vermelhas que brilham como um LASER anunciam o nome do navio: PANTA REI. Não poderia haver nome mais adequado, pensa Malprg, com uma pontada de nostalgia redemoinhando por entre os pensamentos.
- Está chegando a hora - diz o velho ao lado dele, cofiando a barba alaranjada, a barra da túnica rastejando no solo empoeirado.
- É, eu sei - responde Malprg, sem tirar os olhos da proa do navio, onde uma mulher de madeira tenta tocar as estrelas com a ponta dos dedos. - Para onde vai o barco?
- Para onde vão todos os barcos, desde que o mundo é mundo.
O velho também contempla a figura de proa, com um carinho paternal. Talvez ele próprio a tenha esculpido, muitos éons atrás.
- Alguém virá para me substituir?
- Essa é uma preocupação que já não lhe cabe.
Não há censura na voz do velho, é apenas a constatação de um fato.
- Gostaria de ficar mais um pouco. Sinto que ainda falta dizer tanta coisa...
O velho sorri, como se já esperasse por aquela reação.
- Não, não falta. Não para você, pelo menos.
Malprg insiste:
- Há temas que comecei e não desenvolvi. Questões que levantei, mas não respondi...
Ouve-se um barulho arrastado e uma plataforma de embarque é estendida pela lateral do navio, levantando outra nuvem de poeira.
- Deixe que os temas saberão cuidar de si mesmos - aconselha o velho. - Quanto às questões, elas não existem para ser respondidas, mas para produzir novas questões. - Depois de uma pausa, acrescenta: - É assim desde que o mundo é mundo.
Malprg tem a impressão de entrever vultos evanescentes debruçados sobre a amurada mas, do chão, não há como ter certeza.
- O que vai ser de mim?
O velho dá de ombros, indiferente.
- Que importância tem isso? Você não existe. Nunca existiu.
Malprg sabe que é verdade. Jamais foi outra coisa que não um punhado de letras sopradas por um impossível vento lunar. Resignado, volta-se para se despedir do velho, mas nenhum dos dois está mais lá. Sem ter o que fazer num lugar onde já não está, caminha lentamente em direção ao navio.
Para passear na floresta, enquanto Seu Post não vem:
Duna à parte, continuo achando David Lynch um dos maiores cineastas vivos (eu e a torcida do Flamengo, claro) - não tanto por seus filmes mais antigos, com exceção de Eraserhead, e mais pela "trilogia" formada por A Estrada Perdida, Cidade dos Sonhos e Império dos Sonhos, que apresentam algumas das sequências mais perturbadoras que o cinema já viu. Saber que ele pratica meditação há trinta anos e que credita a isso o elemento visionário de seus filmes só fez aumentar minha admiração. Foi com uma certa ansiedade, portanto, que eu recebi a notícia de que seu livro sobre o assunto, Catching the Big Fish (aqui rebatizado como Em Águas Profundas) seria traduzido em português e, mais ainda, que Mr. Lynch em pessoa viria divulgar o lançamento em uma série de palestras por todo o país. Ok, as palestras foram mesmo várias mas, atolado em trabalho, eu consegui não conseguir ver nenhuma. Minha frustração por perder as palestras diminuiu quando, por relatos na imprensa, comentários de amigos e vídeos na Internet, tornou-se óbvio que ele não disse nada que já não estivesse, verbatim, no próprio livro. Em compensação, minha frustração ao ler o livro não tem feito outra coisa senão crescer.
Há um que outro comentário interessante sobre a natureza do cinema, algumas anedotas curiosas sobre os bastidores de seus filmes, mas, quando trata do tema principal, meditação e criatividade, Lynch torna-se oco feito um press-release mal-escrito e de uma dilacerante banalidade. O garoto-propaganda do Maharishi Mahesh Yogi não afetou em nada minha opinião sobre o cineasta, mas dizer que eu esperava mais do livro seria o understatement do século.
...mas é bem bacana e, como alguém disse nos comentários ao vídeo, parece ter sido inspirado em um ou mais contos fantásticos do Mark Twain:
(Ah, sim, as respostas aos comentários: não desanimem, meus Vinte Fiéis Leitores. Semana que vem, prometo responder a todos como se deve!)
Neste nível de consciência, não existe consciência i-mediata: a psique só tem acesso ao mundo por intermédio de
representações criadas pelo cérebro a partir da interpretação de sinais eletroquímicos trocados entre os neurônios, e entre os neurônios e as terminações nervosas do sistema sensorial. Sartre insistia que a consciência é sempre consciência de alguma coisa, o que os fenomenologistas designam como "intencionalidade da consciência". O que tanto os fenomenologistas quanto Sartre se esqueceram de levar em conta é que essa "alguma coisa" de que a consciência tem consciência é sempre e necessariamente uma representação gerada pela própria consciência, que está, dessa forma, encapsulada em si mesma e inapelavelmente alienada do mundo. Como dizia São Paulo, vemos apenas em espelho - a scanner darkly.
Mas isso não é tudo.
Crianças, como vocês devem ter percebido, eu não estou nem aqui. Fui sequestrado de novo pelos tralfamadorianos, mas eles juraram que, se eu for um bom menino, me liberam daqui a alguns dias. Nesse meio tempo, quem curte ficção científica pode ir se divertindo com esta resenha do romance A Mão Que Cria, de Octavio Aragão.
Dr. Dragan "David" Dabic was born some six decades ago in a small Serbian village of Kovaci, near Kraljevo. As a young boy he liked to explore nearby forests and mountains, spending a lot of time on Kopaonik mountain where he tended to pick the omnipresent, natural and potent medicinal herbs that grew at those green pastures. As a young man he moved to Belgrade, and then on to Moscow where he graduated with a Doctor of Medicine degree (spec. in Psychiatry) at the Moscow State University (Lomonosov). After Russia, Dr. Dabic travelled around India and Japan, after which he settled in China where he specialized in alternative medicine, with a special emphasis on the mind-body control, meditation, Yoga, spiritual cleansing, as well as Chinese herbs. In mid-1990s Dr. Dabic returned back to mother Serbia for good, and ever since then emerged as one of the most prominent experts in the field of alternative medicine, bioenergy, and macrobiotic diet in the whole of the Balkans, and is frequent contributor to the regional alternative health magazines, and guest expert with numerous TV appearances and on many public forums, seminars and symposiums (Belgrade, Novi Sad, Pancevo, Sombor, Smederevo, Kikinda...) dedicated to these issues and topics.
Dr. Dragan Dabic currently resides on Yury Gagarin street in New Belgrade, but for public forum invitations, television appearances or private consultations he can be reached directly at the following contact:
healingwounds @ dragandabic . com
"Then there are the fanatical atheists whose intolerance is of the same kind as the intolerance of the religious fanatics and comes from the same source. They are like slaves who are still feeling the weight of their chains which they have thrown off after hard struggle. They are creatures who—in their grudge against the traditional ‘opium for the people’—cannot bear the music of the spheres. The Wonder of nature does not become smaller because one cannot measure it by the standards of human moral and human aims." - Albert Einstein
Pelo que eu consegui fuçar na Internet, Bruce Harrah-Conforth é um ex-hippie velho, fã do Grateful Dead e de Timothy Leary. Mas é também um neurocientista, ligado à Universidade de Indiana e interessado no estudo de estados alterados de consciência e, mais especificamente, na possibilidade de usar tecnologias de estimulação sensorial para induzir esses estados. Seu ensaio "Acessing Alternity" é uma sucinta, mas detalhada, revisão da literatura sobre o assunto, além de apresentar algumas interessantes especulações sobre o potencial místico do que um dia, lá pelos idos da década de 80, foi chamado de dream machines, mas que hoje são mais conhecidas como brain machines ou mind machines. Claro, o fato do ensaio estar disponível no site de uma empresa que vende vários modelos desse tipo de equipamento (foi assim que eu trombei com o texto, por sinal) atesta que sua opinião talvez não seja exatamente desinteressada. Mas o Dr. Conforth não esconde suas intenções proselitistas, muito pelo contrário, reconhece-as de cara, além de citar criteriosamente suas fontes bibliográficas (que vão de Charles T. Tart a Carl G. Jung, além dos inevitáveis, no contexto, Aldous Huxley e John Lilly). E as idéias que ele discute, independente das possíveis intenções publicitárias, são estimulantes (sem perdão do trocadilho).
Em 10 de dezembro de 1996, Jill Bolte Taylor, de 37 anos, teve um derrame no lado esquerdo do cérebro, que a deixou com sequelas das quais levou oito anos para se recuperar totalmente. Dois detalhes tornam o caso de Taylor praticamente único, fazendo com que suas recém-lançadas memórias sobre a experiência, My Stroke of Insight, pareçam uma leitura das mais interessantes. A primeira é que ela é uma neuroanatomista da Universidade de Harvard, de modo que o livro é uma narrativa em primeira pessoa feita por um especialista que entende do riscado. A segunda é ainda mais importante: durante o período em que seu hemisfério esquerdo ficou virtualmente paralisado e o hemisfério direito assumiu as funções, Taylor teve o que só se pode qualificar como uma experiência mística, que mudou completamente sua percepção da realidade. Se as sequelas físicas foram felizmente temporárias, as transformações psicológicas (e espirituais) se revelaram muito mais duradouras. Na TED Conference deste ano, em Monterey, Califórnia (as TED Talks são um evento anual que, sob o slogan "ideas worth spreading", reúne nomes que vão de Susan Blackmore a J. J. Abrams), Taylor fez uma palestra emocionante, descrevendo a experiência, seus efeitos e os motivos pelos quais ela acha que seus insights são "uma idéia que vale a pena espalhar":
Recent Comments